Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
Powered by Blogger
Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

eXTReMe Tracker

Filosofia Crônica

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Os dias

O vento entrava pela janela do carro na direção do meu rosto, dando aquela sensação boa que vem de fora para dentro – e não é isso que fazem a gente acreditar: que as sensações boas vêm de fora para dentro, as más de dentro para fora, como se fôssemos sempre os culpados por não sairmos de encontro ao vento ou algo do tipo? Ele dirigia. Eu dizia algo, talvez sobre o vento e sobre a culpa e sobre minha instabilidade de sempre. Ele dirigia. Voltei a olhar para fora. As árvores, árvores, árvores passavam. Coloquei um cd para espantar a monotonia. Comentei o cd para espantar a monotonia. Mas ele dirigia. Por que eu insistia em atrapalhar sempre? Olhei novamente lá fora, com a música. Ficava menos monótono, mas eu já tinha esquecido o vento – eu sempre acho viagens cansativas. Tentei pensar no vento como a água refrescante de uma piscina – eu sempre pensava isso. Então eu mergulhava um pouco – pensava – voltava para superfície, nadava, mergulhava de novo. Os carros se ultrapassavam para depois se ultrapassarem de novo. Nas curvas e subidas íngremes as faixas amarelas mudavam e se tracejavam, de um lado ou de outro sempre seguindo uma lógica. Eu me apegava à lógica. Logo percebia que estava tornando aquilo uma tarefa necessária – descobrir a lógica das faixas –, em cima do meu olho doía. Parei (voltei para a superfície). Quanto faltava para fazermos a parada, para comprarmos algo pra comer? Muito e se pensar nisso aumenta. E para chegar? Eu quero chegar. Mas também, se ficar pensando nisso, o tempo aumenta. Comento a música, gosto dessa música. Ele diz também – e dirige. As árvores, as matas, sempre quis entrar dentro delas. Eu gosto de árvores, gosto do cheiro. Acabam as árvores e vem o campo... o campo chato, o campo com algumas casas solitárias que me dão ainda mais monotonia por compaixão. Tento pensar uma história, como quando era criança... quando chegar vou andar até uma sala e fingir que estou feliz por rever... Abraços. Não tem nada para fazer quando chegar. Eu vou comer quando chegar. Demora muito a parada? Pego uma bala – comer sempre me satisfaz, sempre me distrai – a não ser quando almoço sozinha – como legumes pela saúde, como pouco por economia, eu me atarefo com idiotices. Presto atenção na música. Canto sem voz. O céu, céu e as árvores, árvores, árvores. Uma placa... decodifico a placa. Presto atenção a cada placa, no mato, no céu, volto às faixas.

Comemos. Comemos e deitamos. Falamos uns com os outros – e ainda é mais monótono. Não gosto dos mais velhos. Não gosto dessas conversas de cortesia. Deitamos. Pela persiana a lua aparece bem redonda, nunca vi a lua assim deitada na cama. É porque nunca morei em um apartamento alto. Eu vejo a lua. Eu falava, mas ele dormiu. Ele tinha que dormir. Eu falo baixo, eu abraço ele, eu acaricio. Eu estou mais uma vez tentando espantar a monotonia e acho que tenho que falar algo. Ele dorme. Falo bem baixo. Paro. Olho a lua... a lua forte que começa a ficar fosca por causa de uma parede de nuvens. É estranho pensar que a lua recebe a luz do sol. Me irrito: o sol deveria estar ausente agora, era a lógica. Eu sempre me apego à lógica. A lua reflete e por isso eu odeio ela: ela me engana com seu encanto roubado. Eu não gosto do sol e portanto não posso gostar da lua, embora sempre tenha gostado. Acaricio, murmuro. Ele dorme. Vou falar sobre a lua, vou falar sobre mim. Estou cansada da lua e de mim. Quando eu era pequena tinha medo de ser cachorro ou de ser árvore porque eles sempre estavam parados e sem fazer nada. Eu sempre me transferia e odiava ser eles. Mas eu também estou parada e contemplativa, e por não ser mais criança eu sei que não é fazendo algo que vai melhorar. Eu sempre penso em mim. Estou cansada de mim e de tudo, e se tivesse motivos e se tivesse ânimo iria ajudar criancinhas com câncer para tentar me alegrar. Odeio isso. A lógica da alegria vindo de fora. É terrível, a alegria está em desvantagem, porque também coisas de fora nos deprimem. Mas nós, por dentro, nunca somos alegres sozinhos. Ele dorme. Eu levanto, bebo água para manter a saúde. Eu sempre me atarefo com todas as idiotices. De repente durmo (agora sim a alegria vem de dentro). O despertador toca umas cinco vezes. Eu detesto o barulho histérico do despertador que a rotina transformou num pavor de ódio. É o sol, é mais um dia, é a consciência de mim, é a monotonia. Volto a dormir, graças a deus. Ele levanta. Ele se arruma. E se tivessem empregado ele para falar e alegrar alguém por nove horas ele faria competentemente. Eu não conseguiria. Por isso eu coloco ele nesse altar, me arrependo de falar com ele pela noite, de tentar sair, de tentar conversar, para poupar a energia dele... mas eu não entendo, eu continuo tentando, eu continuo tentando porque sou muito egoísta. Ele se despede, me beija competentemente.
- Vê se sai hoje.
Ainda obrigo ele a esse esforço, porque falo muito de mim. Volto a dormir. Eu deveria me orgulhar porque dinheiro não é incentivo suficiente para mim ou me detestar pela minha preguiça? Volto a dormir... volto a dormir... Durmo o máximo possível. Durmo muito. Quando acordo faço comentários dentro da minha cabeça como se fosse para ele. Espero ele chegar para contar. Quando ele chega eu não conto. Antes de ele chegar eu já não quero mais que ele chegue. Eu já me sinto miserável de novo e vou falar de mim. Eu vou gastar todo ele comigo. Eu me atarefo com qualquer idiotice: agora minha tarefa é poupar ele. Nós comemos. Comemos e dormimos.


Marcely contou às 4:26 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos