Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
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À minha ociosidade.
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Filosofia Crônica

Domingo, Fevereiro 05, 2006

Marina

Eu não sei me expressar, talvez. Estou ficando insatisfeita com qualquer palavra ou frase. Me incomoda as interpretações. Me incomoda a tranbordância de sentido em tudo. Me incomoda as facções e minha dúvida entre elas por serem definidas demais, estáveis demais. E ao mesmo tempo não queria estar tão solta, sem um rótulo vão me deixar na prateleira. Me incomoda não ser estúpida e ao mesmo tempo ser alvo de pessoas estúpidas. Me incomoda não haver imparcialidade. Me incomodaria se existisse imparcialidade. Me incomoda. Talvez haja uma matemática universal, que nos permita prever, que nos dê a sensação do dejà vu. Talvez essa matemática caótica, que eu que não sei sequer a taboada inteira não consigo interpretar, mas desconfio... essa matemática talvez diga que quanto mais fujamos mais somos perseguidos, que quanto mais perto do sim, mais próximos estamos do não. Que quanto mais sóbrios mais loucos. Que quanto maior o silêncio mais soam as palavras e os gritos. Quanto mais acompanhados estamos sozinhos. Quando sozinhos estamos por demais acompanhados. Assim como os sinais opostos se subtraem.
Eu é quem me incomoda. Eu que por um ano inteiro me soprei aos ouvidos até perder meu próprio rumo e me fez culpar os outros - ah, nós não podemos ser culpados de nossa desgraça, então para onde fugiríamos? Vejo uma cena em que tapasse meus ouvidos de mim mesma e ainda assim não pudesse me calar, e em desespero cairia de um abismo. Então ponho a música para fazê-la dançar e cantar. Vezes e vezes repetidas, eu também enlouqueço. Talvez não seja nada disso. Desconfio que sim, ao mesmo tempo que não. Sempre mais do mesmo, não? Até meu sempre se contradiz.
Pensando na música que toca agora de Fiona Apple somada ao relativo. Será mesmo que nenhuma percepção é igual? E talvez por isso as coisas são tão multicolores. Mas vejam, não defenda a cor como única, aquela que está ali independente de nós. Isso pode muito bem não existir pois veja, até a dor mais lacinante é uma ilusão, é uma percepção de nosso cérebro e não da própria ferida. Para que você não queime sem perceber, não é assim? Assim também a beleza não está lá, nós a percebemos. E a tristeza é só o que eu imagino ser triste.
E, veja que louca matemática!, muitos virão a se reconhecer por aqui. Mesmo quando a percepção pudesse ser única, "a sua vida só você vive". Eles não concordarão em tudo, não, não em tudo. Eles não ficarão tristes com a mesma coisa. Sabe o que nosso deus-mar fez? Está vendo ali na frente a areia onde iremos derreter? ele pegou cada grãozinho dessa areia, digamos, milhões de grãos, entre eles cada dez são iguais. Ele jogou sobre nós, ondas, tudo isso foi parar lá no fundo, embaralhado e quando passamos, nós ondas, refletimos esses grãos formando uma combinação única. Todos ondas ainda assim. Mas e aquele menino tão novinho que se jogou da janela por causa da namorada? Ou o embrião que foi abortado? Eles desperdiçaram uma combinação única? Deixaram o mundo na dúvida de como seria esse ser em especial? Como um livro sem final? E a garotinha, que ser aquele que não era nosso deus-mar, (o que já não era também a areia) que nos levou em seu baldinho? E o que há depois da areia? O que são as pazinhas e as fôrmas de conchas e os peixes? E as rochas? Interessa saber de tudo isso? Se ainda assim o sol vai se pôr e nos dourar para enfeitar os olhos dos namorados... e tudo não precisava de explicação para acontecer.

(E para esbagaçar a poesia: e o xixi? Tem gente fornincando em nossas águas e coisas piores boiando. Talvez esses novos elementos tenham sido os gênios, seres tão destacados entre nós ^^)
Ps: sempre quando escrevo formam-se mil caminhos por onde posso conduzir o texto, por isso minha autocrítica. Talvez um caminho fizesse a metáfora mais consistente, outro ainda mais poética, outro ainda mais interessante. Porém meu id quis assim. Ou talvez se eu fosse o Goro do Mortal Kombat e pudesse digitar em dois editores de texto ao mesmo tempo sairiam coisas divergentes e legais, do mesmo assunto. Ah, isso é enxergar colorido (como se ver sob todas as percepções fosse ver de fato a matéria).
Ps2: por favor, preciso de contribuições. Passem-me o nome das músicas que vocês mais acham triste, quero analizar a percepção de vocês e ter algo pra ouvir enquanto corto os papéis do meu kusudama.


Marcely contou às 1:33 AM
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Porque eu nunca estou no alto quando quero voar

As pessoas se preocupam. Têm milhares delas. Todas elas achando que são importantes. Todas elas com alguém incentivando-as a pensarem assim. Porque outros a incentivaram a pensar assim ela passou isso adiante. Ah, a cooperação humana! E deu nisso: milhões de pessoas andando pelas ruas.
E todos defecam, mijam, falam sozinhas, e sei lá quantas coisas idiotas elas fazem sozinhas. E continuam se sentindo importantes. E se acham inteligentes. Por que eu acho que justamente esses são os idiotas? Por não verem [como eu, AH!] que também cagam, também contribuem, também tiram meleca do nariz e grudam sei lá onde... Mas, ó, eu tenho isso, eu sou foda. Foda. Foda! Quem é foda? Um ser com pele, crânio, olhos, nariz, boca, dedos, pés... e um bom gosto? Quais, dite-me, também quero ser assim, e ele também, e ele também, e ele também, e ele também.... Todos fodas. Todos lavam a mão de vez em quando. Dão uma balançadinha, ou passam o papel de trás pra frente. Ó, eu sou foda, eu passo da frente pra trás. Vou te impressionar e controlar com minha retórica. E morrer depois. Morrer com opiniões. Enterrado por um idiota, naturalmente. Eu tenho uma comunidade do orkut que diz "Niilista", digamos. Ó, eu grande admirador do nada sou tudo.
Minha boca seca, meus ouvidos criam cera. Meu cabelo, ó, tá lindo. No rigor da moda adolescente. Se eu colocar um óculos de aros grossos minha inteligência, também no rigor da moda, ficará evidente. Mas criticando isso eu já deixo em meu favor um grande estandarte.
Eu choro, eu grito no meio da rua, em meio aos cachorros e pombos e o cimento e as outras pessoas e os bares gastos. E me violento, e sou violentada, e violento e vivo e regida por uma opinião. A mais valiosa. Se eu gritasse agora... por que não grito agora? E saísse, andando, no meio da noite, sem bagagem, apenas andando, e andando até que algo acabe.
Mas casarei, terei filhos. Esses filhos terão as valiosas opiniões deles. E isso, na minha opinião, na minha humilde opinião, na minha melhor OPINIÃO.... é tudo uma grande perda de tempo. Com ilusões.
Queria estar na rua viciada. Ninguém nunca soube de nada. Mas não posso dizer isso. Só quando tudo acabar, vai ser. Nunca serão as palavras.
Só o delírio parece real. E eu me violento mais uma vez: continuarei sóbria, sufocando a gritante decepção pelo mundo com um sarcasmo frouxo. ISSO é que é estupidez. E é nesse momento que eu odeio as pessoas que amo.


Marcely contou às 1:29 AM
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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos