Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
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Filosofia Crônica

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Viver, Verbo Transitivo (e Indireto)

Na verdade, nada mais que a verdade, o mundo é feio e burro. Derrotadas todas as coisas que nos fazem ver o mundo com lentes cor de rosa, é sempre a mesma coisa. Sem lentes cinzas. Não é – como quero acreditar para me encaixar nessa bosta de sociedade fútil – uma coisa boa, uma coisa ruim, o caminho do meio e nossa percepção que varia (embora esta lógica pareça tão... lógica). Na verdade o mundo é muito feio, podre, egoísta, ruim, sem chance de melhora. Eu sei que sou suspeita pra falar.
Voltando a me justificar, ser gótico (ou emo) não é intelectualmente fashion – simbolismo is sooooo last week! Então as pessoas se colocam numa posição vanguardista de "nem me fede nem cheira", bem assim, blasé. As pessoas são apolíticas. As pessoas são niilistas. As pessoas não fedem nem cheiram como o mundo que elas acreditam que as cerca. Há uma congregação, no curso de Letras e sei lá quais mais, de revirar os olhos quando algum fiel revolucionário popular ultra-esquerdista máster plus aparece. Todos são contra. Eu acho que uns são verdadeiramente contra. Outros são convictamente contra porque os outros são contra – e também reviram os olhos e riem, mas não perguntem bem porquê, eles não sabem com certeza. Os últimos, eu acho, são a grande maioria. Eu não reviro os olhos, mas me pergunto porquê a cartilha dos bons costumes do intelectual-blasé me dita revirar os olhos para os revolucionários popular ultra-esquerdistas. Porque, afinal, retirando o fato de eles serem crentes fanáticos de uma causa o que – oh! – é motivo suficiente para um intelectual blasé duvidar da intelectualidade (que precisa ser blasé) do próximo, às vezes, tentando eliminar toda a tendenciosidade que todo politizado irá ter na defesa de sua causa – seja Jesus, sejam os pobres, sejam os ricos, seja a Educação, seja a Família, seja... enfim –, oras, o que os impossibilita de ter alguma razão? O que nos impede de tomar um partido, fazer uma coisa se acreditamos que ela é pelo nosso bem? Inércia, vergonha de infringir a lei da cartilha do intelectual blasé? Afinal o nada não existe, uma pessoa isenta em tomar partidos não existe.
Nossa crença se baseia na aparência, na identificação. Nós somos o que acreditamos sempre. Um niilista de verdade não vive se tiver psicológico. Aliás, como niilista que sou, diria que não existem niilistas (essa frase ficará pra posteridade ú.u). Nós, nessa era consumista e tecnológica (se isso fosse um texto acadêmico ganharia pontos pelos dois adjetivos anteriores (eu coloquei lá porque é bem intelectual-blasé fazer graça de lugares-comuns não tão lugares-comuns para os camaradas operários)), nós contemporâneos do século XXI e arredores, nós todos, embalados (!) pelo consumismo que já citei, nós todos, ó irmãozinhos, nós nos congregamos única e exclusivamente ao redor de uma única coisa: aparecer. Tudo o que somos nada mais é do que a única coisa que nos importa e que nos resta fazer e que sempre nos foi e será tão cara: nos encaixarmos. Vivemos numa era adolescente-sem-causa-que-se-apega-a-crenças-por-identificação. Identificação, a identificação do Freud, o mecanismo de defesa que na xerox que eu li é definido assim:

"Diante de sentimentos de inadequação, o sujeito internaliza característica de alguém valorizado, passando a sentir-se como ele. A identificação é um processo necessário no início da vida, quando a criança está assimilando o mundo. Mas permanecer em identificações impede a aquisição de uma identidade própria. Os movimentos fanáticos também se estruturam sobre a identificação: pessoas que se sentiam vazias passam a sentir-se valorizadas por se identificarem com o líder, ou com as propostas do movimento..."
(Mais pontos acadêmicos pela citação!)

O que eu quis dizer até aqui é que tanto o time dos revolucionários quanto o time dos intelectuais blasés (e também o time dos religiosos que eu deixei de fora porque esses são óbvios), todos se estruturam por Identificação. O mundo todo, o mundo todo é assim – menos os niilistas que não existem.
A Identificação é o ponto de apoio da sociedade contemporânea, que é tão vazia de sentimentos próprios (que inventa, inventa, mas não cria nada, afinal nada se cria, nada se perde...... e nem os direitos autorais por esta frase algum artista contemporâneo consegue, pobrezinho, corre a conceitualizar que silêncio é música, que privada é fonte, que o céu é verde, mas tudo, tudo não é dele – por isso que digo que um artista não pode pretender só inovar, a inovação é uma farsa).
Voltando a explicar porque o mundo é ruim, ruim, ruim.
As pessoas não crêem de fato em alguma coisa, elas crêem que crêem, por identificação. Uma pessoa, que me viu como um bicho estranho e raro, me perguntou no que um ateu acredita, como é (interessante entranhamento inconsciente da certeza de que seres-humanos precisam acreditar em algo – uma verdade). Pensei em responder que acredito naquilo que acredito – assim como ela. Mas ia ficar uma fase pedante e babaca. Eu acredito na ciência, nas coisas que já foram provadas com invenções como a do telescópio, por exemplo ô.o. Essas coisas que, por si próprias, já deveriam há muito tempo ter revelado às pessoas que essa coisa de deus (pelo menos na descrição bíblica que conheço) não existe. Seria algo assim. Um ateu crê em muitas coisas, mas não crê-se, ingenuamente, tão importante a ponto de um ser celeste ultra-high fodão tê-lo criado exclusivamente – à sua imagem e semelhança – para ser fodão aqui na Terra. Não explico a minha necessidade de ser importante dessa maneira, transforma-a de outro jeito – me iludo de outro jeito. Acho extremamente ininteligível ainda existirem escolas atreladas à religião (e que, apesar disso, ensinam darwinismo!!). Não me venham com aquele sofisma de que uma coisa não anula a outra, fazendo paralelo entre o criacionismo da bíblia e o evolucionismo como se um fosse simbolismo do outro. Ou de que a religião é necessária, por isso se acredita nela. Que não acreditem em Darwninismo, que nem saibam o que é, que acreditem em Deus eu aceito por três motivos: ou por ingenuidade (de quem nunca nem ouviu falar de que existe coerentemente outra opção), ou por ignorância, ou por necessidade cavalar de se iludir mesmo. Crer em deus, pra mim, sem maldade, sem vontade de me afirmar em cima dos outros, crer em deus pra mim é uma teimosia universal de "crianças" que não querem abrir mão de "ganhar presente no natal". Ponto.
Eis porque eu volto à minha teoria de que nossa sociedade age em grande parte por mecanismo de Identificação. O mesmo com a religião: a crença não é o verdadeiro motivo. Me refiro à crença na própria religião. Acredito, como já disse, que há crença na crença da religião. Assim também há crença na crença das outras vertentes: na linha intelectual em voga, na música, na moda etc. Ou seja, hoje em dia (ou sempre), as pessoas acreditam ou são só por moda. Eis porque, pra mim, o mundo é ridículo. As pessoas estão ilhadas em suas convicções próprias, e em seu egoísmo que também é um mecanismo de defesa: pra defender aquilo que defendem (!). Eis porque há individualismo e as pessoas vivem naquela famosa solidão compartilhada. O mundo é uma experiência, solitária, fútil. E nunca vai melhorar por isso mesmo.
Para os niilistas que não existem está reservada a outra resposta que eu dei: eu acredito em mim mesma (que nada mais é que um breve resumo de tudo o que eu disse). A única crença possível é no ego, a única fé que nos resta é nosso orgulho – o qual é, pela eterna descrença, frágil.
Abalado nosso orgulho, entendemos porque as pessoas seguram tanto com unhas e dentes suas crenças e ilusões. Totalmente descrentes ficamos para morrer. Acertado que "viver" é um verbo transitivo e indireto e quem vive, vive por algo... ou Alguém.
Sobra para esse descrente, reavivar seu orgulho de alguma forma (da mesma forma que uma fé abalada vai correndo rezar procurando respostas). E então, é assim que se explica como surgem posts quilométricos em blogs quase abandonados.


Marcely contou às 12:13 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos