Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

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À minha ociosidade.
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Filosofia Crônica

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Me explica o sentido...

Às vezes me sinto lúcida, no meio de um mundo de malucos. Sei que é muita pretensão minha, portanto não levo isso muito a sério... vai ver todos são lúcidos e acomodados como eu e é só isso.
Estava falando para o Eros que eu não conseguia viver porque não via um sentido. Então ele me falou que isso era besteira e citou o mito de Sísifo que sei lá qual filósofo citou um dia:
– A vida é como o mito de Sísifo. Um humano inteligente demais com quem os deuses se revoltaram e por isso o condenaram a passar a eternidade subindo uma pedra muito grande pelo penhasco que, quando chegava no topo, caía rolando e ele tinha que ir buscar e subir a pedra todo o trajeto de novo.
– ... é isso?
– É!
– Quer dizer que a vida é uma coisa REALMENTE estúpida, então? Qual o sentido de empurrar uma pedra idiota por toda a sua vida?
– Você tem que aprender com os orientais a aproveitar o caminho percorrido, sem pensar no fim...
– APROVEITAR o esforço de rolar uma pedra enorme por uma montanha??
– Vamos dormir...
Ok, como vocês veem, não há sentido. Talvez a razão hedonista de aproveitar – se não fosse o fato de 70% do seu tempo ser uma coisa ruim e não boa. E todos sabem que hedonismo não traz alegria e sim vazio.
Ainda falta sentido. Mas todos vão dizer: não há sentido, apenas continue rolando a pedra.
É, não há sentido, é puro comodismo, ou condenação dos deuses. E vocês me falam pra continuar? Desculpa, vocês precisarão de um argumento melhor que esse... (O meu único é o de que eu tenho dó da minha gatinha... e do Eros, e isso não ta sendo suficiente para uma muito boa qualidade de vida...)


Marcely contou às 10:00 AM
.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Inércia e falta de um sentido

Quarta-feira passada eu tinha uma consulta com psicólogo marcada e acabei faltando porque não consegui achar o consultório. A frustração foi grande, como da primeira vez que eu fui no psiquiatra e perdi o endereço em casa, chorei, fiquei nervosa. Afinal são mais de 10 anos de depressão insuportável e eu já não vejo mais a hora de me livrar disso – se é que um dia, viva, eu irei me livrar.
Eu já tinha listado em pensamento os principais motivos que me levam a ir me consultar e ia buscar uma resposta – e queria muito saber a resposta! – mesmo sabendo que psicólogos nos ajudam apenas a nós mesmo nos ajudar, não importa onde eu achasse uma resposta, eu queria uma resposta.
Eu tenho apenas dois motivos que me levam ao psicólogo. Parece pouco, mas você verá que não é, são fundamentais pra vida de qualquer um.
1 – Inércia. Eu já escrevi aqui ou algures (ai, que chique) sobre isso, e eu sei que faz muito, muito tempo. É da época que eu fazia cursinho pra faculdade ainda! Hoje já estou formada... e o problema se mantém intacto.
O problema da inércia é tal qual Newton o físico descreveu: um corpo parado permanece parado, se não houver uma força atuando. Mas, se houver uma força atuando, o corpo se move, sob uma aceleração constante,,, mas só se não houver uma força de atrito (o que fará o corpo perder aceleração até parar novamente). Bom, o que isso tem a ver comigo? Você pode imaginar. Sou do tipo que não tem praticamente força nenhuma interna atuando. O que existem são forças externas (me mexo por causa de uma obrigação inadiável, geralmente). Se estou parada, continuo parada até que por motivo de força maior eu acabe me movendo. Se há uma obrigação, no caso, um emprego, por exemplo, então eu me movo. E quanto maior a força, mais me movimento e continuo a me mover, porém a força de atrito acaba me forçando a parar cedo ou tarde.
Exemplificando? Bom, agora estou desempregada e, como sempre, eu vou ficando cada vez mais e mais preguiçosa e acomodada nessa situação. De repente durmo 16h por dia, tenho preguiça de tomar banho, de buscar água na geladeira, fazer um telefonema, enfim, tenho preguiça pra qualquer coisa! Mas, digamos, se eu acho um emprego. No início a força da empolgação me move e com isso eu fico atuante, chego em casa e até procuro coisas pra fazer e mantenho nessa movimentação a não ser... bom, a não ser quando a empolgação inicial da força vai acabando. Aí é terrível porque, embora não pareça, sou EXTREMAMENTE responsável e ver que estou procrastinando, ou seja, deixando de fazer um dever ou faltando com alguma obrigação, isso me deixa sentindo uma culpa terrível que me faz quase sempre procurar o suicídio e tem como resultado alguma doença física, geralmente meu estômago fica ruim, meu rim, e de repente eu falto, no dia seguinte vou chorando pro trabalho, até que a força se esvai e eu me extenuo por completo.
Dentro disso, me parece que eu vivo apenas por inércia mesmo. Seja no movimento, seja na estagnação. Hoje segurei pra não chorar enquanto minha ex-boadrasta contava pormenores de como conheceu uma vizinha e de que ia lá jogar baralho... Pronto. De repente uma bola na garganta se formou e eu fiquei pensando: eu não faria isso. Eu jamais teria força de, de repente, ir na vizinha jogar baralho. Parece simples e bobo, e por isso mesmo é terrível: eu não tenho força pra coisas ridículas e bobas como esta. Enquanto ela falava de ir viajar pra Pirenópolis, eu pensava: mas se eu for sábado eu terei que lavar o cabelo amanhã, "será que eu consigo lavar o cabelo amanhã?". Não porque eu não tenha tempo, mas porque eu não tenho força.
Claro, se tem que ir no médico e isso é inadiável eu vou. Se é uma viagem e o Eros vai comigo e isso pode ajudar eu vou. O problema geralmente são coisas bobas, que ninguém vai me cobrar além de mim mesma, quase sempre insignificantes. Ou nem tanto assim. Tenho o fim de um livro que eu gostaria de publicar em dois pedaços de guardanapo e até agora eu não arranjei forças pra escrever (e estou escrevendo isso, talvez muito maior). Só de pensar em como farei pra publicar... E todo o resto.
Aí o que mais me desanima é saber que quando conto isso as pessoas geralmente tendem a dizer: "sai de casa", "toma um fôlego e levanta", sem saber que esse é justamente o problema e que não adianta! Muitas vezes eu faço um dia, no outro dia eu já não consigo. Às vezes, uma vez num mês a cada solstício, eu sinto uma força do além que me faz limpar toda a casa, fazer vários serviços e então por esse dia eu acho que estou curada e que tudo se resolveu, que só bastou levantar e fazer, mas no dia seguinte, lá estou eu prostrada de novo, mesmo que eu tente segurar o sorriso por 20 segundos como li que ajudava, mesmo que eu pense: hoje não irei me cobrar pra ver como me saio. Mesmo que eu tente de tudo. Gente, já são 10 anos ou mais assim, não é algo que passe por pura boa vontade porque, sinceramente, vontade de sair disso é o que não me falta.
O que eu acho mesmo é que no fundo eu sinto a necessidade de alguém pedir pra mim que eu faça. Ou nem isso, que isso também me angustia. Me falta mesmo é desejo, é querer. Eu não faço as coisas porque quero, mas porque devo, não sinto desejo de nada, mesmo do que gosto, é difícil manter um desejo aceso.

2 – Sentido. Um sentido pra vida. Sou ateia e até tenho pensado em virar espírita, alguma coisa assim. Achar que tem um sentido viver, que tem algum sentido ao menos místico, porque racional, realmente, cansei de buscar e não acho.
Todo mundo que eu conheço, por mais alegre que aparentemente seja, sempre diz que era melhor não estar vivo, que a existência é realmente uma sina ruim e dificilmente encontrei alguém que nunca tenha querido morrer. Ou que ache terrível ter filhos pelo mesmo motivo. Se existe alguém que não se encaixe nessa descrição, são raras exceções.
Quando penso nisso, penso que viver é uma simples acomodação. Viver pra que? Por hedonismo? Por algum prazer qualquer que seja? Por que irei dar aula se melhor seria que meus alunos nem tivessem nascido?
Não faz sentido.


Marcely contou às 10:05 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos