Nos encontrávamos praticamente todas as tardes no apartamento dele, num prédio pequeno, pobre e sem portaria, no qual eu me sentia completamente segura de entrar e sair sem despertar curiosidade. Invariavelmente deitávamos nus na cama e eu falava do meu dia, ele falava dos quadros dele, não fazíamos sexo sempre, era tudo seco e leve como muitas daquelas tardes embaixo do lençol. Muitas das coisas que eu dizia eram sem a mínima importância, recortes do meu dia, enquanto ele, sem o menor ressentimento, me ouvia com até quase prazer. E então ele me falava de coisas muito, muito importantes. No quarto tinha apenas um cavalete preenchido por um quadro à caminho. Ele sempre me falava desse quadro, mas não me mostrava linhas, nem cores, apenas me dizia no que consistia um intrincado problema em pintá-lo. Eram problemas de artista que eu quase nunca nem podia entender. Os meus problemas nunca passavam de talões de cheques, meu marido, meu patrão e algumas das crianças que eu cuidava pra ganhar dinheiro. Como eu trabalhava quase sempre à noite, tinha muitas das minhas tardes livres que nem sempre gastava com ele – às vezes saía, ia ver lojas na rua, passar pelos carros e pelas pessoas. Para dizer que também sou artista, poderia comparar minhas tardes com um livre e simples allegro, sem peso algum, o que tornava tudo muito importante e profundo, mas que eu sempre me esforçava em não manchar com importâncias.
Nunca falava com ele de outra forma, longe daquelas paredes. Nunca avisava quando ia. Muitas vezes eu dava de cara na porta, e em outras eu me permitia imaginar que ele esperava que eu fosse, mas eu não ia, o que podia tornar tudo até um pouco da pintura que faltava.
Naquele dia eu tinha ido de manhã pegar um dinheiro no caixa, um desconto de um cheque que meu patrão tinha me dado. Eram só 30 reais, algo que tinha ganho por trabalhar num fim de semana cuidando dos filhos dele enquanto ele saía para ir ao teatro. Ali por perto ficava o tal apartamento e eu lembrava de ter encontrado ele uma vez naquela rua e de termos trocado um sorriso e mais nada. Então combinei comigo mesma de nesse dia ir ver ele.
Quando cheguei lá e deitei nos braços dele ficamos só conversando, então eu me pus a contar sobre como a maldita da caixa não aceitou que eu descontasse o cheque e levasse meus trinta reais sem apresentar carteira de identidade. Simplesmente eram regras do banco, e eu tinha perdido meu tempo numa fila enorme. E ela sequer aceitava minha xerox autenticada. A custo, em coisas assim, não grito com essas benditas caixas, mas eu sei que a culpa toda é do sistema, eu disse rindo, e elas estão lá só pra fazer o trabalho delas. Disso passei a falar da noite que fui trabalhar, das crianças, de quanto meu patrão era impossível, reclamei do pouco que ele tinha me dado por trabalhar no sábado à noite... tudo bem que não fosse mais que três horas, mas o homem era podre de rico! Contei que tinha falado com minha mãe num dia antes e de como nossa conversa não durava mais que minutos por medo da conta de telefone, por medo do nosso relacionamento que ia mal. E, como ele não me interrompia, eu ia falando, mas por pouco tempo virei e notei que ele estava dormindo. Isso nunca tinha acontecido, por um momento quase cheguei a ficar magoada, mas então percebi que ele dormia de um sono muito mais profundo. Devia ter, enfim, bebido uma caixa de comprimidos. E estava ali com o rosto tranqüilo e branco sobre meu braço como um bebê embalado para dormir. Me senti um pouco derretida e triste, mas minhas tardes eram leves, como eu disse, continuei falando pela tarde inteira de coisas diminutas e sem importância como se nada tivesse acontecido, antes de anoitecer me vesti e fui embora. Creio que ele nem tivesse terminado o quadro.
quinta-feira, 27 de julho de 2006
sexta-feira, 21 de julho de 2006
XV de Novembro, os dias, a menininha de 10 reais, sobre como o trabalho indigna o homem, a hipocrisia mundial e a crise interna
Lá fora está um lindo dia. Aliás, os dias são sempre bonitos, faça sol ou chuva. Ultimamente tem feito sempre sol, vento fresco, céu azul claro, árvores brilhantes e esvoaçantes, pássaros cantando e, ao anoitecer, um pôr-do-sol sempre lindo. Dia desses era um vermelho puxado pra salmão, ontem foi cor-de-rosa bem suave, misturado com o azul claro e amarelo e hoje eu não sei qual vai ser, obviamente, mas inevitavelmente será bonito. As noites são sempre lindas também, frescas, noites, como todas noites são lindas me faz criar esperança e me dizer: "você deve virar notívaga". As manhãs são brancas. A brisa e as árvores são coisas que eu mais gosto. À noite são os prédios. Luz acesa, detalhes dentro de uma casa. O aconchego. Eu sempre penso numa futura minha casa. Outro dia eu voltava da psicóloga e ia pela XV à noite (hoje andei pela XV de manhã e fico pensando – minha cidade é linda, quando minha mãe vir eu vou mostrar a ela...(mas ela nunca vem)), então, eu vinha pela XV à noite e uma menina passou com a mãe e apontou pra dentro do fliperama que vende de tudo "aii que blusa liiinda", fiquei olhando qual era a blusa. Imagino que fosse alguma daquelas dos Rebeldes, pensei um pouco na minha mãe e pensei em mim como mãe: "largue de frescura, menina, logo você cresce e vai deixar de gostar disso", eu achei isso muito engraçado. Aí um moço um pouquinho gordo e loiro e que falava embolado parou e disse: "ai que moça linda", e pegou no meu braço, e me explicou que eu era linda e pensou que não custava nada parar pra falar comigo. Pelo jeito naquele mesmo momento o celular dele vibrou – eu nunca percebo quando o celular de alguém vibra, as pessoas se calam de repente e é tão esquisito... – ele disse onde estava rapidamente, que já estava indo e desligou, pensei se não era alguma namorada, mas não com nenhum rancor do menino – afinal ele tinha me elogiado –, apenas fiquei rindo da noite por dentro. Ele voltou a falar qualquer coisa, quem ele era, tentou perguntar o que eu fazia e eu disse. Pensei em dizer logo que era casada e tal, mas não – pensei – não tem porquê dizer isso, seria tão arrogante. Só respondi. Ele perguntou se eu gostava de fliperama, já que eu estava olhando pra um. Eu disse que não. Surpreendida em flagrante. Nunca mais vou vê-lo, não me preocupei com nada, nem com o fato de estar sendo banal e monossilábica, sem esforço algum para ser simpática eu geralmente até fico mais simpática, porque não me preocupo tanto e só faço. Logo ele foi embora, não conseguiu me vender nada – e ah, andar na XV é dizer não pelo menos cinco vezes. Não para propagandistas, religiosos e miseráveis. Ontem um menininho pediu uma moeda pra comprar pão, acho que ele me pediu só porque eu estava olhando pra ele e pensando "e se eu puxasse ele pra conversar e dissesse: você é feliz agora? Então por que não se mata, você nunca será feliz.". Ele perdeu a infância. É, a infância, única época que a gente tem pra ser feliz. Eu não acredito muito nisso, mas pelo menos quando criança se tem menos responsabilidade e tal... Mas eu não disse nada, só o habitual não, e por preguiça. Que custava, só uma moedinha... Talvez eu só queira que os miseráveis se matem. Ora, por que eles não se matam? Eu me pergunto isso de todo mundo. Então a voz racional dentro de mim diz: "por que você não se mata?", e então eu sinto pena de todos nós, os miseráveis. Depois, quando voltei com as moedinhas, ele não estava mais lá. Pra que são essa moedinhas? Obviamente não são para o pão. Todo mundo sempre diz – nossos pais sempre nos ensinam: nunca é para o pão. Quando pequena pra mim as moedinhas representava doce na casa dos meus primos. Quando pequena eu mal tocava em dinheiro. Meus primos vire e mexe ganhavam pra comprar doce. Eu geralmente só ganhava doce. Por isso virei hippie, eu nunca entendi qual é que era a das moedinhas. Por isso lembrei que tinha balas e deveria ter dado balas para o menininho.
Ainda na XV, naquela noite, vi um homem bêbado com uma garotinha quase bebê no colo chorando. Chorando e com o dedo na boca – e o que mais me chamou a atenção foi o dedo na boca, porque a menina estava suja, e eu fiquei com nojo e vontade de dizer: "tira esse dedo da boca!", e a menina chorava como toda criança suja de cabelo loiro ralo. E tinha policial em volta do bêbado. Mais pra frente tinham umas mulheres conversando: "é, ele queria vender a menina por R$10,00, sim, 10 reais, ele foi, tava agredindo o homem... aí chamaram a polícia". Só não entendi do que reclamavam. 10 reais? É uma pechincha! Poxa, Praticamente um real por mês na barriga, e sem todo aquele esforço que se tem quando está grávida. Desconta celulites, estrias e dor de parto. E mais uma porção de fraldas, já que a menina já devia ter aprendido a ir ao banheiro. Já vi muito cachorro por 200 ou mais. Mas também, cachorro de raça. A menina não era de raça, é certo. Mas 10 reais? Quase comprei pra depois vender por 20.
Mentira, é claro. Na hora eu só pensei no meu querido Enrico e sua idolatria ao álcool. Sim, veja o quanto o álcool faz as pessoas felizes! Andar maltrapilho e vender crianças por 10 mangos pra certamente comprar umas garrafas de bebida é tudo o que um homem pode almejar. O quê? Ganhar dinheiro, a longo prazo, por meio de sexo. E bebida. Sexo e bebida. Não era essa a grandessíssima resposta para todos os males do mundo?
Não, a resposta é meditar. É, ultimamente eu estava pensando em virar budista. Eu descobri que é uma religião-psicologia-filosofia-de-vida bacana, eu já escrevi mil posts budistas sem o saber. Primeiro que a finalidade de todo o ritual é o fim do ciclo da vida, o samsara lá, ora, quer coisa melhor? Lutar pra deixar de viver? Isso que é religião feita pra mim! Ainda mais que o lutar é na maior parte ficar parado sem fazer nada. Sim, e tem mais todo aquele negócio que viver é sofrer e tralálás, e que a vida nunca teve começo – nem deus – e nem tem hierarquia, nem pecado nem... nada. Aliás, quando você chegar ao nada estará iluminado! Eu realmente achei legal, e estou tão desesperadoramente desesperada que pensei em apelar para alguma religião (e de fato essa não agride minha descrença), mas de qualquer forma eu tenho é preguiça, tem que pagar e não sei se teria muita graça pra mim ficar trocando cor de vela e acreditando em frases de sabedoria – frases de sabedoria são tão monótonas...! Se bem que vela e cor... pelo menos cor é legal.
O que rola é que eu simplesmente penso: "eu não tenho tempo pra isso". Não, eu não tenho tempo pra de manhã acordar e ficar meditando. Não porque se eu acordar mais cedo do que eu acordo eu vou cair em sono profundo enquanto medito. E sonhar com alguma espécie de nirvana. E depois... e depois o que eu estou fazendo aqui ainda? Sim, pelo medo de morrer de sempre. Os dias são todos muito lindos, sim, mas por dentro de mim está tudo encarquilhado e cansei dos sarcasmos – ok, ok, não totalmente. Eu gosto de ter meu dinheiro. Gosto de ter meu dinheiro pra dar todo pro Daniel, pra minha sogra, comprar comida e todas essas coisas. Gosto. De poder decidir com o que eu irei gastar. Mas apesar dessa finíssima camada de prazer chocho eu ainda me canso, sou vagabuuunda, como minha mãe tantas vezes me chamou. Sim, eu D-E-T-E-S-T-O trabalhar. Sim, eu sei que não sou a única. Mas é péssimo ter dias lindos sem poder olhar por muito tempo. Aliás, é cretiníssimo esse tipo de coisa. C-R-E-T-I-N-O. Detestável. Eu vivo por medo de morrer, eu só gostaria de viver se pudesse me afundar com gosto na brisa, nas árvores, nos pores-do-sol. E não vou. E se for, Daniel nem vai estar comigo. Vai estar enfurnado naquela empresinha medíocre, com fins burocráticos, fazendo coisas que só eles acreditam ter importância – e mesmo assim se iludindo com muito esforço –, sem ver pôr-do-sol, sem ver o dia. Será que isso me incomoda tanto, será que destrói metade do meu dia, das minhas árvores, das minhas brisas e dos meus pores-do-sol porque eu amo ele? Ou porque eu queria mostrar essas coisas pra ele, pra que elas não fossem metade. Ou porque me sinto responsável pela mediocridade do mundo e nossa? Eu sei que o último sim.
É preciso fazer alguma coisa. O quê? Trabalhos por conta própria, fim dessa vida moderna e civilizada, fim de toda a evolução da espécie, fim de toda lógica, de toda a praticidade, de toda a realidade... Não, eu só acho que a gente, todo mundo, deveria trabalhar menos. Duas, no máximo 4 horas. Isso quer dizer fim do capitalismo, afinal eu não sou tão burra a ponto de saber que uma coisa não funciona com a outra. Isso não quer dizer utopia. Isso quer dizer que as coisas não são irremediavelmente ruins. Não pode ser! Vocês entendem que por mais meiga e sonhadora que eu possa estar sendo em acreditar que as coisas podem ser desse outro jeito, achar que não tem como mudar é também outra forma de estupidez?
Mas, tudo bem, pode ser que não mude. É bem provável. Então todos fingem que são felizes. E o fingimento todo é doloroso. Eu fico olhando, olhando pras pessoas e é desesperador. Reparem, todos têm dentro de si uma fossa, um buraco negro tapado com sorrisos e falsidades. Todos dizem coisas por mesura, por parecer isso e aquilo pra tapar todo o buraco que todos nós temos e seria fraqueza e mesmo absurdo destapar. Então eu que não me engano e reclamo mesmo fico com medo de "levar a vida simplesmente......" e blábláblá, eu não me conformo e não me contento não. Tem que ter uma forma de ser feliz, tá? Depois eu que sou a pessimista! Todos são angustiantes. Seja inteligente ou não, velho ou novo, todos fogem. Os trabalhadores trabalham mais e fazem sala para eternas visitas e conservam fachadas impecáveis de pura banalidade papagaia. E têm os intelectuais que fazem uma pose blasé de quem sabe que o buraco está lá, mas não se preocupa com isso, porque se preocupar é coisa para perdedores sem a menor pose e marketing pessoal. Todos fogem do fato. E são tão covardes quanto eu. Mas eu me deparo com o fato e digo pra ele: "e aí? Me mato ou te tapo de verdade?". Ou seja, é fácil concluir: o meu problema é ser melhor que todo mundo.
Ainda na XV, naquela noite, vi um homem bêbado com uma garotinha quase bebê no colo chorando. Chorando e com o dedo na boca – e o que mais me chamou a atenção foi o dedo na boca, porque a menina estava suja, e eu fiquei com nojo e vontade de dizer: "tira esse dedo da boca!", e a menina chorava como toda criança suja de cabelo loiro ralo. E tinha policial em volta do bêbado. Mais pra frente tinham umas mulheres conversando: "é, ele queria vender a menina por R$10,00, sim, 10 reais, ele foi, tava agredindo o homem... aí chamaram a polícia". Só não entendi do que reclamavam. 10 reais? É uma pechincha! Poxa, Praticamente um real por mês na barriga, e sem todo aquele esforço que se tem quando está grávida. Desconta celulites, estrias e dor de parto. E mais uma porção de fraldas, já que a menina já devia ter aprendido a ir ao banheiro. Já vi muito cachorro por 200 ou mais. Mas também, cachorro de raça. A menina não era de raça, é certo. Mas 10 reais? Quase comprei pra depois vender por 20.
Mentira, é claro. Na hora eu só pensei no meu querido Enrico e sua idolatria ao álcool. Sim, veja o quanto o álcool faz as pessoas felizes! Andar maltrapilho e vender crianças por 10 mangos pra certamente comprar umas garrafas de bebida é tudo o que um homem pode almejar. O quê? Ganhar dinheiro, a longo prazo, por meio de sexo. E bebida. Sexo e bebida. Não era essa a grandessíssima resposta para todos os males do mundo?
Não, a resposta é meditar. É, ultimamente eu estava pensando em virar budista. Eu descobri que é uma religião-psicologia-filosofia-de-vida bacana, eu já escrevi mil posts budistas sem o saber. Primeiro que a finalidade de todo o ritual é o fim do ciclo da vida, o samsara lá, ora, quer coisa melhor? Lutar pra deixar de viver? Isso que é religião feita pra mim! Ainda mais que o lutar é na maior parte ficar parado sem fazer nada. Sim, e tem mais todo aquele negócio que viver é sofrer e tralálás, e que a vida nunca teve começo – nem deus – e nem tem hierarquia, nem pecado nem... nada. Aliás, quando você chegar ao nada estará iluminado! Eu realmente achei legal, e estou tão desesperadoramente desesperada que pensei em apelar para alguma religião (e de fato essa não agride minha descrença), mas de qualquer forma eu tenho é preguiça, tem que pagar e não sei se teria muita graça pra mim ficar trocando cor de vela e acreditando em frases de sabedoria – frases de sabedoria são tão monótonas...! Se bem que vela e cor... pelo menos cor é legal.
O que rola é que eu simplesmente penso: "eu não tenho tempo pra isso". Não, eu não tenho tempo pra de manhã acordar e ficar meditando. Não porque se eu acordar mais cedo do que eu acordo eu vou cair em sono profundo enquanto medito. E sonhar com alguma espécie de nirvana. E depois... e depois o que eu estou fazendo aqui ainda? Sim, pelo medo de morrer de sempre. Os dias são todos muito lindos, sim, mas por dentro de mim está tudo encarquilhado e cansei dos sarcasmos – ok, ok, não totalmente. Eu gosto de ter meu dinheiro. Gosto de ter meu dinheiro pra dar todo pro Daniel, pra minha sogra, comprar comida e todas essas coisas. Gosto. De poder decidir com o que eu irei gastar. Mas apesar dessa finíssima camada de prazer chocho eu ainda me canso, sou vagabuuunda, como minha mãe tantas vezes me chamou. Sim, eu D-E-T-E-S-T-O trabalhar. Sim, eu sei que não sou a única. Mas é péssimo ter dias lindos sem poder olhar por muito tempo. Aliás, é cretiníssimo esse tipo de coisa. C-R-E-T-I-N-O. Detestável. Eu vivo por medo de morrer, eu só gostaria de viver se pudesse me afundar com gosto na brisa, nas árvores, nos pores-do-sol. E não vou. E se for, Daniel nem vai estar comigo. Vai estar enfurnado naquela empresinha medíocre, com fins burocráticos, fazendo coisas que só eles acreditam ter importância – e mesmo assim se iludindo com muito esforço –, sem ver pôr-do-sol, sem ver o dia. Será que isso me incomoda tanto, será que destrói metade do meu dia, das minhas árvores, das minhas brisas e dos meus pores-do-sol porque eu amo ele? Ou porque eu queria mostrar essas coisas pra ele, pra que elas não fossem metade. Ou porque me sinto responsável pela mediocridade do mundo e nossa? Eu sei que o último sim.
É preciso fazer alguma coisa. O quê? Trabalhos por conta própria, fim dessa vida moderna e civilizada, fim de toda a evolução da espécie, fim de toda lógica, de toda a praticidade, de toda a realidade... Não, eu só acho que a gente, todo mundo, deveria trabalhar menos. Duas, no máximo 4 horas. Isso quer dizer fim do capitalismo, afinal eu não sou tão burra a ponto de saber que uma coisa não funciona com a outra. Isso não quer dizer utopia. Isso quer dizer que as coisas não são irremediavelmente ruins. Não pode ser! Vocês entendem que por mais meiga e sonhadora que eu possa estar sendo em acreditar que as coisas podem ser desse outro jeito, achar que não tem como mudar é também outra forma de estupidez?
Mas, tudo bem, pode ser que não mude. É bem provável. Então todos fingem que são felizes. E o fingimento todo é doloroso. Eu fico olhando, olhando pras pessoas e é desesperador. Reparem, todos têm dentro de si uma fossa, um buraco negro tapado com sorrisos e falsidades. Todos dizem coisas por mesura, por parecer isso e aquilo pra tapar todo o buraco que todos nós temos e seria fraqueza e mesmo absurdo destapar. Então eu que não me engano e reclamo mesmo fico com medo de "levar a vida simplesmente......" e blábláblá, eu não me conformo e não me contento não. Tem que ter uma forma de ser feliz, tá? Depois eu que sou a pessimista! Todos são angustiantes. Seja inteligente ou não, velho ou novo, todos fogem. Os trabalhadores trabalham mais e fazem sala para eternas visitas e conservam fachadas impecáveis de pura banalidade papagaia. E têm os intelectuais que fazem uma pose blasé de quem sabe que o buraco está lá, mas não se preocupa com isso, porque se preocupar é coisa para perdedores sem a menor pose e marketing pessoal. Todos fogem do fato. E são tão covardes quanto eu. Mas eu me deparo com o fato e digo pra ele: "e aí? Me mato ou te tapo de verdade?". Ou seja, é fácil concluir: o meu problema é ser melhor que todo mundo.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
Um jogo qualquer do brasil me inspirou a escrever isso
- Oi, meu nome é Martha.
É sempre o primeiro nome que me ocorre. E sei lá por que me lembra tomate. Talvez porque além de lembrar "massa", o t lembra um pouco o tanto de t que tem em tomate.
- Eu sou Martha e sou humana. Que isso quer dizer? Quer dizer que eu não sou só um bichinho qualquer, que vive por viver, ah isso não!, posso dar qualquer resposta, menos essa, para o que eu sou. E mesmo que eu diga o contrário seria tentando, aliás, e isso é um paradoxo bem típico do qual eu pouco falo mas eu sei e acho que toda vez que virem, lerem ou me ouvirem vão ver junto comigo - depois eu digo que ninguém me entende, mas também espero que leiam a mente, ou a mensagem subliminar surda cega muda -, bom... onde eu estava? Hum, dizer que eu sou só mais um bichinho é também uma vontade de transcender o meu ser apenas bichinho, então eu sou apenas um bichinho - e que tenta transcender este apenas bichinho que sou. Portanto, nós humanos não somos só bichinhos, produzimos coisas diferentes, fazemos arte, praticamos esportes, pulamos mais alto, corremos mais rápido, ganhamos, somos mais fortes, sempre transcendendo, mesmo a nós próprios. E eu como sou humano também me transcendo, só não sei se com arte ou esporte, não sei como deveria chamar. Mas é incrível, pouca gente dá valor, mas eu sei que é uma das façanhas mais difíceis. A coisa é: eu não mastigo bala.
Pronto, agora vocês sabem quem é Martha, por ela mesma. Não que eu ache que Martha diria todas essas coisas assim, desse jeitinho, digamos que a voz da fala dela vinha direto do vago do cérebro. Afinal ela não necessariamente tem essa mesma opinião sobre o que é ser humano, é muita filosofice pra uma menininha só, ela nem acredita tanto no seu alto potencial como não-mastigadora de bala, ela acredita no valor disso, mas não a ponto de dizer em voz alta, não com toda essa explicação chata, chata, chata, que só poderia vir de mim, a narradora chata. Mas ela, enfim, não mastiga bala e coisas afins e tira proveito disso, como boa desportista.
Sim, e vocês devem pensar que isso é fácil, ainda mais se pensarem em balas duras, que são as mais simples, claro. Agora vamos aos níveis de dificuldade, da mais fácil pra mais difícil: começa a piorar quando a bala dura tem recheio, depois vem, é claro, as mastigáveis, e depois então a bala de banana que é, não se pode discutir, a mais difícil. Martha já passou um dia inteiro com uma única bala de bananada na boca. Temos também as categorias não-bala, ou doce fronteiriço à bala: jujuba, confete, e já que falei de confete, por que não chocolate?
Martha é uma dessas muitas brasileiras que não tem seu talento reconhecido por ser mulher, e por ser ofuscada pela mania do futebol.
Não, não... a verdade é que Martha só ia ser uma das muitas personagens importantes de uma história que não sei ainda qual é. Aliás, que não pretendo que seja bom, seria meu modo de transcender chupando bala também. O que define a importância das coisas senão uma luta de classes? – ahá! Saber deixa pessoas chatas mais chatas.
Quem não sabe?
Não tenho idéia alguma. Não tenho vontade de ter.
É sempre o primeiro nome que me ocorre. E sei lá por que me lembra tomate. Talvez porque além de lembrar "massa", o t lembra um pouco o tanto de t que tem em tomate.
- Eu sou Martha e sou humana. Que isso quer dizer? Quer dizer que eu não sou só um bichinho qualquer, que vive por viver, ah isso não!, posso dar qualquer resposta, menos essa, para o que eu sou. E mesmo que eu diga o contrário seria tentando, aliás, e isso é um paradoxo bem típico do qual eu pouco falo mas eu sei e acho que toda vez que virem, lerem ou me ouvirem vão ver junto comigo - depois eu digo que ninguém me entende, mas também espero que leiam a mente, ou a mensagem subliminar surda cega muda -, bom... onde eu estava? Hum, dizer que eu sou só mais um bichinho é também uma vontade de transcender o meu ser apenas bichinho, então eu sou apenas um bichinho - e que tenta transcender este apenas bichinho que sou. Portanto, nós humanos não somos só bichinhos, produzimos coisas diferentes, fazemos arte, praticamos esportes, pulamos mais alto, corremos mais rápido, ganhamos, somos mais fortes, sempre transcendendo, mesmo a nós próprios. E eu como sou humano também me transcendo, só não sei se com arte ou esporte, não sei como deveria chamar. Mas é incrível, pouca gente dá valor, mas eu sei que é uma das façanhas mais difíceis. A coisa é: eu não mastigo bala.
Pronto, agora vocês sabem quem é Martha, por ela mesma. Não que eu ache que Martha diria todas essas coisas assim, desse jeitinho, digamos que a voz da fala dela vinha direto do vago do cérebro. Afinal ela não necessariamente tem essa mesma opinião sobre o que é ser humano, é muita filosofice pra uma menininha só, ela nem acredita tanto no seu alto potencial como não-mastigadora de bala, ela acredita no valor disso, mas não a ponto de dizer em voz alta, não com toda essa explicação chata, chata, chata, que só poderia vir de mim, a narradora chata. Mas ela, enfim, não mastiga bala e coisas afins e tira proveito disso, como boa desportista.
Sim, e vocês devem pensar que isso é fácil, ainda mais se pensarem em balas duras, que são as mais simples, claro. Agora vamos aos níveis de dificuldade, da mais fácil pra mais difícil: começa a piorar quando a bala dura tem recheio, depois vem, é claro, as mastigáveis, e depois então a bala de banana que é, não se pode discutir, a mais difícil. Martha já passou um dia inteiro com uma única bala de bananada na boca. Temos também as categorias não-bala, ou doce fronteiriço à bala: jujuba, confete, e já que falei de confete, por que não chocolate?
Martha é uma dessas muitas brasileiras que não tem seu talento reconhecido por ser mulher, e por ser ofuscada pela mania do futebol.
Não, não... a verdade é que Martha só ia ser uma das muitas personagens importantes de uma história que não sei ainda qual é. Aliás, que não pretendo que seja bom, seria meu modo de transcender chupando bala também. O que define a importância das coisas senão uma luta de classes? – ahá! Saber deixa pessoas chatas mais chatas.
Quem não sabe?
Não tenho idéia alguma. Não tenho vontade de ter.
segunda-feira, 17 de julho de 2006
Endentro
Em algum lugar alguém deve ter errado. Uma questão crucial parece ser se as pessoas são ou não são corajosas em viver. Ninguém parece gostar muito, mas dizem: é assim mesmo – e vivem. Bernadete entrega papel perfumado na rua, Jair é cobrador de ônibus, e a essas seus filhos podem brincar e comer bem. Creio que tenham filhos. Talvez Bernadete só tenha amigos.
Renato descobriu aos 13 que era gay ao sair com um travesti de quem se tornou amigo. Este o ajudou a viver quando foi expulso de casa pelos pais. Renato vivia sempre atrás de Lara, aos pés de Lara, queria ser Lara que parecia tão longe dos problemas e das imperfeições do mundo. Nunca tinha sido humilhado, certamente nunca tinha sido criticado. Ele sabia o que era e o que se devia ser e Renato se perguntava por que aquela arma não tinha nascido com ele. Por que só ele?
Não sabia andar de salto. Ah! Não sabia. Riam dele pelas ruas, mas de alguma forma, atrás de Lara ele se sentia só metade ele, metade estava iluminada pelo brilho dela. Ela, Lara, à noite, perfeitamente vestida, composta, maravilhosa, perfeita, digna e confiante. Era um aprendiz. E por que Lara o aceitava? Porque gostava da adoração? De um ser medíocre como ele? Ah, a humilhação! A peruca barata, desfiada, mal segura na cabeça.Tinha as pernas finas, não sustentava o corpo por cima das sandálias. A tomara-que-caia caía... não tinha peitos. Ela não. Linda, bem penteada nos cabelos naturais e loiros, a maquiagem retocada, bem vestida, voz melodiosa. Era amor, não era?
No cambalear daquelas pernas era o ritmo do coração de Luzia, vai pra frente, tropeça pra trás... ah, a longa viagem que o coração fazia para trás! Doía... Viu Renato naquela noite, teve pena, quis dar a ele o corpo e a beleza de Lara. Um minuto o viu e sumiu. Onde estava mesmo? Na sua dor... era preciso explicar aquela dor... Mas era só o coração que parecia chorar pra ela... e ele fazia: ahuuuú, como um gemido de dor sentido, de quem chora. Como a mulher que tinha visto chorando uma vez num carro, de óculos escuros, a chorar convulsivamente, era assim que diziam nos livros, e aquela mulher chorava doído. Então Luzia pensou: deve ter perdido o filho, deve estar voltando do enterro. Porque o choro era de desgraça. Ou descobrira uma doença ruim, ou era o marido que tinha morrido. Luzia nutria interesses mórbidos como os urubus de acidente então. Era a curiosidade de saber se as pessoas realmente sofriam caladas. E por que essa arma não nascera com ela? Por que só ela?
Todos têm pedacinhos de alma faltando, por isso agora vendem tantos livros de auto-ajuda, porque é algo que faz falta às pessoas: saber viver. Quem disse que nós viventes não sabemos viver? Alguém está nos empulhando. É a sociedade, você diz... Eu não diria isso. É o mundo. O mundo é assim mesmo. E agora eu irei viver.
Renato descobriu aos 13 que era gay ao sair com um travesti de quem se tornou amigo. Este o ajudou a viver quando foi expulso de casa pelos pais. Renato vivia sempre atrás de Lara, aos pés de Lara, queria ser Lara que parecia tão longe dos problemas e das imperfeições do mundo. Nunca tinha sido humilhado, certamente nunca tinha sido criticado. Ele sabia o que era e o que se devia ser e Renato se perguntava por que aquela arma não tinha nascido com ele. Por que só ele?
Não sabia andar de salto. Ah! Não sabia. Riam dele pelas ruas, mas de alguma forma, atrás de Lara ele se sentia só metade ele, metade estava iluminada pelo brilho dela. Ela, Lara, à noite, perfeitamente vestida, composta, maravilhosa, perfeita, digna e confiante. Era um aprendiz. E por que Lara o aceitava? Porque gostava da adoração? De um ser medíocre como ele? Ah, a humilhação! A peruca barata, desfiada, mal segura na cabeça.Tinha as pernas finas, não sustentava o corpo por cima das sandálias. A tomara-que-caia caía... não tinha peitos. Ela não. Linda, bem penteada nos cabelos naturais e loiros, a maquiagem retocada, bem vestida, voz melodiosa. Era amor, não era?
No cambalear daquelas pernas era o ritmo do coração de Luzia, vai pra frente, tropeça pra trás... ah, a longa viagem que o coração fazia para trás! Doía... Viu Renato naquela noite, teve pena, quis dar a ele o corpo e a beleza de Lara. Um minuto o viu e sumiu. Onde estava mesmo? Na sua dor... era preciso explicar aquela dor... Mas era só o coração que parecia chorar pra ela... e ele fazia: ahuuuú, como um gemido de dor sentido, de quem chora. Como a mulher que tinha visto chorando uma vez num carro, de óculos escuros, a chorar convulsivamente, era assim que diziam nos livros, e aquela mulher chorava doído. Então Luzia pensou: deve ter perdido o filho, deve estar voltando do enterro. Porque o choro era de desgraça. Ou descobrira uma doença ruim, ou era o marido que tinha morrido. Luzia nutria interesses mórbidos como os urubus de acidente então. Era a curiosidade de saber se as pessoas realmente sofriam caladas. E por que essa arma não nascera com ela? Por que só ela?
Todos têm pedacinhos de alma faltando, por isso agora vendem tantos livros de auto-ajuda, porque é algo que faz falta às pessoas: saber viver. Quem disse que nós viventes não sabemos viver? Alguém está nos empulhando. É a sociedade, você diz... Eu não diria isso. É o mundo. O mundo é assim mesmo. E agora eu irei viver.
segunda-feira, 10 de julho de 2006
Dia D
Tenho andado extremamente chata, como todo mundo já sabe. Tenho tentado parecer feliz ou não, não sei se não me esforço pouco, mas o Daniel se desgasta com tudo isso. Por tudo isso ontem ele ficou me sufocando na cama: "quer morrer? Morre", "vamos enterrar o corpo, não precisa de cerimônia, só joga ela na vala que ela é atéia, isso...", que nem da outra vez que ele ficou me empurrando pra janela. Então eu desato a rir que é o que ele quer mesmo, me fazer rir pra eu gostar da vida. Meu amor a essa vida dura 10 segundos, enquanto acho graça. Eu nunca entendi a diferença entre alegria e felicidade. A resposta deve ser essa. Eu gosto quando o Daniel "tenta me matar", talvez porque demonstre que eu não quero tanto assim morrer (porque eu luto pra me soltar), ou porque mostre que ele é um garoto mau, e eu gosto de garotos maus. A bondade me assusta, me assusta porque cai por terra minha idéia de que isso é só hipocrisia. Como eu disse, eu tento me justificar fugindo e generalizando. Pode ser, mas eu serei também uma pessoa "ruim"? Minhas fronteiras estão todas esfumaçadas. Isso pode ser considerado um mau vício, o que me assusta. Será só maldade porque não tenho deus no coração? Simplificaria muitas coisas, e eu só acredito pela fé dos outros nisso, não é a minha.
Declaração de amor de uma chata: eu disse ontem ao Daniel: "você é minha única verdade absoluta". Mas será? Ah os chatos me contaminaram. Hoje eu lavava a louça e pensava no meu irmão dizendo: "você não vai escrever livro de auto-ajuda, mas de auto-destruição", e eu acho que vou mesmo. Estava pensando agora que sou uma heroína, em todos os sentidos: heroína de todas minhas histórias, heroína porque levo as pessoas pro inferno a longo prazo. Ou a curto?
Pensava que o Daniel era um dos muitos – todos são – "cavaleiros da vida". Quando eu argumento contra ela ele fica muito assustado e tenta justificá-la. Logo meus argumentos não têm contra-argumento e o Daniel pára e tenta me bater – quando não temos palavras, buscamos essa saída. É como um pai. Mas ele não me bate, obviamente, não no sentido normal de bater... Ele me dá cócegas, me ignora, algo assim que permita fingir que eu não condenei a vida com uma prova irrefutável. Fica fácil só dizer: eu sou uma chata. Mas a verdade é que argumentos – eu sei bem isso – não provam nada. É só um ponto de vista. E os melhores argumentos sempre são os meus com o Daniel. Têm gente muito mais difícil, muito mais teimosa... com essas sou eu que acabo batendo.
Eu tenho horror a que me sufoque, ou a ficar imobilizada. Algumas brincadeiras dessas me alarmam porque eu perco o controle de mim e fico desesperada. Não que o Daniel não tenha noção e abuse, eu que sou muito sensível pra isso. Eu não durmo, nunca mais dormi direito, com ele ao meu lado. Também não consigo escrever, fazer nada. Eu preciso pra muitas coisas estar sozinha, senão perco toda a força de ação e acabo pedindo o copo d'água em vez de ir buscar. As presenças me sufocam, eu só consigo ler. Por quê? Essa é uma coisa que precisa mudar. Talvez seja porque eu sou uma individualista crônica, mórbida, que se sente sufocada e imobilizada fácil demais... Daniel dorme fácil, pesado, mesmo que eu amasse ele contra a parede. E ele vive mesmo sem verdades absolutas, mesmo sem acreditar em deus, é uma coisa estranha, eu nunca entendi porquê ele vive. Nem ele. Acho que a diferença é que ele não acha relevante se fazer essa pergunta. Claro, eu também vivo, com pergunta ou sem. O problema é fazer coisas que me desagradam, aí cai por terra toda minha vontade de viver, que é muito frágil. Ele não liga nem pra isso, ele vive.
Na pensão não era assim, com três pessoas dormindo no mesmo quarto. Claro, minha cama era única, e por mais que eu tentasse, nenhuma pessoa ali tinha o valor de pessoa que dou para o Daniel.
Esse é um post romântico? Não, eu só estou orgulhosa da gente hoje. Como Sartre e Beauvoir deviam ser orgulhosos. Somos assim tão importantes? A importância é a gente que dá.
Como nos livros. Agora estou lendo 1984. Esse é um livro fácil de se interessar, estou lendo com vontade mesmo, esperando "o que vai acontecer". Nem todo o livro é assim, com propósito ativo, os outros devem ser escrito por força do tédio. E estes são os mais aclamados. E eu lhes dou força, possivelmente também serei uma escritora do tédio assim. A "Elite Cultural". É terrível pensar que o intelecto também é moeda.
1984 me lembra Harry Potter. Podem querer me surrar, mas me lembra. São ingleses, estranhos e têm uma sociedade estranha. É sombrio e têm geringonças como o falascreve. E isso não quer dizer que eu seja uma completa ingênua para o que o livro faz referência. Mas é, eu sou uma completa ignorante em matéria de política. Ou não tão completa assim.
Ontem pensei em pedir para o Daniel me matar de verdade, sem me contar. Mas não, tenho medo do inesperado. Além do quê ele seria preso e tudo mais, e o coitado não merece. E eu pensei que eu comprei uma câmera digital que vai chegar semana que vem, imaginei que seria cruel fazer o Daniel receber aquilo comigo morta. Seria como a cena do 21 gramas quando a mulher se emociona com os cadarços da filha. Por que o banal emociona? Ontem eu estava pensando isso. Talvez porque lembre que nessas pequenas coisas a gente não soube aproveitar, ou ainda mais porque essas pequenas coisas representem a vida, e acentuem ainda mais o fato de ela não estar mais lá.
Quanto aos livros e suas qualidades, eu não sou boa crítica. Eu nunca sei o que eu gosto e o que eu não gosto. Nem direito do que eu devo ou não devo gostar. É claro que eu falo isso por maldade, por me referir aos pseudo-intelectuais. Mas eu odeio essa nomenclatura, pra ser displicente e não correr o risco de ser ingênuo todo mundo usa "pseudo", finge desconfiar. O fingimento pra mim também é uma sufocação que me desespera.
Ainda sobre os livros – não estou conseguindo terminar a idéia, por medo de me sufocar também –, fico pensando que talvez seja a moeda do intelecto gostar de livros intelectuais que contenham filosofia e profundidade sobre a vida. Claro que eles são educativos. Mas é preciso dizer que não me sinto mais criança, e me sinto até uma inteligente insuperável (embora eu saiba que isso é um engano, mas também, por saber disso, a inteligência se comprova) e que por isso mesmo os livros intelectuais só batam na mesma tecla. Então preciso ler verdades absolutas, sobre bom e ruim, mas não algo que também leve isso às últimas conseqüências – senão acabo me irritando e também me angustiando. Os outros são quase lugar-comum. Mas, é claro, os outros pontos de vista são esclarecedores, diferentes. Mas os 7 volumes que li talvez tenham sido o exagero que me levou ao fundo do poço.
Outra coisa que me irrita muito é quando me julgam e rotulam, impacientes, sem saber da minha ambivalência. Ah, como detesto quando acham que por eu falar mal do niilismo, eu não sou niilista e vice-versa... é quase um enigma. Ninguém percebe, só eu, muito orgulhosa de ser e não ser. Eis que sou eu a questão. Como eu sou vaidosa. Isso também me esmaga.
Ontem ocorreram dois acidentes, se não me engano. É um barulho que eu sempre escuto por morar no centro: ranger de pneus freando e um "pô" seco. Por ser muito comum de se ouvir, eu antes achava que era só o pessoal evitando um acidente. Até que eu descobri que o pô realmente é uma batida. Eu achava que o barulho deveria ser bem mais estilhaçante e sonoro, mas não é. Ontem, domingo, eu estava indo pela primeira vez à feirinha do Largo da Ordem, eu e o Daniel estamos de ir faz séculos, mas somos preguiçosos, e eu odeio sair de manhã. Então ouvimos o barulho de acidente – foi aí que descobri –, eu não entendi em primeiro momento porque um homem inverteu de caminho de uma hora pra outra. Fiquei admirada: "poxa, comé que eles sabem pelo som?", era nosso caminho, um Audi no meio da rua, dois motoqueiros se revirando no chão, no meio do cruzamento. Sendo que me permito rir de minhas próprias desgraças, lógico que é um pequeno passo pra eu rir da dos outros. Primeiro eu comentei para o Daniel o fato de os caras estarem se contorcendo só porque viram que era um Audi que tinha batido neles, todo brasileiro tem dom pra jogador de futebol, dom pra cavar falta. Eles não pareciam de fato feridos, senão eu teria ficado assustada. Ficaram lá, deitados, em plena faixa de pedestres e eu ainda disse pro Dã: poxa, ninguém vem tirar os corpos? Tá atrapalhando pra que a gente atravesse. Mudamos de rota, atravessamos mais pra frente.
O dia acinzentava e eu comentava para o Daniel do povo que ficava se juntando pra ver o acidente, "deveria comentar: ihh, já vi muito disso, à primeira vista nada acontece, mas dá uma concussão e o fulano morre em dois dias". Por eu ser pedestre odeio carros e motos. Principalmente os que violam o sinal, porque provavelmente foi isso que aconteceu pra que houvesse acidente.
Daniel ria, todos ríamos e o dia ia ficando negro. 11h já parecia 18h... Chegamos na feirinha. Aliás, sem mentira, colocamos o pé no meio das barracas e caiu um pingo grosso em nós dois. Depois mais outro e outro. A chuva caiu violenta, todo mundo corria apavorado, as barraquinhas fechavam desesperadas. E eu olhando muito sarcástica daquilo tudo. Eu digo que Machado é deus. O guarda-chuva quebrou, Daniel centralizava o objeto mais na própria cabeça que na minha, tentei ignorar e ao mesmo tempo sentir auto-comiseração. Segurei o orgulho e fui andando molhada e com frio. E cantando. O que mais me dignava era o fato de que nada poderia piorar meus dias. Embora outro dia eu pensasse rindo: não é tão ruim que ainda não possa piorar. Acho que estava travando uma batalhinha interna com deus, não deixar que ele sentisse prazer nenhum em me castigar, não me entreguei, e fiz desfeita: "foda-se, to me divertindo, ó!". Orgulhosa.
Declaração de amor de uma chata: eu disse ontem ao Daniel: "você é minha única verdade absoluta". Mas será? Ah os chatos me contaminaram. Hoje eu lavava a louça e pensava no meu irmão dizendo: "você não vai escrever livro de auto-ajuda, mas de auto-destruição", e eu acho que vou mesmo. Estava pensando agora que sou uma heroína, em todos os sentidos: heroína de todas minhas histórias, heroína porque levo as pessoas pro inferno a longo prazo. Ou a curto?
Pensava que o Daniel era um dos muitos – todos são – "cavaleiros da vida". Quando eu argumento contra ela ele fica muito assustado e tenta justificá-la. Logo meus argumentos não têm contra-argumento e o Daniel pára e tenta me bater – quando não temos palavras, buscamos essa saída. É como um pai. Mas ele não me bate, obviamente, não no sentido normal de bater... Ele me dá cócegas, me ignora, algo assim que permita fingir que eu não condenei a vida com uma prova irrefutável. Fica fácil só dizer: eu sou uma chata. Mas a verdade é que argumentos – eu sei bem isso – não provam nada. É só um ponto de vista. E os melhores argumentos sempre são os meus com o Daniel. Têm gente muito mais difícil, muito mais teimosa... com essas sou eu que acabo batendo.
Eu tenho horror a que me sufoque, ou a ficar imobilizada. Algumas brincadeiras dessas me alarmam porque eu perco o controle de mim e fico desesperada. Não que o Daniel não tenha noção e abuse, eu que sou muito sensível pra isso. Eu não durmo, nunca mais dormi direito, com ele ao meu lado. Também não consigo escrever, fazer nada. Eu preciso pra muitas coisas estar sozinha, senão perco toda a força de ação e acabo pedindo o copo d'água em vez de ir buscar. As presenças me sufocam, eu só consigo ler. Por quê? Essa é uma coisa que precisa mudar. Talvez seja porque eu sou uma individualista crônica, mórbida, que se sente sufocada e imobilizada fácil demais... Daniel dorme fácil, pesado, mesmo que eu amasse ele contra a parede. E ele vive mesmo sem verdades absolutas, mesmo sem acreditar em deus, é uma coisa estranha, eu nunca entendi porquê ele vive. Nem ele. Acho que a diferença é que ele não acha relevante se fazer essa pergunta. Claro, eu também vivo, com pergunta ou sem. O problema é fazer coisas que me desagradam, aí cai por terra toda minha vontade de viver, que é muito frágil. Ele não liga nem pra isso, ele vive.
Na pensão não era assim, com três pessoas dormindo no mesmo quarto. Claro, minha cama era única, e por mais que eu tentasse, nenhuma pessoa ali tinha o valor de pessoa que dou para o Daniel.
Esse é um post romântico? Não, eu só estou orgulhosa da gente hoje. Como Sartre e Beauvoir deviam ser orgulhosos. Somos assim tão importantes? A importância é a gente que dá.
Como nos livros. Agora estou lendo 1984. Esse é um livro fácil de se interessar, estou lendo com vontade mesmo, esperando "o que vai acontecer". Nem todo o livro é assim, com propósito ativo, os outros devem ser escrito por força do tédio. E estes são os mais aclamados. E eu lhes dou força, possivelmente também serei uma escritora do tédio assim. A "Elite Cultural". É terrível pensar que o intelecto também é moeda.
1984 me lembra Harry Potter. Podem querer me surrar, mas me lembra. São ingleses, estranhos e têm uma sociedade estranha. É sombrio e têm geringonças como o falascreve. E isso não quer dizer que eu seja uma completa ingênua para o que o livro faz referência. Mas é, eu sou uma completa ignorante em matéria de política. Ou não tão completa assim.
Ontem pensei em pedir para o Daniel me matar de verdade, sem me contar. Mas não, tenho medo do inesperado. Além do quê ele seria preso e tudo mais, e o coitado não merece. E eu pensei que eu comprei uma câmera digital que vai chegar semana que vem, imaginei que seria cruel fazer o Daniel receber aquilo comigo morta. Seria como a cena do 21 gramas quando a mulher se emociona com os cadarços da filha. Por que o banal emociona? Ontem eu estava pensando isso. Talvez porque lembre que nessas pequenas coisas a gente não soube aproveitar, ou ainda mais porque essas pequenas coisas representem a vida, e acentuem ainda mais o fato de ela não estar mais lá.
Quanto aos livros e suas qualidades, eu não sou boa crítica. Eu nunca sei o que eu gosto e o que eu não gosto. Nem direito do que eu devo ou não devo gostar. É claro que eu falo isso por maldade, por me referir aos pseudo-intelectuais. Mas eu odeio essa nomenclatura, pra ser displicente e não correr o risco de ser ingênuo todo mundo usa "pseudo", finge desconfiar. O fingimento pra mim também é uma sufocação que me desespera.
Ainda sobre os livros – não estou conseguindo terminar a idéia, por medo de me sufocar também –, fico pensando que talvez seja a moeda do intelecto gostar de livros intelectuais que contenham filosofia e profundidade sobre a vida. Claro que eles são educativos. Mas é preciso dizer que não me sinto mais criança, e me sinto até uma inteligente insuperável (embora eu saiba que isso é um engano, mas também, por saber disso, a inteligência se comprova) e que por isso mesmo os livros intelectuais só batam na mesma tecla. Então preciso ler verdades absolutas, sobre bom e ruim, mas não algo que também leve isso às últimas conseqüências – senão acabo me irritando e também me angustiando. Os outros são quase lugar-comum. Mas, é claro, os outros pontos de vista são esclarecedores, diferentes. Mas os 7 volumes que li talvez tenham sido o exagero que me levou ao fundo do poço.
Outra coisa que me irrita muito é quando me julgam e rotulam, impacientes, sem saber da minha ambivalência. Ah, como detesto quando acham que por eu falar mal do niilismo, eu não sou niilista e vice-versa... é quase um enigma. Ninguém percebe, só eu, muito orgulhosa de ser e não ser. Eis que sou eu a questão. Como eu sou vaidosa. Isso também me esmaga.
Ontem ocorreram dois acidentes, se não me engano. É um barulho que eu sempre escuto por morar no centro: ranger de pneus freando e um "pô" seco. Por ser muito comum de se ouvir, eu antes achava que era só o pessoal evitando um acidente. Até que eu descobri que o pô realmente é uma batida. Eu achava que o barulho deveria ser bem mais estilhaçante e sonoro, mas não é. Ontem, domingo, eu estava indo pela primeira vez à feirinha do Largo da Ordem, eu e o Daniel estamos de ir faz séculos, mas somos preguiçosos, e eu odeio sair de manhã. Então ouvimos o barulho de acidente – foi aí que descobri –, eu não entendi em primeiro momento porque um homem inverteu de caminho de uma hora pra outra. Fiquei admirada: "poxa, comé que eles sabem pelo som?", era nosso caminho, um Audi no meio da rua, dois motoqueiros se revirando no chão, no meio do cruzamento. Sendo que me permito rir de minhas próprias desgraças, lógico que é um pequeno passo pra eu rir da dos outros. Primeiro eu comentei para o Daniel o fato de os caras estarem se contorcendo só porque viram que era um Audi que tinha batido neles, todo brasileiro tem dom pra jogador de futebol, dom pra cavar falta. Eles não pareciam de fato feridos, senão eu teria ficado assustada. Ficaram lá, deitados, em plena faixa de pedestres e eu ainda disse pro Dã: poxa, ninguém vem tirar os corpos? Tá atrapalhando pra que a gente atravesse. Mudamos de rota, atravessamos mais pra frente.
O dia acinzentava e eu comentava para o Daniel do povo que ficava se juntando pra ver o acidente, "deveria comentar: ihh, já vi muito disso, à primeira vista nada acontece, mas dá uma concussão e o fulano morre em dois dias". Por eu ser pedestre odeio carros e motos. Principalmente os que violam o sinal, porque provavelmente foi isso que aconteceu pra que houvesse acidente.
Daniel ria, todos ríamos e o dia ia ficando negro. 11h já parecia 18h... Chegamos na feirinha. Aliás, sem mentira, colocamos o pé no meio das barracas e caiu um pingo grosso em nós dois. Depois mais outro e outro. A chuva caiu violenta, todo mundo corria apavorado, as barraquinhas fechavam desesperadas. E eu olhando muito sarcástica daquilo tudo. Eu digo que Machado é deus. O guarda-chuva quebrou, Daniel centralizava o objeto mais na própria cabeça que na minha, tentei ignorar e ao mesmo tempo sentir auto-comiseração. Segurei o orgulho e fui andando molhada e com frio. E cantando. O que mais me dignava era o fato de que nada poderia piorar meus dias. Embora outro dia eu pensasse rindo: não é tão ruim que ainda não possa piorar. Acho que estava travando uma batalhinha interna com deus, não deixar que ele sentisse prazer nenhum em me castigar, não me entreguei, e fiz desfeita: "foda-se, to me divertindo, ó!". Orgulhosa.
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Coitadinhos... eles estão emporcalhando a minha paisagem!
Vamos pôr meu pensamento em ordem. Ele diz que eu preciso ajudar as pessoas, que meu individualismo/egocentrismo é bem confortável, amparado por um cinismo e uma generalização medíocre e que me torna aquele tipo de pessoa que eu não gosto: advogados, políticos corruptos e cínicos afins. Que eu sou capaz de ser teórica, mas não ajo, e culpo os outros por tudo ser assim ruim. Eu sou uma hipócrita que se redime assumindo os próprios erros com sarcasmo e vivendo como se fosse deus para o mundo: só observando. Tudo isso pode ser bem explicado pelo que eu também sou do outro lado, sou de não achar que é defeito o que eu sinto. E o que eu sinto/percebo/cheguei a conclusão sobre o mundo é que fazer não ajuda muito, que muitos fazem por si mesmo, ou pra se retratar dessa culpa que eu também estou sentindo, ou porque quer, como eu, livrar a face da terra da feiúra da miséria, por puro capricho e futilidade. Não há nada de altruísta realmente, e eu realmente não acredito nisso, é algo que já me tolhe. Eu podia mais uma vez assumir uma pose de personagem machadiana e sorrir com superioridade para este mundo perdido, sabendo que enfim eu vou morrer, eles vão morrer, todo o mundo vai morrer, eu só tenho essa culpa porque eles são da minha espécie e tralálálá, todo esse fatalismo que eu tenho e não ignoro nem quero mudar, seria falso comigo mesma porque eu acredito nesse fatalismo, ou nisso que é rotulado como tal e é geralmente atacado como ruim pelas nata da sociedade intelectual... há! Mas é o que sinto, não vou ignorar só para ser feliz, entendem? Não dá, está lá, ignorar seria sufocar uma idéia dentro de mim e eu tenho como rito religioso jamais me sufocar as idéias por medo de sufocar a mim mesma.
Esse é um post seco de confessionário, estava na hora de usar isso como puro e simples diário virtual, não que eu não tenha feito isso das outras vezes, mas por uma ou outra coisa eu usava um pouco de estética ou de discurso ou de estilismo, que seja.
Claro, essas idéias que eu também não reprimo para não me reprimir e ser livre acabam me esmagando de qualquer forma... com minha fácil tendência de generalizar eu concluo: o mundo é mesmo essa ambigüidade, não importa aonde você vá – para a esquerda, para a direita ou para o meio (isso me lembrou a propaganda da campanha da fraternidade), você sempre receberá a mesma recompensa – impossível ser livre. Mesmo o meio, digo isso e fico pensando porque talvez um sábio oriental dissesse (imaginem aqui o Miagi do Karatê Kid): os extremismos só levam à perdição, o caminho certo para a liberdade é o meio. Mas ainda seria uma liberdade com gosto de chuchu, de quem não se arrisca nem tem paixões.
Paixão... eis outra coisa que me faz ser o que sou, eu sou uma apaixonada, talvez porque tenha nascido e sido criada por uma escorpiana do mal (todos sabem que esse signo é mal, visceral, esquentado, sádico, luciferino, né?), essa minha paixão que me leva a sofrer com tanta força as coisas, me magoar tão fácil com a vida, como se fôssemos amantes mal-resolvidas que só se divertem na cama – eu já escrevi um conto ruim sobre isso – tudo isso me faz chorar aos gritos, cortar os pulsos ao menor sinal de ciúme, de perdição... enfim, me emociono fácil, fácil com essa merda patética de vida (a gente só se dá bem na cama e eu ainda tenho dor de cabeça na maioria das noites!). Mas, do mesmo jeito que me esquento com a vida, sou lânguida como água no fundo do meu ser, acho que eu muitas vezes me esquento de propósito porque é preciso ser ou não ser, e o não ser sendo é mais terrível ainda. A vida me desencanta, me dá vontade de dormir e dormir porque já está tudo perdido e infalivelmente desnecessário (imaginem aqui o meu amiguinho Marvin do Mochileiros, queria ter um robô daquele pra me fazer companhia!). Eu podia estar sendo sarcástica agora pra não receber de vocês comentários do tipo: tome prosac, vadia; geralmente eu tenho senso de humor pra afastar tudo isso (que de qualquer forma é uma fuga boba de ser não ser aceita), não sei se vocês já perceberam porque por mais que eu ache que escrevo as coisas simplesmente fácil de entender o povo entende outra coisa, a interpretação é uma coisa muito estranha mesmo... e como eu "erro" também, prefiro achar que interpretação diversificada é uma coisa muito bonita na vida. Outro dia estava olhando pra minha própria sombra – pra criar aquele efeito de escritora melancólica bonitinha, ahã – e criei uma metáfora que não achei nem um pouco interessante de ser passada pra frente, na certa muitos filósofos já pensaram isso antes, o que me faz lamentar um pouco ter nascido tão tarde – eu já falei sobre isso outras vezes, é. Bom, eu reparava que minha sombra não tingia totalmente o chão de negro, não, as pedras continuavam coloridas, mas um colorido mais opaco dentro das nossas proporções também meio incertas, um cinzento meio distante da realidade da cor das pedras. Sendo assim, as interpretações seguem o mesmo rumo: dentro de nossas idéias e valores e sobre a vida e a idéia de si mesmo (que também é meio incerta). Legal pensar isso das interpretações, porque talvez elas tenham um pouco de nós mesmos, ou um muito do que nós somos, aí está o bonito das interpretações, esse é o conjunto que só nos temos (talvez, há tantas pessoas e combinações na terra...).
Mas voltando ao que me oprime: eu não faço nada por ninguém porque sou fatalista e cínica, isso me ajuda a continuar sendo um ser humano egoísta e ruim – por mais que isso seja relativo, mas, objetivamente, a relatividade não é interessante pra quem tem fome.
Outra coisa que me tolhe é minha preguiça de fazer algo, geralmente eu estou muito ocupada fazendo coisas pra mim mesma e isso também não é muito. Mas sejamos bem maus: o que é que o mendigo faz por mim? O que ele faz por ele mesmo? Porque ele não FAZ alguma coisa? Outro dia pensei em dar um chacoalhão neles e dizer: sai dessa, cara, vai estudar, é de graça e pode te trazer novos horizontes, te trazer uma vida de verdade, você pode conseguir um emprego, um dia uma casa e se sentir importante. Ou se mata. Ainda me pergunto o que tem errado nessa minha idéia... Será que é porque eu também dependo muito de esmolas dos outros? Seja... mas eu também busco me desprender desse vício, por mim mesma, porque eu não acredito na caridade dos outros também, seria desesperador precisar da ajuda de alguém pra comer e não ter... como eles. É preciso fazer ALGUMA coisa... e embora a ajuda imediata de dar esmolas seja objetiva e mate a fome, se formos terra-a-terra (coisa que eu não sou mesmo), é claro que essa dependência vai ser uma subvida eterna e me deixa culpada pensar: eles não se podem se dar ao luxo de comer quilos de chocolate porque estão tristes, ou de fazer teorias filosóficas inúteis que lhes permitam transcender inutilmente, ou ler algo que lhes faça sentir que o mundo é bonito. Talvez eles só passem o dia pensando em comida e cama, comida e cama... É preciso dar pra eles algum sonho, não é? Não que eu seja mais feliz que ele porque penso em coisas (sou mais feliz, sim, por comer coisas, mas não por pensar)... mas é necessário que eles tenham expectativas... que eles se sintam humanos como os outros. É isso que eu acho mais injusto: não é o fato de eles sentirem fome tanto, ou o frio, mas o fato de eles não se acharem nada. E isso é um valor meu, de qualquer forma, é algo que acho importante pra viver de verdade, não seria também isso o que eu devia lhes dar em vez de um dinheiro imediato porque o que eu sou é uma pessoa subjetiva? Eu serei professora, eu ajudarei pessoas um dia. Mas ainda não é agora, e agora ainda existem milhares com fome e pressa.
E se eu desse aquilo que eu acho mais importante e necessário: carinho e atenção? Eu tenho medo que eles me agridam, essa é a verdade. Eu não sei qual será a reação... poxa, tenho medo de ser repreendida, mal entendida, afinal estou frágil a milhões de críticas... de qualquer forma ninguém está imune a elas, nem deus!
Vamos fazer uma corrente do bem, então, assim eu me sentirei fazendo algo. O próximo mendigo que virmos – se não tivermos pressa – vamos conversar, perguntar o que ele faz da vida, o que ele quer para o futuro, o que ele pode fazer pra sair daquilo. É uma ajuda, não é? Como aquelas frasezinhas clichês: ajudar a pescar e não dar o peixe. É uma verdade, é ou não é? Mas voltando a mim mesma, eu não consigo achar tempo, eu tenho meus próprios problemas, e estou me afogando neles. Eu não tenho amigos, vida social, nem tempo pra me divertir, eu preciso disso... sabe o que mais me deixa encafifada? Inexplicavelmente, se todo mundo tivesse a força do egoísmo que eu tenho, todo mundo seria feliz e teria oportunidades no mundo.
(mesmo assim, não seriam os mendigos uns egoístas acomodados como eu?)
Eu e minhas generalizações!... E ambivalências... ?!
Esse é um post seco de confessionário, estava na hora de usar isso como puro e simples diário virtual, não que eu não tenha feito isso das outras vezes, mas por uma ou outra coisa eu usava um pouco de estética ou de discurso ou de estilismo, que seja.
Claro, essas idéias que eu também não reprimo para não me reprimir e ser livre acabam me esmagando de qualquer forma... com minha fácil tendência de generalizar eu concluo: o mundo é mesmo essa ambigüidade, não importa aonde você vá – para a esquerda, para a direita ou para o meio (isso me lembrou a propaganda da campanha da fraternidade), você sempre receberá a mesma recompensa – impossível ser livre. Mesmo o meio, digo isso e fico pensando porque talvez um sábio oriental dissesse (imaginem aqui o Miagi do Karatê Kid): os extremismos só levam à perdição, o caminho certo para a liberdade é o meio. Mas ainda seria uma liberdade com gosto de chuchu, de quem não se arrisca nem tem paixões.
Paixão... eis outra coisa que me faz ser o que sou, eu sou uma apaixonada, talvez porque tenha nascido e sido criada por uma escorpiana do mal (todos sabem que esse signo é mal, visceral, esquentado, sádico, luciferino, né?), essa minha paixão que me leva a sofrer com tanta força as coisas, me magoar tão fácil com a vida, como se fôssemos amantes mal-resolvidas que só se divertem na cama – eu já escrevi um conto ruim sobre isso – tudo isso me faz chorar aos gritos, cortar os pulsos ao menor sinal de ciúme, de perdição... enfim, me emociono fácil, fácil com essa merda patética de vida (a gente só se dá bem na cama e eu ainda tenho dor de cabeça na maioria das noites!). Mas, do mesmo jeito que me esquento com a vida, sou lânguida como água no fundo do meu ser, acho que eu muitas vezes me esquento de propósito porque é preciso ser ou não ser, e o não ser sendo é mais terrível ainda. A vida me desencanta, me dá vontade de dormir e dormir porque já está tudo perdido e infalivelmente desnecessário (imaginem aqui o meu amiguinho Marvin do Mochileiros, queria ter um robô daquele pra me fazer companhia!). Eu podia estar sendo sarcástica agora pra não receber de vocês comentários do tipo: tome prosac, vadia; geralmente eu tenho senso de humor pra afastar tudo isso (que de qualquer forma é uma fuga boba de ser não ser aceita), não sei se vocês já perceberam porque por mais que eu ache que escrevo as coisas simplesmente fácil de entender o povo entende outra coisa, a interpretação é uma coisa muito estranha mesmo... e como eu "erro" também, prefiro achar que interpretação diversificada é uma coisa muito bonita na vida. Outro dia estava olhando pra minha própria sombra – pra criar aquele efeito de escritora melancólica bonitinha, ahã – e criei uma metáfora que não achei nem um pouco interessante de ser passada pra frente, na certa muitos filósofos já pensaram isso antes, o que me faz lamentar um pouco ter nascido tão tarde – eu já falei sobre isso outras vezes, é. Bom, eu reparava que minha sombra não tingia totalmente o chão de negro, não, as pedras continuavam coloridas, mas um colorido mais opaco dentro das nossas proporções também meio incertas, um cinzento meio distante da realidade da cor das pedras. Sendo assim, as interpretações seguem o mesmo rumo: dentro de nossas idéias e valores e sobre a vida e a idéia de si mesmo (que também é meio incerta). Legal pensar isso das interpretações, porque talvez elas tenham um pouco de nós mesmos, ou um muito do que nós somos, aí está o bonito das interpretações, esse é o conjunto que só nos temos (talvez, há tantas pessoas e combinações na terra...).
Mas voltando ao que me oprime: eu não faço nada por ninguém porque sou fatalista e cínica, isso me ajuda a continuar sendo um ser humano egoísta e ruim – por mais que isso seja relativo, mas, objetivamente, a relatividade não é interessante pra quem tem fome.
Outra coisa que me tolhe é minha preguiça de fazer algo, geralmente eu estou muito ocupada fazendo coisas pra mim mesma e isso também não é muito. Mas sejamos bem maus: o que é que o mendigo faz por mim? O que ele faz por ele mesmo? Porque ele não FAZ alguma coisa? Outro dia pensei em dar um chacoalhão neles e dizer: sai dessa, cara, vai estudar, é de graça e pode te trazer novos horizontes, te trazer uma vida de verdade, você pode conseguir um emprego, um dia uma casa e se sentir importante. Ou se mata. Ainda me pergunto o que tem errado nessa minha idéia... Será que é porque eu também dependo muito de esmolas dos outros? Seja... mas eu também busco me desprender desse vício, por mim mesma, porque eu não acredito na caridade dos outros também, seria desesperador precisar da ajuda de alguém pra comer e não ter... como eles. É preciso fazer ALGUMA coisa... e embora a ajuda imediata de dar esmolas seja objetiva e mate a fome, se formos terra-a-terra (coisa que eu não sou mesmo), é claro que essa dependência vai ser uma subvida eterna e me deixa culpada pensar: eles não se podem se dar ao luxo de comer quilos de chocolate porque estão tristes, ou de fazer teorias filosóficas inúteis que lhes permitam transcender inutilmente, ou ler algo que lhes faça sentir que o mundo é bonito. Talvez eles só passem o dia pensando em comida e cama, comida e cama... É preciso dar pra eles algum sonho, não é? Não que eu seja mais feliz que ele porque penso em coisas (sou mais feliz, sim, por comer coisas, mas não por pensar)... mas é necessário que eles tenham expectativas... que eles se sintam humanos como os outros. É isso que eu acho mais injusto: não é o fato de eles sentirem fome tanto, ou o frio, mas o fato de eles não se acharem nada. E isso é um valor meu, de qualquer forma, é algo que acho importante pra viver de verdade, não seria também isso o que eu devia lhes dar em vez de um dinheiro imediato porque o que eu sou é uma pessoa subjetiva? Eu serei professora, eu ajudarei pessoas um dia. Mas ainda não é agora, e agora ainda existem milhares com fome e pressa.
E se eu desse aquilo que eu acho mais importante e necessário: carinho e atenção? Eu tenho medo que eles me agridam, essa é a verdade. Eu não sei qual será a reação... poxa, tenho medo de ser repreendida, mal entendida, afinal estou frágil a milhões de críticas... de qualquer forma ninguém está imune a elas, nem deus!
Vamos fazer uma corrente do bem, então, assim eu me sentirei fazendo algo. O próximo mendigo que virmos – se não tivermos pressa – vamos conversar, perguntar o que ele faz da vida, o que ele quer para o futuro, o que ele pode fazer pra sair daquilo. É uma ajuda, não é? Como aquelas frasezinhas clichês: ajudar a pescar e não dar o peixe. É uma verdade, é ou não é? Mas voltando a mim mesma, eu não consigo achar tempo, eu tenho meus próprios problemas, e estou me afogando neles. Eu não tenho amigos, vida social, nem tempo pra me divertir, eu preciso disso... sabe o que mais me deixa encafifada? Inexplicavelmente, se todo mundo tivesse a força do egoísmo que eu tenho, todo mundo seria feliz e teria oportunidades no mundo.
(mesmo assim, não seriam os mendigos uns egoístas acomodados como eu?)
Eu e minhas generalizações!... E ambivalências... ?!
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