Eu sou:
Marcely Costa, 23 anos. Morbidamente consciente. Ambígua, ambivalente. Nada de diferente. Aturando um monte de gente, em Brasília, formada em Letras.

Msn ou e-mail: marcelycosta@hotmail.com

Eu era:
Accela
Eu ainda sou:
AquarElas

Vocês são:
Gir(l)assol, Acetosa, Malk (ou Presunto, como preferir), Dactilus Nigrus, Lúcido Lúdico, Rafael, Marinovska, Flávio, Yama, Eros, Diogo, Ana Marla, Marília.

Eu fui:
.Janeiro 2006. .Fevereiro 2006. .Março 2006. .Abril 2006. .Maio 2006. .Junho 2006. .Julho 2006. .Setembro 2006. .Outubro 2006. .Novembro 2006. .Dezembro 2006. .Janeiro 2007. .Fevereiro 2007. .Março 2007. .Abril 2007. .Agosto 2007. .Novembro 2007. .Fevereiro 2008. .Março 2008. .Abril 2008. .Maio 2008. .Junho 2008. .Agosto 2008. .Outubro 2008. .Novembro 2008. .Dezembro 2008. .Janeiro 2009. .Fevereiro 2009. .Março 2009. .Abril 2009. .Maio 2009. .Junho 2009. .Julho 2009. .Agosto 2009. .Setembro 2009. .Outubro 2009. .Novembro 2009.

Créditos:
À mim mesma pelo template e pelos posts.
À minha ociosidade.
À ociosidade dos que me lêem.
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Filosofia Crônica

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Noturno

Há muito tenho ido dormir "cedo" com o Eros. Ele, que acordou às 7h e trabalhou ta hiper cansado, eu, cujo melhor sono vem depois das 7h estou alertíssima no horário da noite, mas forço o sono porque, afinal, casamento é abraço e dividir a cama sempre.
É sempre nesse horário da madrugada (tentando dormir em vão, ficando dolorida e nervosa de tanto forçar ficar parada pra não despertar o Eros) que planejo escrever um livro, limpar a casa, salvar o mundo das cáries. De repente a vontade, o ânimo que sempre me falta, surge, mas é tarde demais e eu forço o sono.
Hoje eu acordei às 8h, dormi muito tarde me debatendo pra alcançar o sono da noite e pensei que por causa disso iria querer dormir mais cedo hoje, junto com o Eros. Mas deu 2h da manhã e eu percebi que não tinha sono e que eu tinha a mesma vontade.
Podem dizer que o ser humano é diurno e tudo aquilo que eu cansei de ouvir da minha família me criticando numa época que eu criei hábitos noturnos, mas a verdade que eu estou disposta e alerta (e criativa!) no meio da madrugada. Quanto mais avançava a noite (3h, 4h da madrugada), mais meu cérebro trabalhava e eu escrevia textos atrás de textos atrás de textos.
Feliz ou infelizmente. E eu que vivo triste e indisposta desperdiçar isso por um costume dos outros, oras, hoje eu decidi que não, não ia. Mas a velha cobrança, chateação, xingamento por dormir de manhã e não à noite ficam me torturando.
Nesses últimos anos eu aprendi por um bom tempo a dormir durante o horário certo, acordar cedo... Mas sabe quantas vezes escrevi da forma que escrevi quando madrugava? Nenhuma.
E vejamos pelo lado positivo, se eu dormir de manhã e acordar à noite chateio muito menos gente (não chatearei a maioria que age ao contrário). Então acho benéfico tanto para mim quanto para os outros estar em off durante o dia – eu sempre estou inútil de dia mesmo, pelo menos dormindo não reclamo.


Marcely contou às 5:52 AM
.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Estar cercada de gente conhecida...

...Às vezes é angustiante, quando você não tem nada a oferecer de bom.
Às vezes é alienante pelo simples fato de você deixar de ser você pra ser um companheiro. Há muita diferença no ser você mesmo e ser um companheiro. Companheiros entretêm um ao outro, basicamente, às vezes me sinto num Big Brother, 24h na tv: "entertain us". Eu sou mais divertida quando me veem esporadicamente. BEM esporadicamente, eu quase nunca sou divertida – mas alguém é divertido sempre?
Esse é o elemento chave do defeito do casamento. É o defeito das famílias, é o defeito de qualquer compartilhar. Com a diferença de que na família ninguém mais se preocupa em ser caro um ao outro e todos podem se detestar e ignorar sem grandes crises.
Eu também sinto falta duma companhia constante porque sou carente, isso é fato. Compartilhar comida é fundamental! Compartilhar ideias sempre... Mas compartilhar minha angústia constante não há necessidade – porque já faz tempo que desabafar cura tão pouco que é quase nada...
Mas tudo tem um lado bom e ruim, né? Pelo menos é um clichê essa frase e eu acredito no poder dos clichês. Se não são repetidos porque são verdadeiros, se tornam verdadeiros de tão repetidos que são. Se você escolhe compartilhar alegria, vem de brinde a tristeza. O meu problema é que eu vivo triste, vivo angustiada.
Eu posso contar nos dedos quando eu fico alegre: momentos de distração. Numa conversa acalorada, num trabalho que exija concentração ou dedicação, enfim, num momento que eu esteja em segundo plano, esquecida de mim... Afinal eu sou um saco até pra mim mesma, entende? Sou uma dor constante no cu, como dizem os americanos. E se eu sou assim pra mim, eu imagino o quanto insuportável eu sou para os outros. Minha gata vê minha cara de basset round e se mantém distante, só se achega pra dormir, afinal eu devo ser sonífera, ainda mais para um gato – que às vezes eu realizo ter mais maturidade que eu. Tão indiferente que ela é, tão blasé que eu canto e danço com ela Água Perrier, o poema que eu mesma podia ter escrito pra ela.

ÁGUA PERRIER
Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.
Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.
Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:
Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.


Marcely contou às 10:10 AM
.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Diferenças

Eros tem esse contraste da pele clara com o castanho escuro do cabelo e dos olhos e a boca vermelha, o sorriso, é um contraste bonito e profundo, como o da Branca de Neve. Acho tão bonito esse contraste!
Às vezes me olho no espelho e o contraste feito em laboratório do meu cabelo com a pele não é tão profundo, é como se minha pele e olhos se fundissem numa cor sempre igual, marrom acinzentada.
Eu sinto que todos estão destacados e claros e eu difusa...


Marcely contou às 9:20 PM
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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Tendências são feitas pra desbaratinar

É o que eu tenho sentido ultimamente. Tendências não surgem com algo como pesquisa de mercado, o evoluir do gosto das pessoas. Não, até começa por aí, mas eles fazem justamente O CONTRÁRIO. É pra irritar, mesmo, pra causar baque e pra só poucos serem in. Ou pra fazer as pessoas serem infelizes, mesmo, afinal, infelizes compram mais, mesmo o que não gostam (mas que dizem que ta in). Ta, talvez isso seja muita teoria da conspiração, mais fácil pensar que tem coisas horrendas encalhadas nas lojas e eles fazem isso virar tendência pra desencalhar, simples.
Um certo apreço por saia rodada vem surgindo? A moda agora então é saia colada no corpo. Ninguém gosta de década de 80? 80 então vai ter releitura este verão!
Vamos falar da década de 80!

Anos 80 – A década da vergonha alheia

Porque vergonha alheia está muito em voga, ultimamente, né? Quem são as celebridades do momento? Amy Winehouse, Lady Gaga, enfim, essas pessoas que você só acha cool porque estão em evidência nas revistas, shows, tudo e ninguém sabe porquê. Acho que é um certo masoquismo, um certo prazer de sentir vergonha alheia, afinal o que seria uma releitura dos anos 80 sem uma celeb trash, não é mesmo, minha gente? Todo mundo sabe que anos 80 foi a década da Madonna com sua linda sobrancelha de dez dedos de grossura, cabelo cacheado tipo poodle e muita renda sedutora misturada com seda de forma hehe... vamos dizer assim: despojada.


Não conhece essas coisas de fora do Brasil, tipo Madonna? Então deixa eu te apresentar alguém que você conhece: Rosana!

Aí vai um videozinho se você sentiu certa nostalgia:

Magia e sedução, né, minha gente? Como não querer reviver uma época com tanto... glamour?

Ai, ai, o glamour anos 80!
Mas você pode estar dizendo: ah, Marcely, você é uma colorida, tem que ser grata ao new wave e você esqueceu de falar do new wave.
Ok, vamos falar do new wave.
Primeiro: eu tenho cabelo colorido sim e gosto de cores e tal, mas disso pra new wave está séculos luz, ok? Não me ofenda! Não to aqui questionando a qualidade musical dos artistas, mas o corte de cabelo fofão feelings e a make raio do Deividi Boui NÃO, não era legal. Só serve pra fazer paródia bem humorada, não é bonito, me dá vontade de vomitar cada vez que eu olho. Morram, morram todos, malditos que decidiram ressuscitar isso, dói os olhos ver tanta coisa horrível assim! >_<

Por que tanto ódio? 78% da minha depressão se deve à moda anos 80, outros 2% apenas se deve ao wayfarer... e apenas o resto se deve a histórico familiar e processos neurológicos, isso foi o que disse minha psicóloga. E pesquisas da OMS culpam o retorno da tendência 80's e às ombreiras o aumento dos casos de depressão no mundo e do suicídio. Michael Jackson morreu porque não aguentou ver essa moda voltando, passar uma vez por ela vai, mas duas? Eu também morreria (eu nasci nos anos 80, mas graças a deus era pequena).



Marcely contou às 9:03 PM
.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Dica cultural com Marcely Costa: Synecdoche, New York



Bom, se você acha que eu só sei me lamentar, errou, eu sei também elogiar algo! Principalmente quando é algo que fala mal da vida – ok, isso não é bem uma grande mudança de assunto, mas estamos quase lá. Pra variar um pouquinho que seja então, preparei alguns posts que indicam livros e filmes que, bom, falam mal da vida, são tristes, quase sempre – ou não –, mas que fazem isso melhor do que eu pelo menos.
Como dica de filme da semana, indico hoje o filme "Synecdoche, New York", o último produzido por Charles Kauffman. Sabe o Charles Kauffman, o roteirista de filmes como Brilho eterno de uma mente sem lembranças – filme favorito de toda colorida que se preze! – e o filme Quero ser John Malkovitch? Pois é, ele mesmo. Se você não conhece, fique conhecendo, é um ótimo roteirista – ah, tem o Human Nature que também é ótimo, pros filósofos de plantão, irão adorar...
Não é assim aquele filme que indico pra assistir com a família comendo pipoca num domingo à tarde. É pra assistir no máximo com uma pessoa séria do lado e muito concentrado, porque afinal os roteiros do Kauffman são conhecidos por serem uma confusão só – o que não quer dizer que seja um cult chato que só serve pra você contar pros seus amigos e exibir "como você é espertinho", tipo Ingmar Bergman – que eu juro, comecei a assistir e desisti, junto com alguns outros cuja temática é... não ter temática ou é fazer você sentir entediado (o que não é seu propósito, eu imagino, quando você busca ler um livro, ver um filme, etc., pelo menos não é o meu).
Mas, voltemos ao Kauffman e paremos de criticar aquilo que não gostamos ou muitas vezes apenas não entendemos como deveríamos. Os filmes dele são confusos porque a linha do tempo é descontinuada, quase sempre. Mas se você assistiu 21 gramas (outro filme que indico), não é porque o filme é descontinuado que é ruim, não é mesmo? Brilho eterno é um exemplo de descontinuação que tem motivo de existir. E depois que você assiste um ou mais filme do mesmo roteirista você acaba percebendo que aquele é o #jeitinhodele, afinal, e que é esse jeitinho que dá a graça pro filme.
Falando em filmes confusos e difíceis, Kauffman é o mais sossegado de todos. Ele só é confuso em parte, ele não é nebuloso do tipo que quer ser uma charada, não é do tipo difícil que você gostou só porque você entendeu e sua mãe não.
No caso do filme em questão (Synecdoche, New York), o filme não é descontinuado (embora o personagem principal seja um tanto confuso com o tempo e te confunda com isso também), mas pode-se dizer que ele é cronológico. E além do mais, tem muita coisa muito simples de entender, a história não é um bicho de sete cabeças... A graça está justamente no filme ser muito linear, contar uma história muito verossímil e de repente, uma das protagonistas ir morar numa casa que está pegando fogo, enfim, um nonsense pipoca às vezes e nem venha me perguntar se aquilo tem uma mensagem profunda por trás, eu não me pergunto. Acho legal, é como uma pitada de surrealismo, de imaginação, nada demais, isso não afetará em nada sua compreensão do filme. Eu como viciada capilar, achei até muito poético uma ruiva escolher uma casa pegando fogo pra morar.
Bom, deixa eu dar uma ideia de sinopse e parar de justificar o filme.
O filme começa com o protagonista acordando e no rádio estarem falando sobre outono, sobre a recorrência do outono na literatura, pedem pra uma professora de literatura citar um poema que citasse o outono e o poema é deprimido from hell, quase macabro. Bom, eu acho esse começo do filme praticamente didático. Só faltou o diretor aparecer em cena e dizer: esse filme é sobre o outono e a metáfora do outono da vida, a decadência, o lento apodrecimento outonal da vida... enfim, eu não achei isso assim, desmerecedor, achei honesto de um roteirista que, como eu disse, não quer complicar a vida do espectador, mas quer maravilhar em certo ponto.
Outra coisa muito óbvia do filme é a fotografia – sempre com detalhes amarelos, vermelhos e tudo muito sujo e envelhecido – tipo: É SOBRE O OUTONO O FILME, ENTENDEU? QUER QUE EU DESENHE? Foi mais ou menos isso.
Vai ver por ser professora eu gosto de clareza e didatismo, hehe! Mas, ok, prosseguindo com o filme... A vida do protagonista é irrelevante, atrapalhada, uma merda. Mas não é entediante – porque tem esse toque do maravilhoso, justamente. Acho que esse dosar das duas coisas foi essencial. Posso dizer que esse foi o primeiro filme que eu não senti: "é uma merda a vida deles, mas é melhor que a minha". Não, ele é muito real e atual em mostrar esse lado de que a vida não é nada fantástica como transparece nos livros/filmes etc. Ele é bem claro também em se mostrar uma metáfora pra máximas como: "a vida é como um palco de teatro" em que a gente "está sempre ensaiando". A gente está sempre pensando que aquele será o "grande momento", mas nunca é, tudo é irrisório e ao mesmo tempo, é vida e indispensável pro desenrolar dos fatos...
Ah! Esqueci de falar. O filme também fala muito sobre a solidão. Todos solitários, passando pelo mesmo, talvez, mas, por isso mesmo, ninguém quer saber da miséria do outro... Como se só existisse nossa própria miséria.
A verdade é que o filme fala TANTO sobre os elementos cruciais da vida... no caminho pra morte.
Se eu estivesse deprimida, talvez ao assistir ao filme eu teria me matado logo em seguida xD. Acontece que é bem isso, a vida é tão irrelevante, sem grandes momentos, sem piores momentos... é apenas um fluir contínuo de fatos decisivos mas sempre aparentemente corriqueiros... Eu achei o filme uma obra de arte nesse quesito. Ele descreveu muito bem o que pra mim é vida e o que a arte vem tentando elucidar a tempos mas por seu caráter fictício e maravilhoso demais acabava nunca conseguindo focar.
Isso dialoga totalmente com Ítalo Calvino, o autor que eu vou falar da próxima vez e que disse aquilo que eu queria ouvir sobre isso.
Acho que é um discurso que está me afetando no momento, no meu passo pra maturidade e na perda das ilusões. Acabou o sonho romântico de um gran finale. Eu também devo estar vivendo meu outono... antecipadamente, talvez.
Resumindo tudo: a vida não é feita de máximas nem de mínimas, ta sempre na média mediocridade.

Um trailer do filme pra vocês:


Marcely contou às 10:40 PM
.

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto, de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos