sexta-feira, 30 de junho de 2006

O guardanapo suicida

Pode ser sim que seja – e é, afinal – só tpm nesses dias, mas minha vontade de morrer é forte e urgente. Bate assim, o mundo parece meio absurdo, talvez meus hormônios contribuam para que eu fique lúcida e inteligente demais. Porque só a estupidez mesmo pra colaborar com essa coisa gratuita que é a vida. Ontem eu pedi com toda a fé que surge assim do desespero: “deus, pela zilhonésima e última vez: eu sei que eu vou morrer, não faz diferença quando, veja, eu não tenho coragem pra me matar, você sabe, se é como dizem, você quem dá e você quem tira, tira, mas tira agora, dormindo, seria ótimo. Por favor.”. Nada, deus em sua imensa inexistência continuou mais quieto que o vácuo, e também não me confortou, como das outras vezes em que pedi. Ora, não existe! Ou se poderia supor que ele existe sim, mas com um sorriso que eu bem posso imaginar, aquele de indiferença, de indiferença cínica, que nem a ira mais irada poderia trazer tom mais macabro. Malvado! Mas eu – viu deus – sou boazinha, e prefiro acreditar que você não existe, porque acreditar que você mentiu pra todos nós que era bonzinho... ora, só pode ser um complô satânico! Mas não, deus só não existe... porque aquele livre arbítrio que todos nós sabemos ser tão plástico quanto o “mundo corporativo”, oras, se existisse, eu pediria... enfie ele ó, no seu graaaaaaaaande * onipresente. É, é, assim se explica tanta merda! Mas eu só digo isso, sem nenhum ressentimento, porque eu prefiro acreditar, que deus não, não existe. É, tanto lógica quanto apaixonadamente, não tem saída, não tem erro. Se existir, perdoe as palavras... ou continue me ignorando, acho que nem que eu me vista de baiana e fume charutos e pule amarelinha cantando atireiopaunogato você se dignaria em dar um alô, certo? E se toda essa indiferença for simplesmente pela posição de superioridade, olha, vou te dizer, sou mais cristã que tu.
Depois, sem nem perceber, eu fui sarcástica, ontem, eu sei, lembro bem “Quer que eu tenha um filho antes de morrer? Eu faço a droga de uma criança e morro, faço um filho, dou continuidade à espécie, Senhor!”. Foi só confusão da minha parte, ok, eu não quis ser realmente sarcástica nem bancar a espertinha, não naquela hora, nós todos sabemos o quanto dor, tristeza, fome, tira nossa vontade de simular, agir, fazer coisas interessantes. Tudo não passa de palavras, às vezes me parece que não passa de palavras, vazias, porque tudo, oras, essa é que é a verdade, só tem recheio por nossa própria fé, pode ser falta de razão, cúmulo da subjetividade, arrogância demais, que seja, que tudo está vazio de valor como as palavras que só têm valor porque a gente dá sentido a elas. A gente que dá. Mas as palavras, não, não, não existem. Por si só? Não!
Mas pudesse ser essa a resposta: deus não sente nada, ele nunca foi humano, oras, nunca sentiu dor nem prazer, nem felicidade nem tristeza, nem paz nem angústia, nunca fome! Voilà porque ele não passa o cálice da gente! Ele não vê a menor diferença, deus é insensível! Ou será psicopata? Ao menos neutro. Transparente como detergente. Imóvel. Isso não passa de um jogo de xadrez, ele não vê diferença entre dor e alegria e nos concede um e outro arbitrariamente, não por benevolência. Um deus autista. Logo ele não se sensibiliza nem se irrita comigo. Deus dá de ombros: impassível. Quanto charme! Aposto que usa um daqueles sobretudos pretos...
Ontem no RU eu pensava, que se eu fosse deus eu me divertiria em tornar as pessoas extremamente loucas, meu mundo kafkaniano, ou meu lógico(!) sistema capitalista... Hahaha! É! Seria divertido, fazer pessoas andarem de cabeça pra baixo, um quadro surrealista e contraditório, faria pessoas dizerem: “Eu PRECISO morrer pelo meu país”, “Eu DEVO lucrar tantos pra minha empresa porque é NECESSÁRIO”. “Eu preciso julgar esse moço porque ele restringiu A LEI e praticou INCESTO”,”...Mas é preciso AMAR!”, “Esses HOMOSSEXUAIS são nojentos!”, “O casamento é LINDO!”, “FILHOS não são a razão de tudo!!!”, “PRECISO de um carro daquele formato, mas daquele, só daquele!!!”... HAHAHAHAAHA!
É, é sim, agora eu percebo, a razão é só uma loucura lugar comum, imitada pelos mais fortes, ou pelo grupo que não quer sair da linha. Há! O mundo é, é...é... uma loucura! E eu querendo sair dele porque é todo limitado... mas quem disse? É só criar uma religião do tipo: vocês devem... as pessoas precisam dever, elas amam dever... e eu só queria continuar fingindo (fugindo) – e há alguém são aqui pra me condenar? – Eu acho que nã-ão! – Quando um carro passa lá embaixo, quando chove e o pneu faz barulho com a água eu me transporto para a ilha dos Dez Negrinhos, ou para a ilha daquele livro da coleção vagalume que não me lembro... mas eu sei, eu sei que eu preciso, neste momento, ser apenas uma criança eeeeeee... e... estar no carro, numa viagem, à noite, na chuva, com a certeza e expectativa de que ALGO irá acontecer. E vai.
Eu vejo por entre as partículas de ar. Não há sentido, mas desenfreado... desenfreado se chega a algum lugar. Remédio: duas ampolas de cinismo de manhã, um supositório de sarcasmo depois do almoço, e antes do jantar enlouqueça! Vivendo a meia-vida inteira...
Se apóiem na incrível metáfora lúcida (lúcida, argh!): era um pássaro, mas tentou se suicidar se jogando do 11o, caiu no ar, mas como um guardanapo abriu, ficou pairando, pairando, porra, nunca chega no chão, e se chegar sairá intacto. Assim pela falsa tentativa saiu-se ilesa: de si mesma.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

And the oscar goes to...

Os olhos

Mais uma vez seus olhos sonhadores pro meu lado. Ela sabe que consegue (ou sabe que tenta) imprimir sua alma por ali e, na verdade, isso não me atrai – pelo contrário. Talvez no começo, mas as coisas cansam, creio que ela mesma se cansa dela. Amua-se num canto qualquer e mais uma vez seus olhos dão o aviso do que se passa lá por dentro, e isso me irrita – não que eu assuma pra mim mesma –, já se tornou previsível demais tudo isso que transborda dela com tão ingênua honestidade. Ela me faz enxergar – e quando percebe seus olhos soltam chispas maliciosas – que estou da mesma forma que ela, identicamente perdida, com olhos mais opacos ou não, a boca frouxa pra traduzir esse texto que se repete. Ela se acha muito esperta. Ela é muito esperta e por isso mesmo não é, só consegue ser esperta pra ela mesma. Às vezes lhe bato (no fundo ela deve saber que merece quando revida com menor intensidade), ela esbraveja com olhos magoados que me incitam a ser ainda mais violenta... Não é por menos que tenha saído de mim própria esta cópia de toda minha tolice. Disse que a queria de volta, que a amava, e que amor iludido! Não de mãe, vocês já devem ter entendido... isso é por demais estranho. Talvez devêssemos combater toda essa monstruosidade quebrando paredes e monitorando a todos. Mas quem nessa sociedade toda perdida monitoraria? Talvez uma meia-criança como ela, tão sonhadora que ainda que participe dessa perversão é justa o suficiente para carregar uma bandeira proclamando respeito e bondade pelo mundo. Será que não a eduquei para que soubesse que essa droga de sociedade é toda tão corrompida quanto nós? Que essa justiça na realidade é o que apoiamos na rua e infringimos porta à dentro? Lá fora, ainda assim, é nosso confessionário quando, arrependidos, gritamos contra nós próprios.
Ela sente o maior prazer em baixar os olhos e dizer exalando um pedido de socorro fingido – ela sabe jogar isso a seu próprio favor, sente falta da piedade que não lhe dou –: "sou abusada pela minha própria mãe". E com toda sua criancice ganhe o choque e pena das pessoas e sorri por dentro maldosa, depois olha sádica pra mim quando as pessoas nunca mais retornam de tão assustadas. Hipócritas! Todos nós, quero dizer, por que ainda estaria lhes criticando?
Eu a amo... ou amava. Amava quando era mais proibido, sejamos francos – e isso é estúpido, assumo. Ela agora sabe o que faz... que coisa, não seria maldade, ela continua a mesma criança que sempre foi, apenas mais madura e gosta, sejamos francos, ela mesma sabe! Mas faz disso seu inferno só por pena de si. Diverte-se em ter auto-piedade e acreditar em sua dor inventada. Talvez a ingenuidade dela a faça querer excluir sua culpa disso tudo, e acredita até mesmo que não é auto-piedade o que sente sendo forte e dizendo que isso não a machuca. Ela mesma se faz um pedaço de isopor em meio ao mar violento de seus pensamentos, sendo jogada de lá pra cá aceitando com a resignação – e orgulho – de que era isso mesmo o que queria. E se orgulha, e se desorgulha... Às vezes tenho vontade de lhe gritar: filhinha, logo você cresce, vai se casar (e se mandar daqui). Será que ela pensa que será assim pra sempre? Já não agüento mais... sinceramente, já estou sendo forçada a fazer aquilo que forcei, e não sou o tipo que se submete, devem ter percebido que gosto de me sentir má também, os olhos com chispas dela nasceram mais da minha vontade de demonstrá-las nos meus próprios olhos do que de meus genes doados.
Fico pensando naquelas conversinhas de mães cujas vidas "foram modificadas por sua maternidade" e sinto vontade de rir alto. Tenho ultimamente sido sarcástica por causa de todo esse sentimento que me dá vontade de dar um tiro em nós – mas embora eu seja de fazer o que quero isso eu prefiro fingir que não. Mantenho-me por meio desse sarcasmo desesperado, desse cinismo infernal, cada vez mais me dobrando sobre meu próprio estômago onde foram parar chispas que voaram dos olhos dela. Estou quase a acreditar no inferno quando me sinto toda assim pegando fogo por dentro, com um coração de plástico derretendo em chama forte... derreeetiiiidoooooo. E dobrando, rosa, pinga e morre deformado.
– Lúcia, daqui a pouco você vira moça e casa, já pensou que bom?
Como eu previa: olhos surpresos. Um pouco assustados. Ela se perde cada vez que não sabe o que dizer ou quando nunca pensou no assunto. Me pergunta com os olhos: você quer que eu me case? Que pergunta estranha! Sinto vontade de estapear a boca entreaberta dela, como se me acusasse de... que coisa doentia.
– Vai tomar banho, vai, ou vai se atrasar pro colégio!
Nem é hora de aprontar o almoço e eu já ponho a salada pra lavar, creio que quero me purificar junto. Que coisa estúpida, eu me envergonho... Certo, nunca mais faço, então, isso já está me desagradando. Que pensamentos! Ligo o rádio para espantar esses vultos tortuosos. (Será a música a justificativa para todo o mal?).
– Toma.
Entrego o pacote com o lanche. Ela me olha constrangida, quase humilhada, sabe que isso é um não que lhe contradiz sua crença de inocência – tão acostumada a ser coagida que tomou a iniciativa, (mais tarde tomará isso como justificativa). O que me mata é que ela sempre será a vítima pra esse olho grande que me convence – a moral –, quando eu é que, na verdade, sofro e não posso reclamar...
...Vontade de gritar!
Depois que tiver entregado ela na escola vou bater o carro.

Comentários

Mais uma vez provando que o sensacionalismo sempre dá certo. E sim, este foi o conto que ficou em 3o. lugar no concurso da UFPR. Só avisei minha família que ganhei, e eles: "mas cadê o conto?"... ahn... hum... ali! Ali! *aponta*. Eles se viram e eu saio correndo.
Meu pai gosta de José de Alencar...

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Eis um trecho do Cântico dos Cânticos do Machado de Assis:
“ficamos a olhar um para o outro, ela desfeita em graça, eu, desmentindo Shelley* com todas as forças sexagenárias restantes”
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* “I can give not what men call love”

1 é pouco, 2 também, 3 melhora... ou Todo mundo é egocentrista ou assim me justifico

Tenho sentido um certo tédio mortal ultimamente, o que me fez pensar ontem pouco antes de dormir que uma saída cômoda era inventar uma história como aquelas do Marcos Rey, ou da Agatha Christie. Um faz-de-conta, um romance-barbie, uma novela, uma volta à infância, seja lá o que for, que me fizesse ter um pouco de aventura nessa vida morna que estou levando. Se a idéia também der sono a vocês, desejo que seja igual ao meu dessa noite, uma noite branca, em branco, em que eu mais pensava que sonhava, enfim, estou sendo prolixa que nem meus professores, foi só um mal sono e se vocês dormirem me lendo espero que durmam pessimamente.
Eu devo ter escrito aqui que uma vez falei nesse tom sarcástico que me é tão comum e me torna essa pessoa vilã, má, mas graças a minha mãe, uma psicopata teórica de atos cristãos (como se eu agisse!)... enfim (>.<), eu disse uma vez pra Simone, a dona da pensão, que eu queria acabar com a miséria, mas simplesmente porque assim eu poderia reclamar em paz, sem ter que pensar que minha “vontade de comer bolo com chantilí” é indigna porque tem gente que passa fome e frio. A pobreza é realmente um saco, como me narrou o Enrico uma vez, que uma senhora pedinte e triste veio interromper seu momento romântico, é assim mesmo, a poesia é impossível com pedintes e criancinhas sujas e esfomeadas. Da mesma forma meus professores se sentem na necessidade de justificar Machado colocando no meio de todos seus romances uma verdadeira ideologia para o bem da humanidade, uma crítica social que eu não vejo, ou porque eu sou uma personagem machadiana e caí no conto do vigário, ou porque ele realmente não acreditasse que as pessoas fossem altruístas. Seja como for, eu me sinto egoísta e sou assim, e é fácil dizer que se é simplesmente, como se fôssemos inalteráveis; mas não seria a sociedade como disse uma personagem minha (será que eu falo sério com “uma personagem minha disse”?, pareceu ridículo e eu sei): uma proclamação de bondade lá fora que se transgride aqui dentro? Lá fora a sociedade, aqui dentro a individualidade. Machado pra mim mostrava isso: que as pessoas dizem e querem acreditar em uma coisa mas fazem outra, porque, talvez, e daí já é opinião minha, a lei da sobrevivência fale mais alto e só os fortes vençam. Graças a deus lá fora ainda existe moral e decência e unidos pelo menos matamos um pouco nossa individualidade que no fundo, no fundo, por mais que tentemos, é amoral. Ou até, melhor: imoral.
Clichês!
O que eu queria com o parágrafo anterior ao anterior era só dizer que eu estou consciente da mortalidade infantil e da máfia das sanguessugas (embora não precisamente, eu sei de nome), mas o que de fato me preocupa é que estou tão cansada da minha monotonia (ui!)...! Ontem eu fui ao supermercado (no caminho eu doei uma porção de roupas que eu não uso pra campanha do agasalho, pessoal) e estava tão, mas tão entediada, que nem os doces mais interessantes estavam me interessando, nem queria ir ao cinema ver o Matheus Nachitergáile, ou seja lá como ele se chame, interpretar um senhor que quer mostrar o cara engraçado lá pro filho. Banalidade das banalidades, tudo parecia fartamente banal. E eu queria, no fundo, mas sem convicção, ver o pessoal da pensão, ver muito o Enrico, jogar pôquer e rir das filosofices e observações engraçadas desse mesmo pessoal da pensão. A monogamia está me cansando – aha!. Mais precisamente: com uma dupla se faz pouco ou nada, não dá pra jogar pôquer direito, truco de dois também é sem graça, sem contar que entre nós não há verdadeira rivalidade, e não tem graça ganhar do Daniel que não sabe perder. Ganhar pra mim é um acúmulo que o meu querido Marlon tão bem resumiu: “bonita, sexy e ainda sabe jogar pôquer”, e eu fico vendo o Enrico com seu tom maldoso a dizer por todos os cantos: que eu poderia ficar pulando nua com um cacho de bananas na cabeça que meu maridinho praticamente não notaria. Estou começando a achar que está no meu momento de ler Mme. Bovary ;D. Mas, é claro, só digo isso mesmo sabendo que o Daniel irá ler, porque eu sei que de fundo não tem nada de verdade escandalosa, apenas que eu tendo a subestimar qualquer amor por uma frieza científica e chula, porque amor não combina com o formato do meu rosto, assim como minha família me ensinou e eu sei que em matéria de família eu e o Enrico somos iguais. E a verdade mesmo é que não acreditamos que o amor é coisa pra ingênuos, mas, pra não sermos ingênuos, dizemos que não acreditamos em amor, ou ele é mesmo muito ruim. É como deus. (E eu e essa mania de ficar achando que têm realmente pessoas parecidas comigo, ou que todos são porque é LÓGICO, pobrezinha...!)
Mas, voltando ao assunto, é fato que não dá pra jogar definitivamente War com duas pessoas, muito menos Imagem e Ação.
E quanto mais eu escrevo, mais eu percebo que qualquer tentativa de interpretação não funciona, nunca funcionará, porque se fosse me levar ao pé da letra ou não, ainda assim, estaríamos enganados. Por isso que eu gosto de vários amigos, suas interpretações de mim quanto mais variada mais parece ser a certa. Talvez seja assim, quanto mais definições possíveis – ainda que contraditórias – melhor.
Mas, concluindo, a idéia é: eu estou entediada (me ocorreu um trocadilho péssimo – eu sou famosa por feitos do tipo -: o mono está me deixando stéreo, hã?! hã!? hã?!). Pra me desentediar preciso de amigos. Não tenho amigos por perto. Logo irei escrever uma historinha de ação que me faça viver longe daqui um pouquinho. O problema: minha criatividade se extinguiu. E eu tenho que estudar pras provas e refletir sobre o mundo... nada de novo no mundo.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Piegas no meu pau, então

Essa manhã, dentre muitos sonhos, acordei de um assim: Eu era um garoto ao telefone com o ex-namorado da mocinha na minha frente. A mocinha na minha frente estava com um outro moço e dentro de um quarto com a porta semi-aberta. E o moço do telefone perguntou como ela estava vestida, eu respondi: "com um vestido verde claro e um laço no cabelo". E o moço do telefone respondeu: "ela se veste assim pra sonhar que está no século 210Q, as latas de lixo crepitam lá fora e ela tem medo de que ele não volte mais". Enquanto isso ela deitava na cama com o outro vestido só de calça, e me dava um tchau molengo e piscava.
Ela era tão bonita... Tinha os olhos verdes.
E aquela bunda era do Daniel.
E eu tenho sonhos tão dementes, mas ao mesmo tempo tão cheio de enredo e sentido para um sonho. São um entretenimento.
Acordei desse com o despertador e fiquei um bom tempo meio poética, pensando em coisas, em coisas que eram pra ser escritas se eu não estivesse moída de cansaço. Mas agora que eu estou quase recomposta vamos ver se eu escrevo (com um comentário antes: Chico Buarque é tão foda, ou estou ficando velha pra achar que as letras dele fazem um enorme sentido? Tenho só 19 e já beijo com a boca de hortelã... Queria morar na rua Chico Buarque com Machado de Assis, imagina só! *.* Por falar em Machado estou “vendo ele” em Literatura Brasileira. Toda vez que entro na aula dele sinto que esqueci de pôr o véu, sério mesmo, por instinto (porque quando eu era religiosa, meus cultos eram acompanhados com véus pelas mulheres) e juro também pra vocês que meu professor segurava uma Bíblia. B-Í-B-L-I-A, no sentido de livro de ficção religiosa mesmo, enquanto falava dele, o professor lia contos do Machado dentro do livro. Era sim, uma bíblia, grossa, capa preta, folhas finíssimas e até com os beirais vermelhos. Quando falo que Machado é deus vocês não acreditam, mas cheguei até sentir um quentinho emocionado e transcendental por dentro na última aula).

A nostalgia branco gelada

Eu estava deitada, tentando dormir, mas a claridade não deixava meus olhos, e lá fora eu ouvia uns carros distantes que pareciam andar na chuva, faziam um som sempre cinza e lembrei das paredes branco-gelo que tinha formato crespo de pingos e que me lembravam dois lugares em que as havia: o apartamento simples em frente à praia da minha avó e o hotel em Poços de Caldas. Todos com uma atmosfera branco-gelo de nostalgia de céu carregado, que sempre lembravam um daqueles quadros noturnos que cheiram a naftalina com uma criancinha de pijama e um pai-nosso embaixo. É assim essa nostalgia. E lembrei, claro, de quando era criança, no mesmo apartamento da minha avó, aberto o porta-jóia dela, do qual eu sempre tirava o colar de miçanga vermelho, dispensando o outro que tinha uma Virgem Maria, com medo até de tocar nele. Abria o guarda-roupa para olhar o espelho de corpo inteiro, e lá dentro via outras imagens de santas triangulares e azuis-marinhos, me preocupando em pouco olhar pois vai que eu ficava enfeitiçada por alguma macumba? Medos que minha mãe me educara dentro. E ficava olhando, olhando no espelho, cantando, fingindo ser outra, falando baixinho. Minha avó aparecia pela porta e dizia: "Vai ficar com indigestão, não pode comer e olhar no espelho". Meu pai confirmava. Ah a religiosidade...!

Anoitece

Mas a verdade é que eu menti sobre o fim da minha nostalgia. Bom, quando é que eu não fujo do assunto? O fim não era religioso ou avesso a religiosidade (o que eu sei muito bem dá no mesmo, mas a gente precisa da crença pra viver, e também a arte é realmente um tipo de religião, nesse caso eu me assumo a mais cheia de superstições. Sim, eu me acho artista, pelo menos caracteristicamente, afinal eu tenho o verdadeiro perfil de artista: acho que tudo que faço é uma grande bosta, odeio trabalhar (vide o Chico com seu Cotidiano e sua Construção, tudo vagal, fazendo do trabalho assunto pra uma verdadeira tragédia real, martírio pessoal), me visto mal e sou mais desbotada que foto em orelha de livro, e não tive infância, sonhei o tempo todo. Olha eu fugindo do assunto de novo). A verdade é que na hora em que eu me lembrava do colar de miçanga vermelho pensava nisso:

A nostalgia cor de coral

... quando era criança, no mesmo apartamento da minha avó, aberto o porta-jóia dela, do qual eu sempre tirava o colar de miçanga vermelho... Um colar velho, que era fora de moda mesmo pra época, e minha avó guardava mais por lembrança. Talvez não se achasse em idade mais pra usar um colar chamativo, uma avó daquela época que era. Não digo por saudosismo, mas era uma que achava que estava desatualizada pra comprar enfeites, quem se sentiria saudoso de algo assim? Mas, é verdade, hoje em dia são tantas lojas que a idade de terceira mudou pra melhor, e qualquer idade se sente meio assim em dívida com todas essas lojas e lojas e lojas que abrem e nos criam necessidades do tamanho de muralhas e nos melhoram a vida se pudermos com ela. Na verdade parecem grandes mendigos que nos dão brindes em troca (no lugar de deus te abençoes), quase a mesma sensação de contentamento e nos fazem sentir culpados quando aquela que estava às moscas morreu e ganhou um epitáfio de “aluga-se”. Mas o colar, naquela época, tinha o único valor de despertar sonhos e ser minha capa de super-mulher, embora fosse, é verdade, um colar feio que quase parecia mesmo de brinquedo.
Ah, a religiosidade ideológica!