É sabido que o Eros tem vergonha do modo como nos conhecemos, eu só descobri isso quando minha sogra, um dia num almoço enquanto esperávamos sentadas o Eros pagar o caixa, perguntou pra mim "como foi que vocês se conheceram...? O Eros disse pra mim que te encontrou na rua... como foi isso?". E eu só fiquei uns segundos boquiaberta: "como assim na rua??? Ele mentiu! Eu não fazia idéia do que dizer, afinal... na rua? Como se conhece alguém assim, de repente, na rua? Foi aí que na minha mente se passaram milhares de possibilidades do tipo: "Sim, conheci ele quando estava fazendo ponto na esquina, ele me perguntou onde eu tinha conseguido aquela meia-arrastão em forma de teia de aranha tão interessante, então eu fui com ele até onde ficava a loja e ele me pagou uma hora inteira de sexo sem nem ter usado, apenas porque gastei 5 minutos levando ele até a loja do outro lado da calçada. Achei ele tão gentil que quando ele disse que estava se sentindo inseguro em contar para família que era travesti durante a noite, eu me ofereci na hora pra ser a namorada de fachada dele, e foi assim que nos conhecemos!". Mas já que estamos próximos ao natal e eu já perdoei o Eros por isso há muito tempo com todo meu espírito natalino antecipado, fiquei imaginando ultimamente como a gente poderia ter se conhecido assim, sem parecer que eu dou pra qualquer cara que eu encontro na rua.
Possibilidade 2:
"Estava eu passeando perto de casa quando um homem de meia-idade me parou na rua para perguntar uma coisa, era o Eros. As primeiras palavras dele para mim eu nunca esqueço: 'você sabe onde fica a boate Country's Oxside?', foi aí que notei que ele estava todo vestido de vaqueiro, com uma calça super apertada que mostrava bem saliente a região da virilha. Foi amor à primeira vista..."
Possibilidade 3:
"Estava eu indo comprar pão quando um senhor já de idade me abordou: 'moça, você tem um trocado? Minha irmã está com apendicite e eu precisei vir lá de Tocantins pra cá trazê-la pro hospital porque só aqui eles fazem esse tipo de cirurgia complexa e arriscada e agora preciso voltar pra casa, estou sem dinheiro pra passagem e não posso faltar no trabalho...', era o Eros. Olhei a minha carteira: tinha exatamente o valor da passagem para Tocantins, segundo ele. Dei todo o meu dinheiro (passei aquela tarde só com torradas e bolacha água e sal). Ele me agradeceu: 'deus te abençoe e te dê o dobro em troca'. Só descobri que era golpe um mês depois, quando ele me abordou de novo sem querer dizendo que não tinha dinheiro pra comprar remédio pra filhinha... Eu disse: 'eu não te conheço de algum lugar?', foi tão divertido que ele me deu até o número de telefone dele. Nos falamos até hoje... e ele me dá dicas pessoais de como extorquir dinheiro fácil. Se não fosse por isso, não teríamos nem como comer esse macarrão hoje."
Possibilidade 4:
"Estava eu indo assistir um filme quando um ancião me parou na rua, em frente à porta do Cineluz: 'desculpe, filhinha, mas você pode ler aqui pra mim a sinopse desse filme? A letra é muito pequenininha e eu não consigo ler, sabe como é...', era o Eros. Fiquei com pena e li pra ele a sinopse – a letra não era tão pequena assim, se não me falha a memória, era arial tamanho 12. Ele ficou tão agradecido que me comprou uma pipoca doce e, como íamos ver o mesmo filme, fiquei com dó e me convidei pra sentar ao lado dele pra ler a legenda ou dublar mais alto, caso ele não escutasse bem. Ele se mostrou um senhor tão bondoso e educado que acabei me apaixonando por ele... sabe como é, ele me lembrava um pouco o meu pai..."
Possibilidade 5:
"Estava eu sentada num dia ensolarado no banco da pracinha, olhando a fonte e os engraxates passarem, quando notei que do outro lado estava um senhor alimentando os pombos. Era o Eros. Sorri educadamente e ele não se contentou em só sorrir de volta, veio se sentar do meu lado – contra a minha vontade, pra ser sincera. Ele me disse: 'que dia lindo, não, mocinha?' e eu respondi 'é, né...'. Ele continuou meio envergonhado: 'mas não mais bonito que você...', sem graça, mas acostumada com elogios o tempo todo como sou (ú_u), retornei um 'obrigada' meio tímido, me desculpei e saí andando. Não adiantou. Ele foi tão insistente que acabei dando meu nome, meu telefone... e cá estou eu, com ele. Ele é insistente quando quer algo, não?"
Possibilidade 6:
"Estava eu cheirando cola na rua, já há uma semana sem tomar banho, mas o Eros não se intimidou, veio falar comigo: 'Sabia que com um banho você ficaria muito linda?'. Eu respondi: 'Obrigada, tio, mas me passa a grana se não eu te encho de furo' – eu tinha enfiado a mão por debaixo da minha blusinha imitando um estilete com o dedo, como eu já estava já acostumada a fazer. O Eros não se intimidou, pegou calmamente meu dedo por baixo da blusa e disse: 'eu sei que você não faria isso... você não está com fome? Venha aqui comigo que eu te compro uma coisa'. Ele me levou no subway... nunca tinha comido um sanduíche tão gostoso num lugar tão de gente bacana, ele acabou me comprando até um cookie! Fiquei encabulada, mas ele disse: 'de agora em diante não quero mais que você cheire cola, muito menos fique sem trocar de roupa desse jeito, você vai morar em casa comigo, aceita?'. O que eu podia fazer? Acabei indo... percebi que como eu, com ele morava uma porção de criança, a maioria meninas da minha idade – se não me engano acho que todas era meninas da minha idade... Eu não sou ciumenta, sabe? Ele me disse que se eu viesse aqui almoçar com a madama e me comportasse direitinho ele me deixaria até voltar a fumar crack, aí eu cedi..."
Na minha cabeça ainda pululam histórias românticas de como eu conheci o Eros no meio da rua, tal qual ele sonhava ter me conhecido... mas, depois de muito pensar, decidi ficar com a realidade mesmo, por mais que seja vergonhoso conhecer alguém do jeito que eu o conheci...
sábado, 13 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Sobre meus instintos caninos
Estava pensando sobre cães, gatos e nós. Eu tenho essa mania de relacionar tudo, tornando tudo metáfora e alegoria pra tudo, mas é a minha forma de entender o mundo, afinal eu sou imaginativa. Quando acordei, hoje, como sempre, não sabia o que fazer com o meu dia. Entediada nata, desinteressada com tudo, nada vale muito a pena, não tenho grandes expectativas com nada, se não tenho um trabalho, ou seja, uma obrigação muito bem delineada e clara, nada me faz muito sentido. A única coisa que sei que vou fazer do meu dia, quando acordo, é que vou querer abraçar o Eros e comer as frutas picadas com iogurte e bolinhas crocantes dele, depois disso fico perdida porque o Eros pega o seu computador e vai ler e eu fico definitivamente sozinha com o meu nada o que fazer. Peguei o livro do Garcia Márquez, mas sem muito interesse parei de ler pouco depois, sem conseguir de fato imaginar uma mulata de olhos de cobra (é, não sou tão imaginativa assim, pelo menos não com imagens). Depois disso, acabo fazendo a única coisa pela qual me sinto impelida de verdade: me enrosco no braço do Eros – única parte acessível do corpo enquanto ele lê – e fico ali sentindo a paz, o cheiro, a ternura e a textura dele de olhos fechados, pensando. Foi nesse momento que eu me vi como um cachorro, deitado aos pés do dono, esperando alguma carícia – com a única diferença de que eu reprimia as carícias dele, pois podiam atrapalhar a leitura. Mas mesmo sendo obviamente adepta ao feminismo, mesmo sabendo que os cachorros são tachados de dependentes, não me senti totalmente mal por ser cachorro, apenas fiquei pensando e pesquisando sobre comportamento dos caninos e dos felinos.
Ser canino é ter hierarquias, ter um líder da matilha a quem se é submisso. Mas não pensei, primeiramente, no Eros como alguém a quem me submeto – ou, pelo menos, se me submeto não é tão inteiramente como um cachorro, que aceita o que vier do dono, seja recriminações, tapas ou carícias. Fiquei pensando que se ser cachorro é ser dependente de carinho e afeição, eu sou cachorro sem o menor arrependimento. Carinhos e afeto são a coisa mais deliciosa que existe nesse mundo, mais do que comida, mais do que sexo – e esse é maravilhoso, eu sei, mas fica ainda mais maravilhoso se vier carícia e afeto juntos, oras bolas, e ainda assim continuo afirmando que carinho e afeição são melhor (a fusão e a completude de um abraço é de corpo e cérebro, o orgasmo é muito mais apenas corpo e a fusão é temporária). Mas pensando pelo outro lado, a de ter um líder, sim, eu necessito de liderança. Nas minhas relações eu nunca lidero, estou sempre ali, fielmente ao lado, esperando carinho, comida e o comando para o que fazer em seguida, para onde ir depois. E a hierarquia é bastante rígida – a revelia do meu controle, inconsciente –, eu dificilmente escolho, eu sei dizer o que eu não quero, mas o que eu quero não é nem questão de saber, eu não gosto de fazer nada que eu não saiba que partiu da iniciativa do líder alfa, que ele, assim como eu, quer e que por isso decide por mim. Tendo pela primeira vez a consciência clara disso tudo, chego a conclusão que era por isso que nunca deu certo meu relacionamento com o Daniel. Ele não era líder. Ele não era nem sequer cachorro. Filho único como era, provavelmente fosse gato, sabia o que queria, mas queria para si apenas, ia e vinha sem pedir licença, ficava preguiçosamente entre as quatro paredes do seu território sem se incomodar, pois era bicho independente, mas dependente de ter um território fixo. O Eros não. É engraçado que eu sou tão cachorro, mas tão cachorro mesmo, que chego a quase ser um personagem do Fruits Basket de tão cachorro que sou. E mais engraçado ainda, pensando em personagens homem-cachorro, eu sempre fui fã deles, sempre me apaixonei por personagens assim, lembro que tinha uma adoração pelo Sírius de longo cabelo, lobisomem, solitário, quieto e decidido. Ria e gostava mais do Shigure do que do Yuki. Chega a ser bizarra e não só alegórica a comparação. E, além do mais, o Eros é tão parecido com o Shigure! Convencido, divertido por isso, e tenho certeza que se fosse cachorro mesmo ia ser um grande cachorro cinza chumbo. Aliás, pensando melhor agora, sempre gostei mais dos meus namorados com barba e de cabelo grande, adoro acariciar o cabelo macio e bonito do Eros. E esse é o meu post mais bizarro sem dúvida xD
De qualquer forma, pensando mais logicamente, eu não poderia ser de outra forma. Minha mãe é uma grande cachorra (xDD), a minha primeira líder de matilha. Vendo como ela age agora em relação ao meu casamento isso fica ainda mais claro. Quer decidir tudo, tem limites e conceitos rígidos e bem determinados, não descansa enquanto não se vê atendida. Eu fui criada e da forma mais próxima possível nesse tipo de relação hierárquica, vendo o meu destino, os meus valores, os meus gostos e desgostos traçados pela minha líder-mãe, sem a menor possibilidade de negar nada do que ela me passava e impunha. E, muito provavelmente, eu até sinta falta disso: de ter o líder que faça as escolhas por mim, me abdicando da responsabilidade de decidir por mim mesma. E ela, igualmente, vê no macho o seu líder alfa, obedecendo tudo de cabeça baixa o que meu padrasto fala. E eu que sempre achei contraditória essa atitude da minha mãe, que de líder passou a completa submissão, agora a compreendo.
E é por isso que morando sozinha eu me sentia livre como jamais me senti morando com alguém! Sozinha eu me tornava minha própria líder, decidia sem medo, tomava as rédeas da minha vida com o maior prazer. Mas é estar ao lado de alguém que tenha algum valor sentimental pra mim que isso se perde instantaneamente, sem que eu consiga controlar esse tipo de reação. Sim, eu estou presa ao meu destino canino, talvez, porque ele é totalmente instintivo. Porém, conhecendo ele melhor, talvez eu tenha mais controle sobre mim, podendo manobrar meus instintos ao meu favor – embora eu reconheça que é praticamente impossível manobrar um instinto, é quase como controlar um reflexo natural do corpo, pois instinto é o reflexo natural da mente.
Por outro lado, se tenho algo a agradecer a esse meu instinto canino, está justamente na minha carência afetiva. Como eu disse ali em cima, dar e receber carinho, pra mim, é a melhor coisa do mundo. E qualquer animal tem em si o desejo pelas carícias, seja cão ou gato – e o cão talvez seja mais aberto e desencanado para ir lá rolar no chão, se esfregar e pedir carinho sem vergonha alguma. E isso eu não acho uma má qualidade, pelo contrário, é o que há de mais adorável nos caninos. Ou talvez nem todos os caninos. No mundo selvagem, os lobos parecem mais frios e contrários ao contato afável – umas mordidinhas aqui e ali no máximo, para não perder a carapaça de proteção contra o mundo arriscado que pede sempre cautela, desconfiança e frieza. É possível que ao viver num mundo muito selvagem aos meus amores, aos meus sonhos, eu acabe virando esse lobo, eu sempre pensei dessa forma. Mas não me recrimino por não ser lobo agora, de que vale a força contra os inimigos se não se tem a agradável fraqueza de se render ao carinho dos amigos? A fatalidade queira que eu nunca tenha que retornar ao meu lado selvagem, afinal, como dizia naquele livro português – embora a analogia fosse outra –, uma vez domesticado, se somos abandonados, não retornamos mais à independência selvagem completamente. Sem ter garras afiadas e força suficiente para sair por aí abatendo caças, provavelmente eu seria obrigada a passar fome e frio, revirando lixo e me encolhendo embaixo de qualquer coisa, numa simulação deprimente de vida selvagem e força – que é mais resultado de abandono e fraqueza.
Ser canino é ter hierarquias, ter um líder da matilha a quem se é submisso. Mas não pensei, primeiramente, no Eros como alguém a quem me submeto – ou, pelo menos, se me submeto não é tão inteiramente como um cachorro, que aceita o que vier do dono, seja recriminações, tapas ou carícias. Fiquei pensando que se ser cachorro é ser dependente de carinho e afeição, eu sou cachorro sem o menor arrependimento. Carinhos e afeto são a coisa mais deliciosa que existe nesse mundo, mais do que comida, mais do que sexo – e esse é maravilhoso, eu sei, mas fica ainda mais maravilhoso se vier carícia e afeto juntos, oras bolas, e ainda assim continuo afirmando que carinho e afeição são melhor (a fusão e a completude de um abraço é de corpo e cérebro, o orgasmo é muito mais apenas corpo e a fusão é temporária). Mas pensando pelo outro lado, a de ter um líder, sim, eu necessito de liderança. Nas minhas relações eu nunca lidero, estou sempre ali, fielmente ao lado, esperando carinho, comida e o comando para o que fazer em seguida, para onde ir depois. E a hierarquia é bastante rígida – a revelia do meu controle, inconsciente –, eu dificilmente escolho, eu sei dizer o que eu não quero, mas o que eu quero não é nem questão de saber, eu não gosto de fazer nada que eu não saiba que partiu da iniciativa do líder alfa, que ele, assim como eu, quer e que por isso decide por mim. Tendo pela primeira vez a consciência clara disso tudo, chego a conclusão que era por isso que nunca deu certo meu relacionamento com o Daniel. Ele não era líder. Ele não era nem sequer cachorro. Filho único como era, provavelmente fosse gato, sabia o que queria, mas queria para si apenas, ia e vinha sem pedir licença, ficava preguiçosamente entre as quatro paredes do seu território sem se incomodar, pois era bicho independente, mas dependente de ter um território fixo. O Eros não. É engraçado que eu sou tão cachorro, mas tão cachorro mesmo, que chego a quase ser um personagem do Fruits Basket de tão cachorro que sou. E mais engraçado ainda, pensando em personagens homem-cachorro, eu sempre fui fã deles, sempre me apaixonei por personagens assim, lembro que tinha uma adoração pelo Sírius de longo cabelo, lobisomem, solitário, quieto e decidido. Ria e gostava mais do Shigure do que do Yuki. Chega a ser bizarra e não só alegórica a comparação. E, além do mais, o Eros é tão parecido com o Shigure! Convencido, divertido por isso, e tenho certeza que se fosse cachorro mesmo ia ser um grande cachorro cinza chumbo. Aliás, pensando melhor agora, sempre gostei mais dos meus namorados com barba e de cabelo grande, adoro acariciar o cabelo macio e bonito do Eros. E esse é o meu post mais bizarro sem dúvida xD
De qualquer forma, pensando mais logicamente, eu não poderia ser de outra forma. Minha mãe é uma grande cachorra (xDD), a minha primeira líder de matilha. Vendo como ela age agora em relação ao meu casamento isso fica ainda mais claro. Quer decidir tudo, tem limites e conceitos rígidos e bem determinados, não descansa enquanto não se vê atendida. Eu fui criada e da forma mais próxima possível nesse tipo de relação hierárquica, vendo o meu destino, os meus valores, os meus gostos e desgostos traçados pela minha líder-mãe, sem a menor possibilidade de negar nada do que ela me passava e impunha. E, muito provavelmente, eu até sinta falta disso: de ter o líder que faça as escolhas por mim, me abdicando da responsabilidade de decidir por mim mesma. E ela, igualmente, vê no macho o seu líder alfa, obedecendo tudo de cabeça baixa o que meu padrasto fala. E eu que sempre achei contraditória essa atitude da minha mãe, que de líder passou a completa submissão, agora a compreendo.
E é por isso que morando sozinha eu me sentia livre como jamais me senti morando com alguém! Sozinha eu me tornava minha própria líder, decidia sem medo, tomava as rédeas da minha vida com o maior prazer. Mas é estar ao lado de alguém que tenha algum valor sentimental pra mim que isso se perde instantaneamente, sem que eu consiga controlar esse tipo de reação. Sim, eu estou presa ao meu destino canino, talvez, porque ele é totalmente instintivo. Porém, conhecendo ele melhor, talvez eu tenha mais controle sobre mim, podendo manobrar meus instintos ao meu favor – embora eu reconheça que é praticamente impossível manobrar um instinto, é quase como controlar um reflexo natural do corpo, pois instinto é o reflexo natural da mente.
Por outro lado, se tenho algo a agradecer a esse meu instinto canino, está justamente na minha carência afetiva. Como eu disse ali em cima, dar e receber carinho, pra mim, é a melhor coisa do mundo. E qualquer animal tem em si o desejo pelas carícias, seja cão ou gato – e o cão talvez seja mais aberto e desencanado para ir lá rolar no chão, se esfregar e pedir carinho sem vergonha alguma. E isso eu não acho uma má qualidade, pelo contrário, é o que há de mais adorável nos caninos. Ou talvez nem todos os caninos. No mundo selvagem, os lobos parecem mais frios e contrários ao contato afável – umas mordidinhas aqui e ali no máximo, para não perder a carapaça de proteção contra o mundo arriscado que pede sempre cautela, desconfiança e frieza. É possível que ao viver num mundo muito selvagem aos meus amores, aos meus sonhos, eu acabe virando esse lobo, eu sempre pensei dessa forma. Mas não me recrimino por não ser lobo agora, de que vale a força contra os inimigos se não se tem a agradável fraqueza de se render ao carinho dos amigos? A fatalidade queira que eu nunca tenha que retornar ao meu lado selvagem, afinal, como dizia naquele livro português – embora a analogia fosse outra –, uma vez domesticado, se somos abandonados, não retornamos mais à independência selvagem completamente. Sem ter garras afiadas e força suficiente para sair por aí abatendo caças, provavelmente eu seria obrigada a passar fome e frio, revirando lixo e me encolhendo embaixo de qualquer coisa, numa simulação deprimente de vida selvagem e força – que é mais resultado de abandono e fraqueza.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Sobre o prazer de ter um tumor cerebral
Eu não lembro de ser tão complicado viver quando eu era criança. Acho que todo mundo sente isso, por isso gostam tanto de criança e se sentem tão nostálgicos. Parece que após essa fase vão nascendo neuroses por cima de neuroses (adolescência) e a gente enfim se torna adulto. Eu estava lendo uma frase num orkut duma amiga que dizia assim:
"A espantosa realidade das coisas.
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é.
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra.
E quanto isso me basta.
Basta existir para ser completo"
Como dizia ser do Fernando Pessoa, imaginei que fosse do Caeiro – e é mesmo, pelo jeito. Bom, eu sei que estou mais para Álvaro de Campos e isso não é nenhuma novidade... mas o que eu queria dizer, mesmo assim, é que eu me sinto incapaz de compreender de fato essa poesia. Eu posso dizer, num momento de euforia, que a realidade das coisas anda me espantando e eu me maravilho com elas, isso sim, mas não posso dizer que isso é um estado permanente a ser alcançado apenas por me bastar, por me ser completa. Creio que quem se sente assim é o Rafael (e por isso ele discute tanto comigo sobre o prazer da vida), mas eu não me sinto. Eu devo estar muito fodida psicologicamente, cheia de tralhas jogadas por todos os lados do consciente e do inconsciente, meu quartinho cerebral deve ser um chiqueiro e o chão impossível de caminhar de tão desgastado e podre para me sentir incomodada só por estar alagada de mim mesma. Tédio é uma coisa que todos sentem, eu sei, e eu sei como ninguém como ele é, mas além do tédio estou sempre em estado de suspense, de terror pelo que será a seguir, de impaciência, cheia de querer-mas-não-querer fazer, de me atormentar sem conseguir resolver com o que virá em seguida. Ficar sozinha comigo mesma, muitas vezes, é o meu pior castigo. Meu desejo pelas coisas é tão brando que vence o nada fazer. Nada vale a pena, tudo é um desgaste sem prazer que o valha. Por isso acho que sou tão maníaca suicida, pensar que vou me livrar do meu eu é uma idéia que me alivia da constante luta interior que eu vivo comigo mesma,
Quando o Eros disse que ele não podia gastar o dinheiro todo se eu estivesse prestes a morrer, senão não sobraria nada pra ele viver, fiquei um tanto chateada por perceber que ele não depende de mim pra seguir com a vida. E fiquei ainda mais chateada por estar chateada com isso, afinal se ele é mais resistente que eu e ama a vida eu deveria apoiá-lo. E, depois, eu fiquei satisfeita com a idéia, porque no fim das contas ele, tal qual aquele-que-não-pode-ser-nomeado, demonstrou não precisar de mim viva, exatamente como eu suspeitava e eles afirmavam de pé juntos não ser verdade. Isso fermentou com alegria meu desejo de pular do prédio, por um instante, mas como eu sei que provavelmente eu evitaria fazer isso de fato por ser uma decisão fatal e incorrigível, fiquei feliz ao pensar que eu poderia estar com uma doença fatal. Eu devo ser a única pessoa que inveja o menininho do colégio que está com tumor no cérebro e só tem 2 meses de vida. Eu imagino que pra ele, uma criança, tal perspectiva é horrorosa, afinal a vida pra ele ainda não perdeu a agradabilidade da infância nem os sonhos. Mas pra mim, embora haja ainda os sonhos, eu sei que por mais sonhos realizados ou sonhados eu sempre permanecerei nessa impaciência e conflito interno com os quais convivo 80% do meu tempo – ou seja, tomam mais meu tempo que os sonhos. Analisado os prós e contras, fiquei contente em ter as minhas contrações musculares do além, sinalizando um possível tumor na cabeça. Se doer, provavelmente me darão remédios e, como eu imagino, se não houver cura, não precisarei fazer nenhum doloroso tratamento. Eu terei 2 meses de vida pra aproveitar atentamente e, por fim, minha impaciência será desnecessária: se não faço não me preocuparei, pois não há necessidade de que nada seja feito. Foi assim que eu comecei a nutrir a esperança mórbida de estar doente terminal. Eu sei que pra vocês pode soar um absurdo, uma criancice, uma heresia contra a vida e contra os doentes, mas, ao contrário da maioria das pessoas (a partir do que elas dizem), eu não sou muito contente vivendo. Fico pensando que se tiver mesmo um tumor, será que eu deixarei de "criancice" e ficarei chateada? Por enquanto, a possibilidade me relaxa. Se me pego descontente, logo penso nessa alternativa e relaxo: logo irá terminar e esses 2 meses vão ser muito bons. Eu penso nos detalhes: e se de repente eu começar a gostar de viver e ficar triste por morrer? Mas por que a diferença súbita de percepção? Não acredito muito nisso. E se eu começar a pensar nos sonhos que nunca irei realizar? Nunca darei aula, nunca terei minha casa colorida, nunca terei minha gata, nunca terei uma filha. Mas nunca mais viverei cheia de dúvidas e sacrifícios e dificuldades inúteis e medos e afliçõezinhas diárias. E nesses dois meses, quando eu descobrir que vou morrer de fato, irei fazer o que quiser, sem planejar nada, vou sair, vou festejar, meus amigos que não tenho não me dirão não, o Eros vai ficar comigo, eu vou fazer coisas de fato durante o tempo todo, sem espaço pra afliçõezinhas e irei comprar finalmente as frutas que me deixam curiosa no mercado municipal. Irei pintar o cabelo de turquesa e irei viajar pra conhecer mais do sul. Pode até ser que tenha uma gata e, enfim, alugue uma casa colorida só pra ver como é que é... Se eu fosse morrer daqui a dois meses. eu seria feliz.
Relendo tudo, comecei a suspeitar que o meu problema é ser impaciente e reprimida ao mesmo tempo. Uma pessoa antagônica entre a menina mimada que deseja e deseja pra ontem e a menina obediente que levava pancada se não se domasse e fizesse tal qual a mãe mandasse – também pra ontem. E o meu eu escolhe não obedecer nenhuma das meninas, porque uma precisa mesmo ser domada e a outra não tem mais ninguém pra dar pancada. Mas, no fundo, eu sei quem eu quero escolher. Se eu fosse morrer, eu poderia ser mimada, pois não precisaria da aceitação de ninguém. Ninguém mais diria que eu estou atrapalhando, que eu não posso, que não é assim, que pra fazer o que se quer precisa de um tíquete x ou y. Eu poderia viver anarquicamente, sem respeitar as minha regras nem as regras sociais de ninguém. Viver livremente, fazendo o que realmente eu quero sem ficar me reprimindo e me preocupando o tempo todo. Enfim, aproveitar de fato a vida e não essa burocracia que a gente chama de sociedade.
"A espantosa realidade das coisas.
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é.
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra.
E quanto isso me basta.
Basta existir para ser completo"
Como dizia ser do Fernando Pessoa, imaginei que fosse do Caeiro – e é mesmo, pelo jeito. Bom, eu sei que estou mais para Álvaro de Campos e isso não é nenhuma novidade... mas o que eu queria dizer, mesmo assim, é que eu me sinto incapaz de compreender de fato essa poesia. Eu posso dizer, num momento de euforia, que a realidade das coisas anda me espantando e eu me maravilho com elas, isso sim, mas não posso dizer que isso é um estado permanente a ser alcançado apenas por me bastar, por me ser completa. Creio que quem se sente assim é o Rafael (e por isso ele discute tanto comigo sobre o prazer da vida), mas eu não me sinto. Eu devo estar muito fodida psicologicamente, cheia de tralhas jogadas por todos os lados do consciente e do inconsciente, meu quartinho cerebral deve ser um chiqueiro e o chão impossível de caminhar de tão desgastado e podre para me sentir incomodada só por estar alagada de mim mesma. Tédio é uma coisa que todos sentem, eu sei, e eu sei como ninguém como ele é, mas além do tédio estou sempre em estado de suspense, de terror pelo que será a seguir, de impaciência, cheia de querer-mas-não-querer fazer, de me atormentar sem conseguir resolver com o que virá em seguida. Ficar sozinha comigo mesma, muitas vezes, é o meu pior castigo. Meu desejo pelas coisas é tão brando que vence o nada fazer. Nada vale a pena, tudo é um desgaste sem prazer que o valha. Por isso acho que sou tão maníaca suicida, pensar que vou me livrar do meu eu é uma idéia que me alivia da constante luta interior que eu vivo comigo mesma,
Quando o Eros disse que ele não podia gastar o dinheiro todo se eu estivesse prestes a morrer, senão não sobraria nada pra ele viver, fiquei um tanto chateada por perceber que ele não depende de mim pra seguir com a vida. E fiquei ainda mais chateada por estar chateada com isso, afinal se ele é mais resistente que eu e ama a vida eu deveria apoiá-lo. E, depois, eu fiquei satisfeita com a idéia, porque no fim das contas ele, tal qual aquele-que-não-pode-ser-nomeado, demonstrou não precisar de mim viva, exatamente como eu suspeitava e eles afirmavam de pé juntos não ser verdade. Isso fermentou com alegria meu desejo de pular do prédio, por um instante, mas como eu sei que provavelmente eu evitaria fazer isso de fato por ser uma decisão fatal e incorrigível, fiquei feliz ao pensar que eu poderia estar com uma doença fatal. Eu devo ser a única pessoa que inveja o menininho do colégio que está com tumor no cérebro e só tem 2 meses de vida. Eu imagino que pra ele, uma criança, tal perspectiva é horrorosa, afinal a vida pra ele ainda não perdeu a agradabilidade da infância nem os sonhos. Mas pra mim, embora haja ainda os sonhos, eu sei que por mais sonhos realizados ou sonhados eu sempre permanecerei nessa impaciência e conflito interno com os quais convivo 80% do meu tempo – ou seja, tomam mais meu tempo que os sonhos. Analisado os prós e contras, fiquei contente em ter as minhas contrações musculares do além, sinalizando um possível tumor na cabeça. Se doer, provavelmente me darão remédios e, como eu imagino, se não houver cura, não precisarei fazer nenhum doloroso tratamento. Eu terei 2 meses de vida pra aproveitar atentamente e, por fim, minha impaciência será desnecessária: se não faço não me preocuparei, pois não há necessidade de que nada seja feito. Foi assim que eu comecei a nutrir a esperança mórbida de estar doente terminal. Eu sei que pra vocês pode soar um absurdo, uma criancice, uma heresia contra a vida e contra os doentes, mas, ao contrário da maioria das pessoas (a partir do que elas dizem), eu não sou muito contente vivendo. Fico pensando que se tiver mesmo um tumor, será que eu deixarei de "criancice" e ficarei chateada? Por enquanto, a possibilidade me relaxa. Se me pego descontente, logo penso nessa alternativa e relaxo: logo irá terminar e esses 2 meses vão ser muito bons. Eu penso nos detalhes: e se de repente eu começar a gostar de viver e ficar triste por morrer? Mas por que a diferença súbita de percepção? Não acredito muito nisso. E se eu começar a pensar nos sonhos que nunca irei realizar? Nunca darei aula, nunca terei minha casa colorida, nunca terei minha gata, nunca terei uma filha. Mas nunca mais viverei cheia de dúvidas e sacrifícios e dificuldades inúteis e medos e afliçõezinhas diárias. E nesses dois meses, quando eu descobrir que vou morrer de fato, irei fazer o que quiser, sem planejar nada, vou sair, vou festejar, meus amigos que não tenho não me dirão não, o Eros vai ficar comigo, eu vou fazer coisas de fato durante o tempo todo, sem espaço pra afliçõezinhas e irei comprar finalmente as frutas que me deixam curiosa no mercado municipal. Irei pintar o cabelo de turquesa e irei viajar pra conhecer mais do sul. Pode até ser que tenha uma gata e, enfim, alugue uma casa colorida só pra ver como é que é... Se eu fosse morrer daqui a dois meses. eu seria feliz.
Relendo tudo, comecei a suspeitar que o meu problema é ser impaciente e reprimida ao mesmo tempo. Uma pessoa antagônica entre a menina mimada que deseja e deseja pra ontem e a menina obediente que levava pancada se não se domasse e fizesse tal qual a mãe mandasse – também pra ontem. E o meu eu escolhe não obedecer nenhuma das meninas, porque uma precisa mesmo ser domada e a outra não tem mais ninguém pra dar pancada. Mas, no fundo, eu sei quem eu quero escolher. Se eu fosse morrer, eu poderia ser mimada, pois não precisaria da aceitação de ninguém. Ninguém mais diria que eu estou atrapalhando, que eu não posso, que não é assim, que pra fazer o que se quer precisa de um tíquete x ou y. Eu poderia viver anarquicamente, sem respeitar as minha regras nem as regras sociais de ninguém. Viver livremente, fazendo o que realmente eu quero sem ficar me reprimindo e me preocupando o tempo todo. Enfim, aproveitar de fato a vida e não essa burocracia que a gente chama de sociedade.
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