Eu sou: Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.
Créditos: À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
Filosofia Crônica
Quarta-feira, Outubro 11, 2006
Um texto mal feito pra comentar algo bem feito
Tendo-que fazer um ensaio sobre O Quinze de Rachel de Queiroz e no desespero de não saber o que fazer, comecei a ler mais sobre ela algumas crônicas, alguns textos, e cada vez mais me identifiquei com o jeito dela. Ela é, como dizem, modesta e acha que escreve mal pacas (e realmente também não acho grande coisa certas coisas...), assim como eu. Só a carinha de tartaruga dela (concordo numa das crônicas em que ela dizia que beleza era sim importante e fundamental, não só por atitude contra-intelectual típica de quem quer ser diferente até dos que concorda, mas porque devia ter auto-crítica suficiente pra não se perdoar a feiúra) já fazem você detestar ela. Agora, junte uma carinha de vovó-tartaruga com uma comunista que virou direitona... bom, eu não gosto dela ao mesmo passo que não detesto. Realmente não concordo com tudo mas me identifico mesmo assim. Aí não sei sobre o que falo no meu ensaio... ainda. Descobri nela uma temática que se repete bastante - e que seria um campo fácil pra eu abordar -: a da morte como libertação, coisa boa - creio que ela morreu aos 92 anos por tanto dizer que dá uma preguiiiiiiiiça viver! Por mais que ela diga que a vida não promete nada e tatatá, essa foi uma sacanagem da vida que dá até pra ouvir um risinho irônico no ar. Outra temática é dela como mulher falando de mulher e criando personagens mulheres. Alguns textos ela até dá raiva de tanto que chega a ser machista... e ao mesmo tempo ela era a maior feminista enrustida da paróquia. É foda escrever sobre alguém assim..... ambígüa, ambivalente... enfim, nada de diferente. E chata. Só não devo entender direito ela, nem gostar, pela situação constrangedora e forçada em que nos conhecemos. Deve ser isso.
Férias. Eu não estou indo trabalhar essa semana, mas ainda assim, preciso de férias. Sempre fui uma fracote e trabalhar e estudar ao mesmo tempo não é pra mim... Não consigo mais ouvir nenhum professor sem revirar os olhos e soprar o ar. Estou cansada de toda aquela baboseira igual, igual que fica se repetindo e nem mais me faz qualquer sentido. Cansada da vaziozice das pessoas, cansada da mesma casa, dos mesmos professores, do mesmo trabalho. Quem diria que eu, euzinha, sou tão afeita a estar sempre mudando? Isso é bom, é bom. Mas é mal porque os dias, semanas, meses anos sempre se dividem igual, o horário das coisas é sempre o mesmo. Não dá pra pedir pra mudar só por umas semanas não. Quero viajar. Pra um lugar diferente dessa chulice de sempre. Sem nada igual, nada! Vontade explodindo de pegar a transiberiana. O Paulo Coelho é um bobo feio, mas eu queria ser ele só por um tempo, pra andar de trem e dar autógrafo para russos perdidos no meio da taiga que têm pôster meu em seus iglus. O problema é o tenho-que. O tenho-que é à toda hora, mesmo parada sem fazer nada. Tenho-que tomar banho, tenho-que ir no banheiro, tenho-que comer, tenho-que trabalhar, tenho-que escrever um trabalho, tenho-que de todos os tipos. Aí é demais, demais mesmo, que até no momento em que só estou pensando e reclamando da minha sina me apareça um tenho-que dizendo que preciso mudar meu comportamento, meu modo de ver a vida. Ora! Pior ainda quando vem um tenho-que dizendo que tenho-que parar de me preocupar com isso. Aí estou escrevendo esse monte de asneira porque tenho-que atualizar meu blog. E se alguém me disser que eu tenho-que alguma coisa, nem que seja mudar meus textos, com toda a razão... eu explodo, explodo mesmo! Mas eu prefiro estar alerta que estar morrendo. É bem melhor que tempos passados em que eu só detestava minha vida, dentro de um tédio maciço. Era difícil, eu queria mudar, mas como conseguir impulso quando se está na inércia? Eu pedia, implorava pra minha mãe por um psicoalgumacoisa pra fazer isso parar e ela achava isso frescura. Meu irmão dizia pra eu ir numa ong ajudar crianças com câncer descobrir o que é verdadeiro sofrimento, meu padrasto dizia que era espírito ruim. Agora os dois - irmão, padrasto - largaram emprego e estão deitados em cama dias à fio e freqüentando psicosalgumacoisa. Sem mentira, parece até, mas é verdade. Tive vontade de dizer a eles que isso é falta de vergonha na cara ou algo igualmente idiota do tipo, como eles me diziam, mas deixa pra lá eles sofrendo já é suficiente pra a vingança que nem pedi. Preferia estar esbanjando felicidade do que sabendo que eles estão mal. Ou ganhando dinheiro através do sofrimento deles. Só com eles sofrendo não ganho nada, só graça. Quem sabe dessas até pensa que é destino, deus ou uma dessas coisas que só existe pra fazer rima forçada ou dar jeito numa métrica difícil da vida. Se não é aqui-se-faz-aqui-se-paga, verdade é que se fuderam. Acho que isso explica tudo: bem-feito.
Marcely contou às 4:45 PM .
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.