Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
Powered by Blogger
Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

eXTReMe Tracker

Filosofia Crônica

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Sem título n° 11

É, eu escrevendo para o blog? Depois de todos esses longos anos de reserva?
Pois é, não era hiato criativo, não era por andar muito fútil nem porque minha vida andava na mesmice... não, nada disso. Também não é porque me sentia acuada pela presença constante do Dããniel, nem por pressão, nem por não saber de algum motivo mais edificante que a simples necessidade de ser alguém no mundo para escrever.
Não, eu estava todo esse tempo apenas meditando, entrando no fundo da minha alma e do meu eu... em silêncio nirvânico, endoplasmática, pra não acordar o belo embrião que dormitava esplêndido. Foi assim, nesse rito, que eu mesma caí num sono profundo e silencioso, até o ponto de ficar idiota ¬¬.
E é esse o real motivo de eu ter parado de escrever por tanto tempo – e provavelmente por outro longo período depois disso.
E o motivo de eu ter retornado não é porque finalmente eu tive um acesso repentino e raro de criatividade, nem porque tenha me esforçado por mim mesma. Não, eu continuo a mesma pessoa paradoxalmente egoísta que não faz as coisas pra si porque não quer cansar a si mesma.
O motivo real de tudo isso é pura e simplesmente porque eu andei lendo a caixinha de comentários, e mesmo sabendo da verdadeira identidade do Diego, eu quero continuar sendo a peguéte dele.
Mas a verdade, a verdade verdadeira, é que eu não queria continuar falando só de mim mesma. Nunca vou ser escritora coisa nenhuma se continuar assim. Por isso eu me identifico com a Clarice... não por escrever estupidamente bem como ela, mas por viver parecido um drama. Não quero ser autobiográfica. Quero falar dos outros, mas só conheço a mim. Aliás, nem a mim mesma tanto assim. E por aí vai. Eu odeio minha personalidade egoísta, mas não sei viver sem ela.
E, se for pra falar de mim, que eu pelo menos fosse brilhante. Mas não sou.

Não, eu não voltei a escrever pra falar do porquê eu não escrevia. Isso é tão lugar-comum, não é mesmo? Se tem uma coisa no mundo que eu, Nananãna, não gosto, é fazer coisas iguais as que todo mundo faz – isso embora eu não goste de me sentir fora do clube. E, o pior, o piooooor de tudo, é que é lugar-comum também tentar não ser lugar-comum. Sendo que quero ambas as coisas, acho que é a melhor opção, ainda assim.

Estou escrevendo tão mal... mas é a perda do hábito, vocês devem entender.

(eu escrevi um post antes desse, mas parei pra almoçar e perdi o pique. Ele continua até hoje sem terminar.)

De qualquer forma, não penso como antes, que minhas idéias vão livrar o mundo das cáries, que só com minha incrível e saltitante personalidade irei encontrar a cura do câncer literário.
Também por isso parei de escrever.
Tudo desculpa também! Foi só preguiça! Mas não só uma qualquer preguiça. Essa palavra tem um tom tão displicente, tão engraçadinho. Não é isso que eu quero passar. A minha preguiça é uma preguiça muito pesada, ela vai me matar de verdade um dia.


[espere, pare, mudei mais ainda o rumo agora]

..........................As palavras não comunicam o que deviam se viessem peladinhas. Por isso as pessoas escrevem literariamente. As palavras precisam vir adornadas de todo um resto de palavras que dêem a ela a idéia certa, exata. Isso é escrever bem. E apenas literatura sabe mostrar, ao contrário do que se pensa, o verdadeiro sentido das palavras. E o verdadeiro sentido de tudo. Porque não tem a incumbência disso. Tem a liberdade para isso. Eu não uso as palavras apropriadas porque no dicionário têm esse sentido mais conforme com o que quero dizer. São apropriadas porque são bonitas, porque eu gosto delas, porque eu quero assim e quero dizer assim. E se eu disser assim, com todas as palavras emboladas, engroladas, mal-formadas (é, mas eu releio tanto o que eu escrevo... umas dez vezes e sempre arrumo! São as palavras erradas certas), eu vou poder comunicar o que eu quero, porque o que eu quero dizer não deve vir com as palavras de sempre numa ordem previsível. Se vier, é que já foi dito. E por isso não vai dizer nada. Se diz coisas novas e certas com ordens incertas e palavras tulmutuadas. Se a coisa é nova, as palavras têm que vir novas.
(isso é algum manifesto?)

Eu ia falar, depois de tudo, de um pensamento meu, de momentos meus, muito banais. (eu tenho sérias dificuldades em ordenar meu fluxo de pensamento, é... ele jorra entre meus dedos que nem água quando a gente esguicha.).
Um deles é a morte de uma pessoa X do meu trabalho pra qual eu sorria e trocava tchauzinhos. X morreu de acidente de carro e eu me senti muito compadecida, é claro eu conhecia ela! – embora eu não saiba o nome.
Mas o pior drama foi quando eu voltava pra casa... depois de uma onda de azar que tenho levado, só faltava mesmo eu morrer atropelada – eu pensei uma hora. Pois foi pensar nisso e bum, veio uma idéia na minha cabeça: já pensou se eu morresse também num acidente de carro, que horrível pra minha imagem? As pessoas iam dizer: a Marcely morreu de carro, logo depois da pessoa X, acredita?
Pois é, imagina se eu morresse do mesmo jeito que outra pessoa. E onde ficaria minha auto-estima de pessoa que não faz sempre as mesmas coisas que os outros fazem?

Outra coisa é... bom, já que tenho que postar mais vezes eu conto depois – porque o post já ta disforme... se eu colocasse essa outra idéia, ainda, o post ia ficar com elefantíase.
Pois é, é esse meu ideal. Fica aqui só pra me constar:
Eu tenho uma noção de certo e de beleza. E é isso que eu quero passar ao escrever. E eu não peço pra fulaninho me dizer se ta bom ou ruim porque o texto tem que ter a minha beleza e o meu certo. Se o resto do pessoal não gostou: reescreve. E faz outro texto. Porque é assim: sempre a mesma idéia, só a ordem é diferente.
(eu estou me explicando pra quem?)


Marcely contou às 6:08 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos