Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
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Filosofia Crônica

Segunda-feira, Março 23, 2009

1, 2, 3, 4 Mal-estaaaar!

Estou passando mal há mais ou menos 20 dias. Durante vinte dias, acordei e fui dormir praticamente com a mesma zonzeira, o mesmo enjôo, o mesmo mal-estar generalizado, a mesma visão turva. Depois de tanto tempo você fica até pensando: "será que eu não vou ficar assim pra sempre?".
Será que eu não vou ficar assim pra sempre? Estou cansada de reclamar do mal-estar. Estou cansada de estar cansada, estou cansada de sentir vontade de vomitar, a cabeça tonta, a visão imprecisa. Estou cansada de procurar ajuda e não receber. De não ter ninguém pra me ajudar, nem nada. Estou cansada de tentar buscar ajuda e saída pra depressão e só piorar o quadro. Estou cansada de arrastar os outros pro meu buraco, estou cansada de nunca melhorar. Estou cansada de tentar sobreviver num estado tão horrível, sem ajuda médica. Estou cansada de ser para os médicos só mais um doente. De não ser nada demais, no entanto já não estar suportando mais. Cansada a ponto de cortar os pulsos, cansada a ponto de fazer asneiras porque pensar... pensar já está longe de mim, raciocínio não funciona com tanto sentir por trás. É tão fácil dizer: tome isso, tome aquilo, faça isso, sobreviva, seja forte. Quando não é você que está passando por isso. Não dá pra ler, não dá pra escrever direito, não dá pra fazer as unhas, não dá pra andar, não dá pra comer, não dá pra nada, sem uma sensação horrível por trás, com desleixo porque... porque você não está imerso de verdade na atividade. Você é uma névoa, uma nuvem de mal-estar, tentando abranger algo, mas sendo só nuvem. E o desespero de saber que não tem remédio ou médico que possa me ajudar? E o sol irrita, dormir irrita, tudo irrita, tudo dá náusea. Eu quero morrer, acabar com isso de vez, de vez, parece ser a única forma.


Marcely contou às 12:27 PM
.

Terça-feira, Março 17, 2009

Manual de sobrevivência (ou não) para depressivos

1- Em primeiro lugar, lembre-se: ninguém está nem aí pra o que você sente, faz ou deixa de fazer. Se você está triste porque um parente morreu ou porque acordou com o pé esquerdo GUARDE ISSO PRA VOCÊ. Se você é um deprimido inútil e preguiçoso, desculpe, a gente não, temos mais o que fazer do que ficar escutando você se lamuriar.
2- Se sua tristeza persistir por mais de 8 anos, você se auto-mutilar, se afastar do convívio social, não conseguir trabalhar ou levantar da cama, isso é fraqueza. Vá ler autoajuda ou frases motivacionais, pode ser que ajudem.
3- Se você acredita nessa balela pseudo-científica dos médicos de depressão de origens neuroquímicas, você é um coitado, vá trabalhar, dar de comer aos pobres, limpar velhinhos num asilo, dar comida pra crianças com câncer e ver o que é DOENÇA DE VERDADE.
4- Se você optou por tomar remédios pra aplacar sua depressão, vá em frente e tome a cartela toda de uma vez se não estiver funcionando.
5- Ou se sua cartela não estiver funcionando, procure um novo psiquiatra, ele pode receitar outra cartela... e assim por diante, infinitamente.
6- Se você quer alguém pra te escutar, procure outro depressivo, são desocupados como você (se bem que depressivos são egoístas por natureza e em vez de te escutar, provavelmente te faça escutar a própria ladainha).
7- Se você quer ser escutado por alguém, PAGUE, porque tempo é dinheiro e pessoas não-depressivas têm mais o que fazer, se vão te escutar isso te custará alguma coisa, não?
8- Lembre-se, se você é um depressivo, logo você é um fraco e tudo em você é psicológico, de dor no dedinho do pé a tumor nos seios ou na próstata.
9- Get a life!
10- Já saiu hoje? Pois é, enfurnado em casa é que não vai melhorar, vai dar uma volta na esquina e ouvir os passarinhos cantarem.
11- Coma muito chocolate e tome chá de Erva de São João (use camisinha, erva de são João faz você cagar tudo o que ingere, incluindo anticoncepcional).
12- Lembre-se: "No fim tudo dá certo, se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim."... se você optou por se matar, bom, lembre-se que isso não será o fim, satanás te espera com uma panelinha nos infernos... mas no final, tudo dará certo! ;)

Autor: Senso-comum ou mais 99% da população mundial.


Marcely contou às 3:22 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos