Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
Powered by Blogger
Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

eXTReMe Tracker

Filosofia Crônica

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

A ignorância é uma benção

Será? Quer dizer, óbvio que os ditados populares são a única verdade universal a que conseguimos chegar com certeza (embora toda regra tenha sua exceção) e aquilo que os olhos não veem o coração não sente. Mas eu vejo muita gente querendo voltar para o útero da mamãe e sair de lá falando só o "caca", "auau", "mãmã"... Dá vontade de dizer: gente, a inteligência é um caminho sem volta, a não ser que você afunde com voracidade em certas drogas ou bata a cabeça num acidente, talvez. E talvez parecer intelectual possa ser pedante, mas nem toda pessoa que usa seu intelecto é necessariamente pedante, o intelecto também não é um mal que deve ser combatido com todas as forças (a não ser que você viva na Idade Média), pelo contrário. Eu acho que pessoas mais intelectualizadas poderiam pensar mais nas suas atitudes e se tornarem pessoas melhores para as outras, sabe? Como um cara ignorante e feliz que bate na esposa talvez, se lesse um pouco, estudasse, não sei, talvez parasse pra pensar nas suas atitudes. Não? Eu não sei com certeza. Porque realmente tem aquele tipo de intelectual que para não parecer um intelectual (o que também não deixa de ser uma preocupação puramente com a aparência) acaba querendo parecer um brutucu mais imbecil do que o cara que bate na esposa sem pensar direito – brutucu pior porque pensa e abre mão disso só pra parecer cool para os amiguinhos.
Como eu disse há alguns posts atrás, meu único ideal nessa vida, que era melhorar alguma coisa nesse mundo por meio da educação, foi banhado com um balde de água fria. O que eu vejo por aí é uma ignorância generalizada tão grande que os poucos professores pensantes mal têm forças pra bater (ou mal tem o poder de entrar no ringue, como no meu caso ¬¬). Aí quando eu vou numa comunidade qualquer do orkut para desabafar e ver se alguém desmergulhava um pouco meus ideais e apresentava alguma saída aparece um monte de pessoas com o tipo de lógica apresentada no parágrafo acima. Enquanto eu discutia o rumo da educação ou outros meios de melhorar a situação do mundo uns vinham com "eee! Vaaamos comer batata friiita!!" ou "seu cabelo está estragando, menininha" ou "ai, ai como vocês falaaam". Bom, nada contra as pessoas quererem descontrair, pelo contrário, pode até parecer estranho hoje em dia se falar em querer discutir a sério no orkut, eu sei. Mas tudo tem sua hora, sua ocasião, e alguns foram até um tanto estúpidos comigo porque eu estava tendo uma conversa séria! E isso numa comunidade dos admiradores das tirinhas dos malvados, aquelas com humor ácido que fazem pensar. Aí eu fico pensando também no meu ideal de ser escritora... poxa, pra ter esse tipo de leitor que lê minhas coisas eu não sei como? Oras, depois de ter esse tipo de experiência em que apenas 3 pessoas contra-argumentaram ou discutiram sério comigo no meio de outras 1000 que preferiram um tópico pra falar de menstruação (! Pois é, numa comunidade dos Malvados...), foi uma situação altamente irônica. Eu fui num lugar reclamar que havia ignorância demais pra sanar e quase todos responderam de forma ignorante.... não é irônico? Pois é, é realmente irônico. Seria engraçado, talvez tragicômico. Enquanto isso meu ideal terminou de soltar suas últimas bolhinhas de oxigênio no seu balde de água fria. Mas sabe o quê? Eu vou tentar ser professora e fazer alguma coisa só pra não ser idiota como essas pessoas. É... o orgulho próprio e o hedonismo sempre vencem no final. Lembro daquela tirinha (dos malvados, por sinal)...
http://www.malvados.com.br/tirinha946.gif


Marcely contou às 12:38 PM
.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Reclamação número 329.948 394

Ultimamente eu tenho apenas dormido para não ter que assistir minha vida passar. Mas até meus sonhos às vezes são desagradáveis e em alguns minutos, quando eu abro os olhos, eu, como qualquer pessoa deprimida, fico pensando no quanto o mundo é um lugar ruim, destacando só as coisas abomináveis. É engraçado que quando estou meio dormindo, meio acordada eu fico mais iluminada, com boa memória, bom discurso interior, mas definitivamente acordada eu fico boba, as frases fogem, minha memória morre, eu fico mais no estado semi-consciente. Eu só consigo lembrar no vídeo do pai fingindo roncar pra acordar assustando um bebê dormindo, se era proposital dá pena pensar num pai que faz mal pra um filho pra fazer piada, ele dormia como um anjinho... Lembro do emprego oferecido pelo jornal de professora atendente, que pedia fotos anexadas ao currículo, pra quê? Lembro dos professores com aparência inofensiva que davam péssimas aulas, de como estou sendo discriminada por um motivo imbecil. Lembro das pessoas que se odeiam e que se atacam para ter um motivo pra falar. Lembro que as pessoas na sua maioria são infelizes, buscam alívio em bebida, maconha, coca, todas por algum motivo, mas isso não faz do mundo um lugar melhor, ninguém pensa: bom, estou infeliz porque o mundo é ruim, vou tentar fazer um mundo melhor. Mas fazer o quê? eu já desisti também de tentar. Quando eu tentei fui uma em um milhão, e na primeira possibilidade fui jogada fora sem oportunidade de voltar.
Todo mundo pensa: o único jeito de mudar é a educação. Mas quando você trabalha numa escola você vê que se algo está mudando, só pode ser para pior porque 90% dos professores são ruins, ignorantes e preconceituosos e é simples questão de matemática ver onde vai dar esse tipo de influência. O mundo vai sempre ser governado pela maioria ignorante e preconceituosa, são eles que ditam as regras, logo são sempre eles que vencem. E não importa se é uma lógica torta, eles vão sempre parecer melhores do que você, afinal eles seguem as regras que eles mesmos ditam. Regras hipócritas, é verdade, que conta apenas se você consegue se infiltrar nos grupinhos, não importa suas piadas racistas e homofóbicas, não importa seus dois pesos e duas medidas quando se trata de moral, não importa que você não exerça muito seu lado intelectual, o que importa é se você é cristão, vai à igreja aos domingos, na balada aos sábados, não compactue com homossexuais, veja tv e se vista e se pinte exatamente como dita a moda e os bons costumes.
Dentro disso, consta que qualquer ilusão ou ideal que eu pudesse ter foram por água abaixo. Talvez eu sobrevivesse melhor se eu tivesse amigos, se eu fosse pra droga de uma casa em Icapara e jogasse poker com eles, nadasse na piscina, enfim, me divertisse apenas e esquecesse do resto porque o mundo é doente mesmo e não tem cura. Mas acontece que eu não tenho amigos, não amigos presentes, e não tenho casa em Icapara, nem mesmo uma mesa confortável pra jogar ou uma caixinha de peças de poker eu tenho. O que eu tenho é: computador, internet, trabalhos manuais, Eros e seriados de tv. E eu já estou cansada demais dessa monotonia, precisava de polifonia, vários discursos, cascatas de pensamentos e emoções diferentes pra me desviar e me distrair de mim mesma. E nem gosto de pensar no resto da minha vida. Vai ser sempre o mesmo. É melhor dormir e guardar forças para o próximo minuto de silêncio.


Marcely contou às 12:05 PM
.

Domingo, Janeiro 25, 2009



1- Eu não vejo graça nenhuma em se esforçar pra fazer nada.
2- Eu não consigo mais me esforçar para fazer nada.
3- Cansei de tanto dormir.
4- Cansei de dizer que estou cansada.
5- De verdade, não sinto vontade de escrever.
6- De verdade eu não sinto vontade de nada.
7- Nem mesmo de morrer.
8- Cansei de ficar sofrendo porque não gosto de nada.
9- Não quero nunca mais voltar a dar aula, a me esforçar pra isso, me sinto ressentida, me sinto compelida a nunca mais me doar em vão.
10- Só de pensar na possibilidade, me odeio se voltar a dar aula.
11- Não quero nunca mais fingir que está tudo bem e "levar uma vida normal".
12- Se a morte é o mesmo que o meu sono, não eu não quero morrer.
13- Não vale a pena fazer os outros sofrerem se eu poderia só estar dormindo o tempo todo.
14- Mas viva eu também faço os outros sofrerem.
15- Eu não sei mais o que fazer com a minha vida.
16- Eu não quero colaborar com essa vida de merda. Eu odeio ela do fundo do meu coração, colaborar com ela é me trair.
17- Eu sinto nojo de cada minuto da minha vida.


Marcely contou às 10:10 AM
.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Filosofia crônica

Existem perguntas que fazemos pelo próprio sabor da pergunta, não por querer a resposta. É a pergunta que faço em frente ao ventilador: por que o vento me esfria? A pergunta me interessa por si só, porque por muito tempo parecia simplesmente evidente que o vento gelava. E então parece que eu olho para o vento de verdade pela primeira vez. Como se a gente só enxergasse as coisas quando temos curiosidade por elas. É assim comigo mesma (quem sou eu? Quero me olhar, mas não quero a resposta). Prefiro manter a dúvida - que forma um certo ar místico entre nós - do que receber uma resposta técnica e sem beleza. Bonita é a dúvida. E isso os crentes sabem (e não sabem, é inconsciente, outra dúvida - outra beleza para a vida).
Quando eu era jovem e formava uma opinião (eu sei, eu ainda a formo e nunca quero terminá-la) eu tinha sede por uma verdade como a busca por um novo chão, porque o antigo havia sido tirado de mim. Uma vez, enquanto eu lia O mundo de Sofia, meu pai falou pra mim que a verdade sobre a vida e sobre deus não se devia procurar (porque nunca iríamos achar). E eu disse muito convicta que se todos pensássemos assim sobre tudo, a verdade nunca se configuraria - porque tinha que ter uma verdade e para alcançá-la tinha que haver uma busca e uma curiosidade.
Agora eu me abstenho da verdade, compreendendo como meu pai e os outros seres humanos que prazerosa mesmo é a busca, não a verdade. Como o Eros disse de outra forma, deus deve tomar cloridrato de venlafaxina para conviver com a falta de curiosidade.
Por isso, embora minha filosofia seja crônica por pura curiosidade, minha filosofia está mais pra crônica pra me manter na curiosidade. A curiosidade é a droga que nos mantém olhando fixo para o mundo, para as belezas desprezíveis que nos envolvem. Porque toda a beleza vai se tornando deprezível com o costume. E, pelo menos pra mim, não há amor a vida, mas amor pela beleza e pelo prazer. E eu não acho isso menor, vulgar, nem pior do que valorizar a vida em si. Talvez isso me torne a exceção e todo mundo que se excetua goste de ser ela, mas exceção pode também ser grotesca, desumana, desunida e infeliz. E eu sou uma desiludida.
Quanto a filosofia, o amor pela discussão, por degladiar-se atrás de uma verdade, ou o degladiar-se pelos rastros de verdade, essa eu mantenho, mas não amo como a literatura. A literatura, na minha concepção prosaica, é um balé filosófico. É uma busca pela verdade (ou a busca pela busca para os desiludidos) em tom dramático, melódico, artístico em geral, em forma de mentira. Uma mentira mais próxima da verdade ,às vezes (porque eu sou adepta a esse ceticismo). É a filosofia sem o ranço acadêmico e conceitual, é a ruptura moderna, é o onírico e a dessacralização da busca da verdade. É a irresponsabilidade, é o assemelhar-se com o riso da infância.
Enfim, eu acredito na literatura como uma filosofia em tom de chiste, sarcasmo e descrença, tal qual Machado encarnou e concentrou.
Quando eu vejo meu olhar para esse tipo de filosofia, é o tal presunçoso e autocrítico do velho sábio. Como quem quase descobriu a verdade, mas voltou atrás antes de ser iluminado. Talvez por medo da verdade não ser assim tão bonita. A gente sabe que muitas verdades não são assim tão bonitas (e eu sei que o filósofo x já especulou sobre tudo isso). Esse olhar é um olhar magoado, ressentido com a verdade, que sorri por simpes instinto de sobrevivência. Um riso ou uma lágrima?
A verdade é que a verdade me deprime. A verdade é que o mundo é tão complicado... se girarmos o globo pra cá ele pode ser deslumbrante, se girarmos pra lá ele pode ser devastador. Sem meu antidepressivo eu não consigo girar o globo ao meu dispor, não tenho força suficiente pra pilhéria. Encarar tudo seriamente me traz dor, me faz encarar a força minha desilusão. E quando consigo virar o globo me sinto tão forte! (e ao mesmo tempo amedrontada com o fato de às vezes, sem conseguir defender-me disso, meu globo estacar e emperrar do lado ruim). Eu quero e não quero voltar pra casa. Eu nem sei explicar pra mim mesma o que nela enferruja a roldana do meu globo, mas lá meu mundo estaca, finca, fixa completamente. Eu não consigo filosofar, pensar, logo não consigo escrever, dobrar, arrumar, viver, eu vou asfixiando numa rotina enclausurante. Que nem a Heloísa.
Por favor, quando chegar lá, eu rezo para o acaso, faça com que algo apareça e me desenferruje.


Marcely contou às 10:46 AM
.

Domingo, Janeiro 04, 2009

Da inexistência exterior

Ela me faz lembrar de mim. De quando nas férias eu ia me encontrar com meu pai, um lado da família tão distante que a afinidade só parecia brotar do sangue - e eu não via esse sangue porque ele era coberto pela minha pele, mas eu sabia que estava lá. Meu pai era um monstro no dizer da minha mãe, um parente importante no dizer do meu irmão-pai. Eu ficava dividida entre o medo, a submissão e um estranho amor coberto por nervos e carnes. Meu pai me levava a lugares estranhos, que não eram nem meus nem alheios, para visitar parentes que eu não sabia nem nunca consegui memorizar de que grau, se eram primos, tios ou simplesmente amigos... ou primos, tios, irmãos de um outro alguém. Nesses lugares uma conversa adulta se travava, os assuntos eram estranhos, as risadas apenas pontuações da fala, os da minha idade eu não sabia se tratava como primos, como amigos ou como monstros sangüíneos. Eles eram estranhos: de outro credo, de outra cultura, de outro lugar. Minha postura era a de observar. Eu não amava, não tinha saudades de ninguém, nem sabia como tratar. Eu ficava presa ao meu pai por aquele frágil elo e olhava tudo sem curiosidade, apenas com compreensão. Meu olhar era igual o dela. Eu não sorria mais do que por simpatia, mais por missão. Eu olhava e existia dos olhos pra dentros pra mim, dos olhos pra fora para eles. Eu não era ninguém. Eram semanas de inexistência exterior.


Marcely contou às 1:19 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos