sábado, 27 de agosto de 2011

Crianças, gatos e a filosofia

   Poucos devem saber, mas eu sempre adorei crianças. Foi só quando adotei a Christie, minha gata primogênita, que minha fissura por ser mãe simplesmente sumiu, a Christie ocupou o espaço, de fato, de uma filha. E aqueles pais que insistem em dizer que não é a mesma coisa, imaginem aquela poodle com gravidez imaginária e que adota um chinelo como filho. Esta sou eu, e a Christie pode ser o chinelo pra você, mas pra mim ela é uma filha (e não venha achar que to comparando “apenas um animal” com uma criança, eu acho muito mais insultante você dizer que minha filha é menos que a sua, ou que sua filha não é um animal)
   Além disso, é preciso ressaltar que gatos têm muitas vantagens que crianças não têm, como por exemplo o fato deles aprenderem a fazer xixi e cocô na caixinha bem cedo, e chorarem bem pouco, e gastarem muito menos. Porém, eu devo admitir que existe uma coisa em que gatos não são melhores que crianças: gatos não aprendem tanto. Claro que, dentro dos limites deles, eles podem aprender muita coisa incrível e suficiente para viver tão bem quanto qualquer um de nós (não quero que esse seja um argumento especista), mas é uma questão de olhar. Os gatos chegam até a nos enganar quanto a isso – bem melhor que cachorros – porque costumam olhar fixamente para coisas como se estivessem com o pensamento perdido em devaneios, ou numa reflexão bem profunda – coisas que você só consegue acreditar plenamente sendo uma antropocentrista como eu... ou será que eles realmente estão devaneando? Talvez lembrando, talvez analisando, eu não sei ao certo o que gatos estão fazendo quando ficam com o olhar parado, talvez dormindo de olhos abertos, não sei, se você souber me diga. Mas as crianças não, dá pra saber que elas olham como a gente, quando elas olham fixo elas estão aprendendo, entendendo, refletindo... Aqueles lindos olhos de crianças, tão grandes no rostinho, tão... curiosos (bom, você pode me dizer que gatos são BASTANTE curiosos, e isso é verdade, mas, bom, não é a mesma curiosidade da gente porque eles não são, enfim, a gente – e isso não é bom nem ruim, só to dizendo). E isso é o que mais me encanta nas crianças, como elas estão curiosas, querendo aprender, querendo crescer, querendo ir adiante... uma característica que poucos adultos conservam, e que eu acho tão fundamental.
   Quando eu era criança, eu já disse aqui, eu decidi que queria ser escritora e professora. E quando chegou na época de escolher o curso na faculdade me bateu até uma certa dúvida: será que faço Letras mesmo? Ou psicologia (pra ir ao fundo dos “personagens”)... ou Filosofia? No fundo, todos os cursos que escolheria pra fazer definem bem o que eu gosto demais nessa vida: aprender. Letras por causa da literatura, afinal a literatura, pra mim, é uma alegoria do conhecimento (assim como filme, teatro), e é a parte mais divertida do aprender (então não me arrependo de ter feito esta faculdade primeiro). Psicologia por querer entender as pessoas, que é basicamente sobre o que quero aprender, o que a gente faz, o que a gente pensa (viu? Eu sou uma mãe de gato antropocentrista, que incoerente...). Filosofia, oras, claro, por ser amor ao conhecimento e à sabedoria, sempre será o curso que eu devia ter feito, mas não fiz. E Pedagogia, por fim, que agora acabei gostando porque nada mais é do que um curso que reflete (e questiona) sobre o ato de aprender e sobre o ato de ensinar, ou seja, a prática, a socialização do aprender, é distribuir meu amor de aprender com os outros.
   Voltando ao que eu dizia, o que eu gosto nas crianças é que eu me identifico, me identifico com essa sede de aprender, pelo desejo de ir além, de aprender a ler, a escrever, a pensar as coisas que os adultos inventaram antes de mim (só é uma pena que nem todas as crianças cresçam e permaneçam indagando, que se contentem em aprender apenas uma vez em vez de voltar a aprender sobre o que já havia aprendido). Essa atitude das crianças é tão filosófica, a da curiosidade, essa primeira vez no mundo, essa admiração... e é isso que traz coisas novas, e enfim, faz até parecer divertido envelhecer, porque você vai aprender tanto e cada vez mais, até morrer... de epifania, ou de velhice, mas não importa, você vai ter aprendido muito, e melhorado muito você mesmo e ao mundo, pelo menos essa foi a ideia e a intenção.

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