Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
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Filosofia Crônica

Terça-feira, Outubro 28, 2008

O deserto

Há muitos dias um homem tinha se perdido de sua caravana, no meio do deserto, e seguia seu caminho sob um sol escaldante sem nunca encontrar nada além de enormes dunas de areia. Já havia algum tempo e ele tinha bebido a última gota de água que lhe restava no cantil, agora sua boca ardia de tão seca, mal podia mover a língua e todo seu corpo pesava molemente sobre seus pés. Se antes buscava por um rumo qualquer em direção a uma cidade, agora todos seus esforços se resumiam apenas em encontrar água. Na sua boca não havia nem mais a saliva pastosa de um dia atrás, sentia-se todo quente e ressecado, sentia-se murchando, a pele rasgando-se debaixo do sol forte. Ele delirava, via enormes jarros de água, sonhava com o toque frio dela, confundia o céu com uma fonte, as dunas se desfaziam na sua frente dando lugar a um oásis que ele descobria ser só mais uma grande extensão de areia. Areia e mais nada. Areia e seu desejo atormentador por saciar sua sede. Areia, areia... de repente reunia forças, corria, mas nunca chegava a nada. Sua boca, totalmente ferida, em carne viva, queimava. Sua garganta doía e ardia como se ele houvesse engolido areia. Areia, ele se sentia todo feito de areia. Seco.
De repente, lá longe ele viu um oásis. Mais um sonho? De qualquer forma, seu desejo era já instintivo, recusava a menor hesitação, correu em direção à fonte de água – e não era apenas mais um sonho. Era água! Água fria, água até mesmo gelada, escorria pelos dedos, molhava o rosto, entrava pela boca adentro fazendo um caminho loucamente refrescante até sua garganta... e parava. Doido, ele quase sufocava na tentativa de engolir a água avidamente, porém a água não descia, emperrara como se houvesse uma barreira. Uma barreira de areia? Ele sentia como se fosse, e fazia movimentos espasmódicos na tentativa de engolir a água, seu desejo era desenfreado, a água brilhava ao sol, pequenas gotas espirravam por tudo, as pedras eram frias, a água era gelada, o homem enfiava a cara dentro da água, sorvia para dentro da boca... e nada. A água parava no meio do caminho. Gelada, convidativa, líquida, saborosa, despertando o desejo. Ele tentava engolir, urrava de tanto esforço, mexia a boca, mexia a língua, a água escorria pelos cantos da boca, molhava sua roupa, ia para o chão. Nova quantia de água, o homem sufocava, mexia toda a boca e urrava de desespero com a boca fechada, quase engasgava, mas nenhuma gota entrava pela sua garganta, apenas sentia o desejo aumentando, sua boca molhada, seu corpo molhado, a água fluindo para fora do corpo.
Depois de muito esforço, sentiu-se exaurido. Olhou para o oásis com o desejo devorador, mas reprimido para além das suas forças. O oásis era cada vez mais bonito, mais sedutor, a água parecia cada vez mais fria, cada vez mais límpida, ondulando sob o céu azul e o sol. O corpo do homem era atraído totalmente pela água, mas a água era repelida por sua garganta e não entrava. Fazia nova tentativa – tentativa baldada. Mais uma nova tentativa e nada. O homem tentou, tentou, milhares de vezes, cada vez mais furioso de desejo, a água cada vez mais atraente, o homem cada vez mais sedento e mais ávido. Mil vezes tentara, cada vez mais entrava no desespero, a água escorria pelo canto da boca fechada, ele começou a chorar sem lágrimas. Chorou como criança, chorou aos berros, estapeava a água com as mãos e a água espirrava, esguichava, gelada, límpida de encontro a ele.
Aí então a fonte disse:
"Ah, qual é... agora você vai chorar só por causa disso? Qual é o problema?"

Fim.


Marcely contou às 3:02 PM
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Terça-feira, Outubro 07, 2008

Contruções entre escombros

Como um exemplo-reflexo da nossa sociedade, a Literatura sofreu vários abalos desde o princípio do século 20 até que depois de muitas revoluções a linguagem desabou e foi reduzida às cinzas. Como escritora e pessoa eu me sinto assim, indo na minha casinha simples destruída e procurando erguer um lar no meio dos escombros, pegando uma tábua, erguendo e, ao procurar outra para pôr do lado, a primeira tábua volta a cair e eu fico nessa situação cíclica e inútil como uma idiota obsessiva. Depois de muito erguer a mesma tabuinha, eu olho pra ela e fixo, mas penso: será que ela pertencia a minha casa mesmo? Olho a cena de desolação: os escombros tumultuados de milhares de casinhas todos espalhados por diversas explosões e eu não sei nem reconhecer qual tábua mais é minha.
E a que eu peguei pra fixar cai de novo.
Isso não é só quanto à estética literária, como eu disse, a gente sabe que nossas convicções e valores são as mesmas tabuinhas. Me sinto desolada sem casa. Não estou selvagem o suficiente para ser livre sem um lar, vou para baixo de uma árvore para me proteger da chuva mas me sinto uma indigente ao fingir que é casa algo que não me abriga totalmente – e não me pertence.

Não há muita lógica, por que as auto-ajudas buscam dicas na filosofia oriental se a maior taxa de suicídio (dos países industrializados) é a do Japão? Nem recheado das melhores dicas de como viver bem e ser feliz se vive bem ou se é feliz. Mas alguém me disse há alguns comentários atrás, se não me engano, que não tinha lógica mesmo na filosofia do não-desejar budista. Pois não é sintoma de depressão ficar apático e não ter vontade de nada? Eu disse no post anterior que vivo sem muita vontade de nada ultimamente – e não entrei em nirvana por isso. Se não fosse pelo meu único desejo, acho que estaria minada mesmo – qualquer coisa, menos exultante.

Lânguida. Vulnerável sem um lar de convicções eu sou entre cínica, cética, melancólica e desacreditada. Respondo as coisas mais banais com sarcasmo amargo, enviesado, desafiando o mundo de absurdos com meus próprios absurdos. Eu me sinto uma pessoa desagradável, tentando fazer das frases mais inocentes dos outros um caos de inutilidade. Um menino da classe diz revoltado que os alunos dele confundem ponto de exclamação com enfeite: o desenham caprichosamente e o multiplicam. A professora fala que é devido ao caráter expressivo da exclamação e que era interessante que no espanhol existisse pontos invertidos no início da frase, chamando a atenção desde o início para o fato de ali ter uma exclamação ou pergunta. E eu digo no meu tom mais rancoroso e convicto que, sim, provavelmente o português estava se metamorfoseando para virar um castelhano, por isso os alunos deixavam seus pontos tão evidentes no final da frase, provavelmente em tamanhos gigantes e em cores chamativas, para sabermos começar com a entonação necessária. Toda discussão me parece tola e inútil.
Eu tenho vontade de assoprar as casas dos porquinhos.

Chego uns 10 minutos ou mais atrasada no trabalho e a minha aluna pergunta "professora, você está gripada?". Eu respondo que não, cabeça voltada pra mesa, pegando o diário de chamada para completar com os efes e cezinhos. "Você está triste?". Sorrio pouco convincente entre um c e um f e digo que não. Eu realmente não estou triste, mas meio alheada e distante, quero fazer uma tarefa automática qualquer o dia todo e não conversar muito. Coitada da minha aluna, eu costumo dar mais atenção para ela, mas hoje eu não estou olhando muito pra ninguém. Costumo fingir displicência tão bem para os meus alunos! Até me transformo para algumas pessoas, de forma que elas nunca acreditariam na veracidade de qualquer depressão que eu assumisse. Será que se os pais dos meus alunos descobrissem meu blog e se deparassem com o fato de que eu, no fundo, sou maníaca depressiva a escola me mandaria embora? Será que eu sairia em manchetes de jornais? Algo como "Professora é demitida por escrever lamentações quilométricas"?

A única coisa boa, boa mesmo, é acordar ou ir dormir. Entre o edredom e os braços do Eros eu fico enleada contra o mundo e, finalmente, abrigada. Como deve se sentir um bebê no meio das várias roupas e mantas de flanelas. O corpo do Eros enrolado no meu é da mesma textura de uma esponja de pano e pele quente, a boca pequena e úmida quando me beija me refugia inteira para dentro de um mundo de estopa. Se acordar com o pé direito ajudasse a gente a encarar o mundo todo direito, eu viveria endireitada.


Marcely contou às 3:04 PM
.

Domingo, Outubro 05, 2008

Sem Título número 4

Penso em me matar das mais diversas maneiras – pulando da janela, no ar fresco; penso no gás e me lembro da história que a prof. Rosi me contou do menino que tentou se suicidar pela terceira vez com o tubo do gás direto na boca e um saco plástico na cabeça, que loucura! – e conseguiu; cortando os pulsos, entrando na água quentinha; tomando uma overdose de remédios – e sinto sede. A única coisa que me pára, além do Eros – e será que o Eros me impede totalmente? – é pensar que pode ser só impressão minha que o mundo seja tão insuportável. E fico pensando no menino que se matou na terceira tentativa, que ele devia ter muita certeza do que queria e pra ter tanta certeza ele sabia que não se arrependeria. Bom, é óbvio que depois de morto a gente não se arrepende de nada, isso é claro, mas... e se a vida, no fundo, for boa e eu estiver errada, desperdiçando os meus dias felizes por um erro de perspectiva? É isso o que penso tomando antidepressivo.
De qualquer forma, é difícil acreditar que possa haver luz no fim do túnel quando todos dizem que essa coisa de antidepressivo é ilusória – pois não é estranho um remédio pra infelicidade? No entanto, antes de ter certeza do que faço, eu preciso ter certeza de que tentei tudo – de que tentei amar, de que tentei seguir meus impulsos bons, de que tentei ser mais forte e resistente, de que tentei regular meus pensamentos para que eles me levassem para o lado bom... E eu amo e sou amada, tenho uma casa melhor, um serviço melhor com crianças! É... mas não se vai embora a angústia, ela é adiada por alguns momentos de intensa novidade e... de esperança! Mas então eu noto que não dá pra correr de mim mesma, que está além do meu controle às vezes acordar e voltar a dormir de propósito – por fuga e não por sono! – e eu então realizo que não há nada no mundo, a não ser a possibilidade de eu estar de fato defeituosa e doente e com perspectiva então de poder me curar, que explique isso.
Ainda por cima, a coisa mais bizarra que poderia acontecer nas reações adversas de um remédio aconteceu. Fico pensando em sexo o tempo todo numa excitação quase interminável, mas tão intensa e tão interminável que nunca é saciada no ápice do gozo. Não há ápice, apenas a constante voracidade insaciável. Como vou explicar pro médico que só visitei uma vez por alguns minutos que o remédio que ele me deu só me fez virar ninfomaníaca? Primeiro contando pra todos (que não é muito, pelo menos) que visitam meu blog, claro, o mais sensato a se fazer... ainda assim, dizer por escrito pra pessoas que na minha cabeça são imaginárias não causa o mesmo impacto que um médico totalmente estranho que estarei vendo na minha frente.
Eu não estou também incuravelmente triste, não é exatamente triste o adjetivo. Eu estou... angustiada, talvez? Provavelmente. Nada me desperta vontade – além do Eros – nem mesmo escrever – abre-se agora uma exceção. Talvez ler, talvez sentir um pouco de sombra e vento, mas é como se tudo tocasse minha pele e minha mente estivesse dispersa ou tomada por uma massaroca sem gosto... é, é mais ou menos isso. Talvez eu procure coisas que despertem minha mente, nem que seja a raiva dos outros por mim, acho que era isso que acontecia na casa da minha mãe. As manhãs são as mesmas, com a diferença do tédio e da solidão (que eu achava os culpados de tudo... quem dera!). Fico ranzinza e mole e melancólica a ponto de – não havendo outro remédio – tentarem me ignorar. Se ao menos eu conseguisse escrever... – isso antes me libertava, agora parece o efeito inverso: me prende... aquela merda de livro!
Nada mais me desperta muita vontade. É isso.


Marcely contou às 8:25 PM
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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos