terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Obsessões

     Antes de começar a fazer terapia, eu tinha essa ideia fantástica de que bastava encontrar o problema, bastava iluminar cantos obscuros, que, plim, tudo se resolvia! Acho que por isso passei tanto tempo escrevendo e me abrindo sobre o que me incomodava, porque nesse exercício de escrever eu esperava iluminar meus cantos obscuros. E é frustrante reconhecer que iluminar não fez nenhuma mágica.
     O problema não é visualizar o problema. O problema é solucionar o problema. E as soluções ninguém tem. E reverter hábitos é uma das coisas mais complicadas do universo.
     Hoje passei em revisão sobre o que é a minha depressão. Pelo menos o que ela é agora pra mim. Ela não é luto, nem dor, mas uma obsessão. Estava lembrando que há muito tempo eu comecei a ler sobre distúrbios alimentares, e por algum motivo isso me interessou muito a ponto de eu ler relatos dias inteiros, acompanhar blogs, ler sobre o que era, principalmente anorexia. Eu sentia uma empatia muito forte com aqueles casos e estranhamente, embora nunca tivesse vivido nada daquilo, é como se o sentimento me fosse familiar.
     E hoje refletindo sobre isso, eu percebi o que é familiar nisso tudo: obsessão. Mais precisamente, obsessão por perfeição. Eu sou uma pessoa obcecada por perfeição, e não é à toa que minha depressão soa pra mim como fugir de um gigante assassino: por mais que eu corra, eu nunca chego lá. A perfeição é uma meta inatingível. Mas não importa o quanto eu saiba disso, o quanto minha psiquiatra diga, ou eu mesma diga, ou o Eros diga, no fundo me soa loucura ansiar qualquer coisa que não seja ser perfeita. E eu sei que a loucura (e a arrogância) é justamente ansiar isso – racionalmente falando, ao menos. Parece que eu só alcancei o que tenho de melhor desejando a perfeição. Parece que se eu parar de ansiar isso, eu vou me tornar a pior pessoa do mundo. Porque, não fosse essa obsessão, eu seria a pior pessoa do mundo, porque eu sou fraca e lerda.
     Na realidade o que acontece é isso: eu quero minha casa arrumada, bonita e limpa. De preferência milimetricamente arrumada, bonita e limpa. Se minha casa ficasse milimetricamente arrumada, bonita e limpa, eu acredito que seria feliz, como se minha casa fosse uma réplica de mim por dentro. Quando eu não consigo limpar ou decorar a casa como gostaria (porque a cobrança é tão alta, que eu mal consigo começar, de tão imensa a proporção que toma), eu me sinto a pior pessoa do mundo. Uma fraca, uma lenta, uma preguiçosa. E uma pessoa preguiçosa é a pior coisa do mundo (mais ou menos como é para pessoas anoréxicas engordar). Não é admissível pra mim ser preguiçosa, mas eu sei (e não importa que eu me mate de trabalhar) que eu sou uma preguiçosa. Então ao mesmo tempo que eu me esforço pra não ser, eu sei que nem adianta. E vira um cabo de guerra.
     Se acaso eu passo o dia todo limpando minha casa, eu fico frustrada porque não está suficientemente limpa, ou porque vai sujar de novo e foi tão difícil fazer e eu estou tão cansada que sendo eu uma preguiçosa, é provável que eu evite fazer de novo. E se eu passo o dia todo fazendo crochê (porque eu nunca consigo dosar as coisas, ou eu fico 8h seguidas numa atividade até ficar lesionada, ou eu não faço, ou se faço pouco parece muito pouco), eu não limpei a casa. E se por acaso eu arrumasse a casa e fizesse crochê e não cozinhasse seria ruim. E se não faço exercício também ta errado. E se faço exercício fico pensando que deveria fazer algo como ativista e sair do sofá. Se as encomendas se acumulam eu me sinto numa maratona: enquanto eu não terminar a lista, eu não presto, as coisas estão ruins. Se a lista aumenta, eu começo a entrar em desespero. Se eu trabalho fora, eu fico também desesperada porque não vou conseguir conciliar outras atividades, nem arrumar minha casa e vou ser infeliz (e de fato fico infeliz). E é culpa por todos os lados. A culpa que paralisa e alimenta a culpa, a culpa que cresce desenfreadamente. A culpa que corrói e me machuca o corpo, que me deixa durante horas procrastinando na frente do computador e que termina por me fazer sentir suja, envergonhada, um lixo.
     Até que tudo me parece errado e eu quero fugir. Fugir de todas as obrigações, de tudo que está na casa, no trabalho [na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê], que é quando eu canso de ficar cansada.
     Contando isso resumidamente pro Eros, ele sabiamente respondeu: “então faça só uma coisa por dia, relaxa, se não der pra fazer não faz”. E faz todo sentido. Parece altamente razoável. Mas por que eu não consigo “comprar” uma ideia tão simples? Porque eu nunca vou aceitar (não enquanto convivo com pessoas perfeitamente produtivas) que eu seja preguiçosa, relaxada, me aproveite do trabalho delas. Não aceito ficar tomando água de coco na praia, enquanto tem gente trabalhando cortando coco. E também um certo medo de que se eu deixar de fazer eu não irei fazer mais nada e cair numa depressão terrível e ser o que sou de pior: uma preguiçosa.

2 comentários:

aqueladeborah disse...

Me sinto um pouquinho como você. Na extrema cobrança por prazos, em dar conta das minhas responsabilidades. Se possível fosse, te daria um abraço. Fique bem.

◮ Lô ◭ disse...

Eu estava lendo o seu blog e achei muito bom tudo o que você escreve, mas eu precisei parar e comentar sobre esse texto, porque eu me vi inteira nele. Eu sou exatamente assim, exatamente, cada palavra, sou eu.
Um dia eu acordo disposta a mudar, e passo o dia inteiro na frente do computador lendo sites com dicas para pessoas que precisam se organizar, e aí no fim do dia eu me culpo porque eu passei um dia inteiro fazendo algo que nem era tao util assim, mas tudo bem, no outro dia eu começo, e aí no outro dia eu faço uma lista das coisas que eu preciso fazer, mas eu quero fazer igual as listas que eu vi no site, mas eu nunca consigo deixar tão perfeita como deveria ser, então eu me frustro e as vezes nem parto pra próxima etapa, e quando eu parto, eu fico cansada, ou tenho que começar a fazer outra coisa e deixo a anterior pra trás (e assim sucessivamente), e no final eu não fiz foi nada, e só consigo chorar. Choro de raiva, de frustração, de dor, de ódio de mim mesma.
É uma batalha que parece que nunca vai ter fim, e que mesmo que tenha um fim, eu vou ser a perdedora.