Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
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Filosofia Crônica

Sexta-feira, Abril 28, 2006

O que te importa?

Meu cansaço é todo meu, imposto por mim. Se às vezes no silêncio fico quieta e restrita, em outras a obrigação me transporta para um atordoado isso, isso e aquilo e ainda quando vai silenciando minha cabeça fervilha, inclusive durante o sono e não durmo de verdade.
Eu sinto tanto! E tudo isso me dá uma vontade de dizer as impressões, todas elas, enquanto ando de uma aula para o estágio, seja o tempo, seja um casaco, sejam feições, sejam palavras, tudo me toca e me faz querer de alguma forma tocar, assim, escrevendo. Eu me conduzi a achar que era essa a saída, mas, no entanto, eu sei... Sei que sou péssima "escritora", sei que não tenho nada por escrever e todo o sentimento se esvai como todo o pensamento... onde foi parar? Não queria perdê-los, nem essa sensação, queria segurá-los revivendo, transmitindo, quando talvez não seja essa a saída, não para mim, nem seria isso que define um escritor de verdade.
Mas meu cansaço, meu torpor, minhas sensações, talvez, eu só queria que importassem, só queria como está transcrito ali ao lado, submeter minha impotência e insignificância metafísica, mas não vou, mesmo que Fernando Pessoa tenha sido e ainda seja, que importou? Se no que ele me toca só toca a mim e não a ele? Nada que eu faça vai me tirar da minha eterna solidão, porque quando importar o que eu sinto, as pessoas vão se importar é por ser agora delas.
E o que importa o que eu sou? Eu só sou pra vocês, pra todo mundo, o que eu faço. A hora que eu estiver dormindo, chorando, comendo, sei lá, cagando, vai interessar única e exclusivamente a mim, mesmo que eu acorde e do meu lado sempre venha a voz perguntando: "dormiu bem hoje?", num reflexo de: "o que EU devo fazer por você hoje? O que irei RECEBER?". Quando eu deveria evitar agora toda minha ironia porque só a uso por cartárse e isso é uma utilidade puramente irônica, também. Quando eu deveria evitá-la por ser um fim em si mesma inútil, digo apenas pra deixar claro que eu sei que tudo isso é preocupação tola porque:
"Ah, se o centro do mundo de todo mundo fosse o mesmo que o meu!"


Marcely contou às 1:32 PM
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Sexta-feira, Abril 14, 2006

C'est la vie!

Tarde, fim de tarde ou manhã. O vento cinza chumbo, espelhado pelo céu, rolava por ruas igualmente cinzas, vazias e cortantes. Um copo de plástico rolava e batia no muro do canal. Na fachada de uma construção parecida com uma igreja de cimento o vento abria caminho e entrava. No escuro uma máquina fazia um barulho ritmado, garrafas de leite subiam e desciam seguras por mãos mecânicas e várias pessoas uniformizadas se reuniam em volta, também ritmadas. Um cheiro podre subia e, enquanto o vento passava por corpos deitados ao chão, podia-se ver rostos esmagados de sangue pisado, corpos inchados, expostos, comidos em que moscas pousavam abaixo dos olhos desfigurados ou na ponta da boca. Algumas das pessoas em pé tinham rostos também ritmados, outras uma careta de dor desfigurante, os lábios puxados e tremidos, a respiração ofegante e os olhos assustados e dolorosos, às vezes vidrados junto às mãos que perdiam junto o ritmo.
O vento continuava, subia escadas e levantava em vôo papeladas que mocinhas agaxavam insensivelmente para pegar. E nas salas sem portas sentavam-se frente a frente, de ternos e terninhos, homens e mulheres que olhavam um olhar perdido e gesticulavam entorpecidos por um silêncio nauseante. Em uma sala, sozinho, sem janelas, um homem contava papéis ritmado como um ponteiro de relógio pelo corpo todo. Nesse caso o silêncio só não era silêncio porque gritava autoritária uma obrigação de dever silencioso. Preso, o vento ricocheteou pelas paredes e voltou, desceu as escadas, passou pela sala de produção, levantou novamente o cheiro podre, passou pela porta e continuou levando o copo de plástico na rua.


Marcely contou às 11:31 AM
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Quarta-feira, Abril 12, 2006

Um post, uma exposição, um texto, uma crônica, um registro...

Estou cansada, cansadíssima, em escala progressiva, aumentativa e que só tende a piorar tanto no âmbito hisótico-social quanto na área de pluriatividade cerebral e mental pessoal e coletiva, desse dialeto semântico-gramatical exclusivo, corrosivo, cansativo, impessoal e não benéfico que é o discurso acadêmico. Essa outra língua acariciadora e masturbadora de ego deveria ser extinta, exonerada, abolida, execrada, suprimida do nosso contexto social – sendo essa sociedade uma expressão representativa de uma conjuntura abrangente de todos os aspectos da vida do ser humano. Porque não só eu não entendo, nem quero entender e tenho raiva de quem entende esta verdadeira encheção de lingüiça e/ou de saco, como também muitos outros indivíduos excluídos ou não socialmente, e, se são excluídos, é justamente por causa dessa atividade segregadora, excludente e antiética. Neste sentido, é interessante apontar que esta desnecessária linguagem absurda e, poderia-se dizer, hipercorretiva e hipergeracional de preconceitos é um verdadeiro e significativo atentado aos sujeitos, pessoas, indivíduos, seres humanos que não a compreendem nem a detêm, ou seja, maior parte da sociedade brasileira. É importante salientar que esta deplorável, medíocre, antiquada, criticável atividade está visível e assustadoramente presente em discursos políticos justamente com a intenção maldosa e consciente de convencer, imputar, de forma enganosa, exploradora e manipuladora seus discursos com presença e/ou falta de opiniões e argumentos.
Em suma, pode-se concluir de tudo isso que vá se fuder, puta que o pariu, hem?! Vá tomar no cu na casa do caralho essa linguagem escrota, se é que fui suficientemente clara. Vale acrescentar, ainda que redundantemente: puta merda, viu?!

Enfim, tenho tido aulas, prova e também ajudei com um capitulo de livro no estágio, tudo isso com esse língua irritante. O Daniel até tentou me consolar da raiva que eu estava no domingo ao estudar pra maldita prova de Literatura colocando uma almofada na minha frente e dizendo: "Bata nele, vai, Marcely, finge que é seu professor", e fazendo voz de imitação "Por favor, por gentileza, por obséquio, Marcely... bata em mim!".
Mas não é justamente isso que a gente vê em Lingüística? Que usam essa linguagem pra, por meio de retórica, manipular as pessoas? E, olhem só que coincidência!, pra ser pastor na IURD precisa aprender retórica antes. Lindo! Aí as professoras querem que a gente tente incluir todas as pessoas no domínio desse tipo de linguagem pra que não haja esse preconceito todo que a gente tem, por exemplo, por pessoas que falam "é nóis na fita, ladrão!", que além desse dialeto vão saber dizer “somos nós na faixa, na película, no videotape, senhor criminoso, desonesto, golpista, desordeiro, vigarista!", além de interpretar os outros mal intencionados que a usam. PRA QUÊ?!! Nem as pessoas que entendem esse tipo de dialeto sabiam usar antes de aprender na escola! É a gente que cria essa diferenciação. Nós professores que inserimos na sociedade mais esse tipo de preconceito lingüístico gratuito. Gratuito porque não ajuda em nada na comunicação, pelo contrário! Isso é valorizar a forma e sapatear no conteúdo.
Aí acaba ocasionando esse tipo de vácuo cerebral como se tivessem posto de molho na cândida seu cérebro por horas e depois torcido, torcido, torcido, torcido até ficar bem limpinho e enxuto e, saindo de lá, você percebe que nem lendo Harry Potter, nem vendo Malhação, Mariana da Noite ou Belíssima você se distancia tanto da realidade.

Dou 5 reais pro cobrador.
– Tem 30 centavos?
– Não sei, deixa eu olhar... – acha os 30 centavos e dá. O cobrador olha um pouco para o horizonte e devolve 3,50. Você sorri e gira a roleta. Senta, lê um pouco, pára de ler porque já ta ficando zonza (não pela leitura, mas por estar sentada naquele banco que vai de costas), começa a pensar sobre o troco. É 1,80... 1,80... dei 5,30... 5,30... 3,50... 1... 1,80... 5,30.... ou 1,80 e 3,50? 5,30... não era 5,20? 5,10... 3,50, aí sim! 1,80... 5,30... Puxa, faltou 20 centavos, nem vou reclamar, sou preguiçosa boazinha.
Não vou conseguir descobrir meu ponto de trás pra frente, vou levantar. Hum... está longe... Então vamos pedir o troco.

– Moço, ta faltando 20 centavos, não tá?
– Não... quanto você me deu?
– 5,30. Você me deu 3,50...
Ele tenta ser solidário:
– Sim, e é 1,80 a passagem, né?
Recuso a ajuda e continuo me humilhando
– Eu sei! Então... 5,30... 3,50... Eu devia dar 5,10, né?
– Não, a passagem é 1,80...
– Mas então! Peraí... 5,30, 3,50... 5,30 mais 1,80... 3,50... – conta... somar... somar... ah, alguém me ajude! – Er... Ih, tá chegando o meu ponto! Deixa pra lá, nem ligue, eu faço Letras! – sorrio amarelo.
Desço, vou fazendo as contas por 5 quarteirões até que eu descubro entre derivadas, regras de três e incógnitas que era só somar 3,50 mais 1,80.
– Ah, era 3,50 mesmo...!
Perfeito! Quem precisa de matemática quando sabe tudo sobre alomorfia morfofonêmica e alternância vocálica redundante e não redundante, né?


Marcely contou às 3:01 PM
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Segunda-feira, Abril 10, 2006

Um paradoxo

O mundo é um paradoxo que só não é paradoxal por ser paradoxo, concordo com os barrocos (segundo meu professor verborrágico, isso se deve a uma compatibilidade histórica, única coisa relevante que consegui pescar e me interessar dentre seu infidável, inexpressivo, porém adulado, dialeto acadêmico (e eu estou me deixando contaminar)).
O paradoxo que eu ia apontar era: por que um livro de auto-ajuda que se dirige a formar seres humanos ideais, positivos, felizes e perfeitos, formula a idéia de valorizar as diferenças?


Marcely contou às 11:22 AM
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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos