Meu cansaço é todo meu, imposto por mim. Se às vezes no silêncio fico quieta e restrita, em outras a obrigação me transporta para um atordoado isso, isso e aquilo e ainda quando vai silenciando minha cabeça fervilha, inclusive durante o sono e não durmo de verdade.
Eu sinto tanto! E tudo isso me dá uma vontade de dizer as impressões, todas elas, enquanto ando de uma aula para o estágio, seja o tempo, seja um casaco, sejam feições, sejam palavras, tudo me toca e me faz querer de alguma forma tocar, assim, escrevendo. Eu me conduzi a achar que era essa a saída, mas, no entanto, eu sei... Sei que sou péssima "escritora", sei que não tenho nada por escrever e todo o sentimento se esvai como todo o pensamento... onde foi parar? Não queria perdê-los, nem essa sensação, queria segurá-los revivendo, transmitindo, quando talvez não seja essa a saída, não para mim, nem seria isso que define um escritor de verdade.
Mas meu cansaço, meu torpor, minhas sensações, talvez, eu só queria que importassem, só queria como está transcrito ali ao lado, submeter minha impotência e insignificância metafísica, mas não vou, mesmo que Fernando Pessoa tenha sido e ainda seja, que importou? Se no que ele me toca só toca a mim e não a ele? Nada que eu faça vai me tirar da minha eterna solidão, porque quando importar o que eu sinto, as pessoas vão se importar é por ser agora delas.
E o que importa o que eu sou? Eu só sou pra vocês, pra todo mundo, o que eu faço. A hora que eu estiver dormindo, chorando, comendo, sei lá, cagando, vai interessar única e exclusivamente a mim, mesmo que eu acorde e do meu lado sempre venha a voz perguntando: "dormiu bem hoje?", num reflexo de: "o que EU devo fazer por você hoje? O que irei RECEBER?". Quando eu deveria evitar agora toda minha ironia porque só a uso por cartárse e isso é uma utilidade puramente irônica, também. Quando eu deveria evitá-la por ser um fim em si mesma inútil, digo apenas pra deixar claro que eu sei que tudo isso é preocupação tola porque:
"Ah, se o centro do mundo de todo mundo fosse o mesmo que o meu!"
sexta-feira, 28 de abril de 2006
sexta-feira, 14 de abril de 2006
C'est la vie!
Tarde, fim de tarde ou manhã. O vento cinza chumbo, espelhado pelo céu, rolava por ruas igualmente cinzas, vazias e cortantes. Um copo de plástico rolava e batia no muro do canal. Na fachada de uma construção parecida com uma igreja de cimento o vento abria caminho e entrava. No escuro uma máquina fazia um barulho ritmado, garrafas de leite subiam e desciam seguras por mãos mecânicas e várias pessoas uniformizadas se reuniam em volta, também ritmadas. Um cheiro podre subia e, enquanto o vento passava por corpos deitados ao chão, podia-se ver rostos esmagados de sangue pisado, corpos inchados, expostos, comidos em que moscas pousavam abaixo dos olhos desfigurados ou na ponta da boca. Algumas das pessoas em pé tinham rostos também ritmados, outras uma careta de dor desfigurante, os lábios puxados e tremidos, a respiração ofegante e os olhos assustados e dolorosos, às vezes vidrados junto às mãos que perdiam junto o ritmo.
O vento continuava, subia escadas e levantava em vôo papeladas que mocinhas agaxavam insensivelmente para pegar. E nas salas sem portas sentavam-se frente a frente, de ternos e terninhos, homens e mulheres que olhavam um olhar perdido e gesticulavam entorpecidos por um silêncio nauseante. Em uma sala, sozinho, sem janelas, um homem contava papéis ritmado como um ponteiro de relógio pelo corpo todo. Nesse caso o silêncio só não era silêncio porque gritava autoritária uma obrigação de dever silencioso. Preso, o vento ricocheteou pelas paredes e voltou, desceu as escadas, passou pela sala de produção, levantou novamente o cheiro podre, passou pela porta e continuou levando o copo de plástico na rua.
O vento continuava, subia escadas e levantava em vôo papeladas que mocinhas agaxavam insensivelmente para pegar. E nas salas sem portas sentavam-se frente a frente, de ternos e terninhos, homens e mulheres que olhavam um olhar perdido e gesticulavam entorpecidos por um silêncio nauseante. Em uma sala, sozinho, sem janelas, um homem contava papéis ritmado como um ponteiro de relógio pelo corpo todo. Nesse caso o silêncio só não era silêncio porque gritava autoritária uma obrigação de dever silencioso. Preso, o vento ricocheteou pelas paredes e voltou, desceu as escadas, passou pela sala de produção, levantou novamente o cheiro podre, passou pela porta e continuou levando o copo de plástico na rua.
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Um post, uma exposição, um texto, uma crônica, um registro...
Estou cansada, cansadíssima, em escala progressiva, aumentativa e que só tende a piorar tanto no âmbito hisótico-social quanto na área de pluriatividade cerebral e mental pessoal e coletiva, desse dialeto semântico-gramatical exclusivo, corrosivo, cansativo, impessoal e não benéfico que é o discurso acadêmico. Essa outra língua acariciadora e masturbadora de ego deveria ser extinta, exonerada, abolida, execrada, suprimida do nosso contexto social – sendo essa sociedade uma expressão representativa de uma conjuntura abrangente de todos os aspectos da vida do ser humano. Porque não só eu não entendo, nem quero entender e tenho raiva de quem entende esta verdadeira encheção de lingüiça e/ou de saco, como também muitos outros indivíduos excluídos ou não socialmente, e, se são excluídos, é justamente por causa dessa atividade segregadora, excludente e antiética. Neste sentido, é interessante apontar que esta desnecessária linguagem absurda e, poderia-se dizer, hipercorretiva e hipergeracional de preconceitos é um verdadeiro e significativo atentado aos sujeitos, pessoas, indivíduos, seres humanos que não a compreendem nem a detêm, ou seja, maior parte da sociedade brasileira. É importante salientar que esta deplorável, medíocre, antiquada, criticável atividade está visível e assustadoramente presente em discursos políticos justamente com a intenção maldosa e consciente de convencer, imputar, de forma enganosa, exploradora e manipuladora seus discursos com presença e/ou falta de opiniões e argumentos.
Em suma, pode-se concluir de tudo isso que vá se fuder, puta que o pariu, hem?! Vá tomar no cu na casa do caralho essa linguagem escrota, se é que fui suficientemente clara. Vale acrescentar, ainda que redundantemente: puta merda, viu?!
Enfim, tenho tido aulas, prova e também ajudei com um capitulo de livro no estágio, tudo isso com esse língua irritante. O Daniel até tentou me consolar da raiva que eu estava no domingo ao estudar pra maldita prova de Literatura colocando uma almofada na minha frente e dizendo: "Bata nele, vai, Marcely, finge que é seu professor", e fazendo voz de imitação "Por favor, por gentileza, por obséquio, Marcely... bata em mim!".
Mas não é justamente isso que a gente vê em Lingüística? Que usam essa linguagem pra, por meio de retórica, manipular as pessoas? E, olhem só que coincidência!, pra ser pastor na IURD precisa aprender retórica antes. Lindo! Aí as professoras querem que a gente tente incluir todas as pessoas no domínio desse tipo de linguagem pra que não haja esse preconceito todo que a gente tem, por exemplo, por pessoas que falam "é nóis na fita, ladrão!", que além desse dialeto vão saber dizer “somos nós na faixa, na película, no videotape, senhor criminoso, desonesto, golpista, desordeiro, vigarista!", além de interpretar os outros mal intencionados que a usam. PRA QUÊ?!! Nem as pessoas que entendem esse tipo de dialeto sabiam usar antes de aprender na escola! É a gente que cria essa diferenciação. Nós professores que inserimos na sociedade mais esse tipo de preconceito lingüístico gratuito. Gratuito porque não ajuda em nada na comunicação, pelo contrário! Isso é valorizar a forma e sapatear no conteúdo.
Aí acaba ocasionando esse tipo de vácuo cerebral como se tivessem posto de molho na cândida seu cérebro por horas e depois torcido, torcido, torcido, torcido até ficar bem limpinho e enxuto e, saindo de lá, você percebe que nem lendo Harry Potter, nem vendo Malhação, Mariana da Noite ou Belíssima você se distancia tanto da realidade.
Dou 5 reais pro cobrador.
– Tem 30 centavos?
– Não sei, deixa eu olhar... – acha os 30 centavos e dá. O cobrador olha um pouco para o horizonte e devolve 3,50. Você sorri e gira a roleta. Senta, lê um pouco, pára de ler porque já ta ficando zonza (não pela leitura, mas por estar sentada naquele banco que vai de costas), começa a pensar sobre o troco. É 1,80... 1,80... dei 5,30... 5,30... 3,50... 1... 1,80... 5,30.... ou 1,80 e 3,50? 5,30... não era 5,20? 5,10... 3,50, aí sim! 1,80... 5,30... Puxa, faltou 20 centavos, nem vou reclamar, soupreguiçosa boazinha.
Não vou conseguir descobrir meu ponto de trás pra frente, vou levantar. Hum... está longe... Então vamos pedir o troco.
– Moço, ta faltando 20 centavos, não tá?
– Não... quanto você me deu?
– 5,30. Você me deu 3,50...
Ele tenta ser solidário:
– Sim, e é 1,80 a passagem, né?
Recuso a ajuda e continuo me humilhando
– Eu sei! Então... 5,30... 3,50... Eu devia dar 5,10, né?
– Não, a passagem é 1,80...
– Mas então! Peraí... 5,30, 3,50... 5,30 mais 1,80... 3,50... – conta... somar... somar... ah, alguém me ajude! – Er... Ih, tá chegando o meu ponto! Deixa pra lá, nem ligue, eu faço Letras! – sorrio amarelo.
Desço, vou fazendo as contas por 5 quarteirões até que eu descubro entre derivadas, regras de três e incógnitas que era só somar 3,50 mais 1,80.
– Ah, era 3,50 mesmo...!
Perfeito! Quem precisa de matemática quando sabe tudo sobre alomorfia morfofonêmica e alternância vocálica redundante e não redundante, né?
Em suma, pode-se concluir de tudo isso que vá se fuder, puta que o pariu, hem?! Vá tomar no cu na casa do caralho essa linguagem escrota, se é que fui suficientemente clara. Vale acrescentar, ainda que redundantemente: puta merda, viu?!
Enfim, tenho tido aulas, prova e também ajudei com um capitulo de livro no estágio, tudo isso com esse língua irritante. O Daniel até tentou me consolar da raiva que eu estava no domingo ao estudar pra maldita prova de Literatura colocando uma almofada na minha frente e dizendo: "Bata nele, vai, Marcely, finge que é seu professor", e fazendo voz de imitação "Por favor, por gentileza, por obséquio, Marcely... bata em mim!".
Mas não é justamente isso que a gente vê em Lingüística? Que usam essa linguagem pra, por meio de retórica, manipular as pessoas? E, olhem só que coincidência!, pra ser pastor na IURD precisa aprender retórica antes. Lindo! Aí as professoras querem que a gente tente incluir todas as pessoas no domínio desse tipo de linguagem pra que não haja esse preconceito todo que a gente tem, por exemplo, por pessoas que falam "é nóis na fita, ladrão!", que além desse dialeto vão saber dizer “somos nós na faixa, na película, no videotape, senhor criminoso, desonesto, golpista, desordeiro, vigarista!", além de interpretar os outros mal intencionados que a usam. PRA QUÊ?!! Nem as pessoas que entendem esse tipo de dialeto sabiam usar antes de aprender na escola! É a gente que cria essa diferenciação. Nós professores que inserimos na sociedade mais esse tipo de preconceito lingüístico gratuito. Gratuito porque não ajuda em nada na comunicação, pelo contrário! Isso é valorizar a forma e sapatear no conteúdo.
Aí acaba ocasionando esse tipo de vácuo cerebral como se tivessem posto de molho na cândida seu cérebro por horas e depois torcido, torcido, torcido, torcido até ficar bem limpinho e enxuto e, saindo de lá, você percebe que nem lendo Harry Potter, nem vendo Malhação, Mariana da Noite ou Belíssima você se distancia tanto da realidade.
Dou 5 reais pro cobrador.
– Tem 30 centavos?
– Não sei, deixa eu olhar... – acha os 30 centavos e dá. O cobrador olha um pouco para o horizonte e devolve 3,50. Você sorri e gira a roleta. Senta, lê um pouco, pára de ler porque já ta ficando zonza (não pela leitura, mas por estar sentada naquele banco que vai de costas), começa a pensar sobre o troco. É 1,80... 1,80... dei 5,30... 5,30... 3,50... 1... 1,80... 5,30.... ou 1,80 e 3,50? 5,30... não era 5,20? 5,10... 3,50, aí sim! 1,80... 5,30... Puxa, faltou 20 centavos, nem vou reclamar, sou
Não vou conseguir descobrir meu ponto de trás pra frente, vou levantar. Hum... está longe... Então vamos pedir o troco.
– Moço, ta faltando 20 centavos, não tá?
– Não... quanto você me deu?
– 5,30. Você me deu 3,50...
Ele tenta ser solidário:
– Sim, e é 1,80 a passagem, né?
Recuso a ajuda e continuo me humilhando
– Eu sei! Então... 5,30... 3,50... Eu devia dar 5,10, né?
– Não, a passagem é 1,80...
– Mas então! Peraí... 5,30, 3,50... 5,30 mais 1,80... 3,50... – conta... somar... somar... ah, alguém me ajude! – Er... Ih, tá chegando o meu ponto! Deixa pra lá, nem ligue, eu faço Letras! – sorrio amarelo.
Desço, vou fazendo as contas por 5 quarteirões até que eu descubro entre derivadas, regras de três e incógnitas que era só somar 3,50 mais 1,80.
– Ah, era 3,50 mesmo...!
Perfeito! Quem precisa de matemática quando sabe tudo sobre alomorfia morfofonêmica e alternância vocálica redundante e não redundante, né?
segunda-feira, 10 de abril de 2006
Um paradoxo
O mundo é um paradoxo que só não é paradoxal por ser paradoxo, concordo com os barrocos (segundo meu professor verborrágico, isso se deve a uma compatibilidade histórica, única coisa relevante que consegui pescar e me interessar dentre seu infidável, inexpressivo, porém adulado, dialeto acadêmico (e eu estou me deixando contaminar)).
O paradoxo que eu ia apontar era: por que um livro de auto-ajuda que se dirige a formar seres humanos ideais, positivos, felizes e perfeitos, formula a idéia de valorizar as diferenças?
O paradoxo que eu ia apontar era: por que um livro de auto-ajuda que se dirige a formar seres humanos ideais, positivos, felizes e perfeitos, formula a idéia de valorizar as diferenças?
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