quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Os dias

O vento entrava pela janela do carro na direção do meu rosto, dando aquela sensação boa que vem de fora para dentro – e não é isso que fazem a gente acreditar: que as sensações boas vêm de fora para dentro, as más de dentro para fora, como se fôssemos sempre os culpados por não sairmos de encontro ao vento ou algo do tipo? Ele dirigia. Eu dizia algo, talvez sobre o vento e sobre a culpa e sobre minha instabilidade de sempre. Ele dirigia. Voltei a olhar para fora. As árvores, árvores, árvores passavam. Coloquei um cd para espantar a monotonia. Comentei o cd para espantar a monotonia. Mas ele dirigia. Por que eu insistia em atrapalhar sempre? Olhei novamente lá fora, com a música. Ficava menos monótono, mas eu já tinha esquecido o vento – eu sempre acho viagens cansativas. Tentei pensar no vento como a água refrescante de uma piscina – eu sempre pensava isso. Então eu mergulhava um pouco – pensava – voltava para superfície, nadava, mergulhava de novo. Os carros se ultrapassavam para depois se ultrapassarem de novo. Nas curvas e subidas íngremes as faixas amarelas mudavam e se tracejavam, de um lado ou de outro sempre seguindo uma lógica. Eu me apegava à lógica. Logo percebia que estava tornando aquilo uma tarefa necessária – descobrir a lógica das faixas –, em cima do meu olho doía. Parei (voltei para a superfície). Quanto faltava para fazermos a parada, para comprarmos algo pra comer? Muito e se pensar nisso aumenta. E para chegar? Eu quero chegar. Mas também, se ficar pensando nisso, o tempo aumenta. Comento a música, gosto dessa música. Ele diz também – e dirige. As árvores, as matas, sempre quis entrar dentro delas. Eu gosto de árvores, gosto do cheiro. Acabam as árvores e vem o campo... o campo chato, o campo com algumas casas solitárias que me dão ainda mais monotonia por compaixão. Tento pensar uma história, como quando era criança... quando chegar vou andar até uma sala e fingir que estou feliz por rever... Abraços. Não tem nada para fazer quando chegar. Eu vou comer quando chegar. Demora muito a parada? Pego uma bala – comer sempre me satisfaz, sempre me distrai – a não ser quando almoço sozinha – como legumes pela saúde, como pouco por economia, eu me atarefo com idiotices. Presto atenção na música. Canto sem voz. O céu, céu e as árvores, árvores, árvores. Uma placa... decodifico a placa. Presto atenção a cada placa, no mato, no céu, volto às faixas.

Comemos. Comemos e deitamos. Falamos uns com os outros – e ainda é mais monótono. Não gosto dos mais velhos. Não gosto dessas conversas de cortesia. Deitamos. Pela persiana a lua aparece bem redonda, nunca vi a lua assim deitada na cama. É porque nunca morei em um apartamento alto. Eu vejo a lua. Eu falava, mas ele dormiu. Ele tinha que dormir. Eu falo baixo, eu abraço ele, eu acaricio. Eu estou mais uma vez tentando espantar a monotonia e acho que tenho que falar algo. Ele dorme. Falo bem baixo. Paro. Olho a lua... a lua forte que começa a ficar fosca por causa de uma parede de nuvens. É estranho pensar que a lua recebe a luz do sol. Me irrito: o sol deveria estar ausente agora, era a lógica. Eu sempre me apego à lógica. A lua reflete e por isso eu odeio ela: ela me engana com seu encanto roubado. Eu não gosto do sol e portanto não posso gostar da lua, embora sempre tenha gostado. Acaricio, murmuro. Ele dorme. Vou falar sobre a lua, vou falar sobre mim. Estou cansada da lua e de mim. Quando eu era pequena tinha medo de ser cachorro ou de ser árvore porque eles sempre estavam parados e sem fazer nada. Eu sempre me transferia e odiava ser eles. Mas eu também estou parada e contemplativa, e por não ser mais criança eu sei que não é fazendo algo que vai melhorar. Eu sempre penso em mim. Estou cansada de mim e de tudo, e se tivesse motivos e se tivesse ânimo iria ajudar criancinhas com câncer para tentar me alegrar. Odeio isso. A lógica da alegria vindo de fora. É terrível, a alegria está em desvantagem, porque também coisas de fora nos deprimem. Mas nós, por dentro, nunca somos alegres sozinhos. Ele dorme. Eu levanto, bebo água para manter a saúde. Eu sempre me atarefo com todas as idiotices. De repente durmo (agora sim a alegria vem de dentro). O despertador toca umas cinco vezes. Eu detesto o barulho histérico do despertador que a rotina transformou num pavor de ódio. É o sol, é mais um dia, é a consciência de mim, é a monotonia. Volto a dormir, graças a deus. Ele levanta. Ele se arruma. E se tivessem empregado ele para falar e alegrar alguém por nove horas ele faria competentemente. Eu não conseguiria. Por isso eu coloco ele nesse altar, me arrependo de falar com ele pela noite, de tentar sair, de tentar conversar, para poupar a energia dele... mas eu não entendo, eu continuo tentando, eu continuo tentando porque sou muito egoísta. Ele se despede, me beija competentemente.
- Vê se sai hoje.
Ainda obrigo ele a esse esforço, porque falo muito de mim. Volto a dormir. Eu deveria me orgulhar porque dinheiro não é incentivo suficiente para mim ou me detestar pela minha preguiça? Volto a dormir... volto a dormir... Durmo o máximo possível. Durmo muito. Quando acordo faço comentários dentro da minha cabeça como se fosse para ele. Espero ele chegar para contar. Quando ele chega eu não conto. Antes de ele chegar eu já não quero mais que ele chegue. Eu já me sinto miserável de novo e vou falar de mim. Eu vou gastar todo ele comigo. Eu me atarefo com qualquer idiotice: agora minha tarefa é poupar ele. Nós comemos. Comemos e dormimos.

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