sábado, 12 de março de 2011

Inabilidade social

   Não é segredo pra ninguém, eu acho, que eu sou, apesar das aparências (embora eu não saiba ao certo aparência do que que eu tenho), uma pessoa muito inábil socialmente. E eu vou enumerar aqui os inúmeros motivos (porque eu sou muito inteligente, eu vou conseguir enumerar o que é inumerável) que me levam a ser assim. O primeiro é o fato de que eu começo num assunto e passo pra outro a partir de parênteses inúteis.
   O segundo é o fato de que me apavora a frase: “vamos marcar de a gente se ver!”. Me dá um frio na barriga isso! Se você quiser sair comigo seja claro: vamos comer x-bacon, vamos jogar baralho, vamos fazer compras, etc. Mas só marcar de a gente se ver me parece sempre uma coisa muito assustadora. Uma dica: eu gosto muito de sair pra comer, eu não sei se é de sair que eu gosto ou simplesmente da parte de comer, mas eu gosto muito. A melhor parte de sair com amigos pra comer é que, se você ficar sem assunto, você pode fingir que está mastigando, ou ainda pode comentar: hum, esse arroz ta sem tempero, mas é assim que eu gosto e aí o assunto rola, ou morre e você parte pra comentar do feijão etc. Eu também adoro jogar (mas aparentemente ninguém mais faz isso depois dos 18 anos, então eu fico sem graça de convidar), também ajuda muito na falta de assunto, até melhor que a comida, você pode se bastar de conversar só sobre sua mão no jogo, muito maravilhoso isso.    Agora, marcar de se ver, convenhamos, mesmo que você seja um amigo muito bonito parece ser bem entediante.
   Outro ponto positivo de sair pra fazer algo (e não só diga “fazer algo”, eu não sei escolher, tenho medo de dar uma dica que a pessoa odeie e aceite só por educação e ser catastrófico, escolha por mim, por favor, eu te imploro) é que esse algo é muito bom pra desviar a atenção das nossas próprias cagadas. Eu sou uma pessoa muito perturbada (fico toda hora me perguntando sobre tudo que me perturba, porque sou assim e acho que é basicamente isso mesmo que me faz ser uma pessoa perturbada, o fato de me sentir muito esquisita. As pessoas que aceitam suas esquisitices não são perturbadas). Então quer acabar com o meu dia é naquela ocasião da conversa eu citar quindim e depois ficar me remoendo “meu deus, que vergonha, eu devia ter falado empada, por que eu fiz isso, meu deus?, todos devem estar pensando agora que eu sou uma adoradora de quindim retardada”. Mas quando a gente sai pra comer, a comida desvia a atenção. Você até pensa depois: afe, eu não devia ter dito aquilo, foi babaca, mas isso acaba sendo esquecido ao lembrar da comida.    Principalmente porque depois eu estarei com azia (porque nesses encontros, devido ao nervosismo maior, talvez, eu coma igual uma condenada), e isso irá me fazer me lembrar mais da comida do que do fato de eu ter falado infalivelmente uma bobagem e de todos estarem agora em suas casas comentando sem parar que eu sou uma boba (afinal as pessoas se importam muito com a minha existência, principalmente porque é uma existência ruim). Também vale pro jogo, se eu ganhei (porque eu sempre ganho) eu vou ficar contente lembrando que eu ganhei, então todos estarão lembrando em casa: puxa, a Marcely manda muito bem no jogo, ela é o máximo (afinal quem não gosta de pessoas que jogam bem, né? Principalmente porque eu vou ter comentado do início ao fim que eu ia ganhar, que eu ganho e que eu ganhei).
   Sair pra fazer compras é bom, mas eu tenho vergonhazinha. Primeiro, porque eu tenho um gosto meio vergonhoso pras coisas. Segundo, porque o assunto não é tanto assim. Terceiro, porque eu não tenho tanto dinheiro. Quarto porque odeio ficar trocando de roupa o tempo todo e isso me deixa suada e descabelada. Mas se você for minha amiga de muito tempo e também tiver um gosto duvidoso como eu isso vai acontecer muito naturalmente e será legal, embora eu vá fazer algo muito errado durante isso, tudo que eu lembrarei em casa é que tenho coisas novas. E as coisas novas são melhor que ganhar e azia pra se esquecer das idiotices, elas realmente prendem sua atenção.
   Acho que isso é basicamente o que faz de mim uma inábil social. Isso e o fato de ter medo de sair de casa sozinha (dica: venha me buscar em casa e segure minha mão na hora de atravessar a rua).
   Bom, agora que eu exorcizei esses fantasmas acho que perdi um pouco o medo. Por outro lado, acho que ninguém irá querer me chamar pra sair depois disso.

3 comentários:

Isang Gallow disse...

Nossa, me identifiquei muito!!

Isso é fobia social..

O meu caso melhorou um pouco e estabilizou numa ansiedade social, mais manejável, mas ainda perturbadora (muuito menos do que antes).

aldo cesar teixeira espindola disse...

Bom depoimento

Pat Stein disse...

Marcely, me identifiquei totalmente. E adorei a descrição de todo o processo, do que se passa dentro da sua cabeça... Da forma como vc fala (até isso é parecido: os parênteses, a fala sem uma ordem reta e linear). É isso mesmo. Vamos trocar ideías?