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Filosofia Crônica
Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
O que as formigas dizem quando se encontram
O advento da adolescência nunca mais foi o mesmo depois da invenção do blog. Adolescentes nunca mais discutiram com os pais, pelo contrário, ouvem serenamente tudo o que eles têm pra lhes dizer. Pra decorar e postar em seus respectivos blogs e assim poder xingar por escrito e publicamente como pais conseguem ser escrotos. E como diria Shakespeare e Catulo e aqueles outros poetas da época de Catulo, o que se escreve é poderoso e dura para sempre. Suas musas e seus amores, assim, duram mais que construções, e de geração em geração o amor vai se transmitindo a cada leitor e... enfim, esse xingamento poderoso será transmitido por gerações de pessoas, e será mais forte que tudo, e por muitos, e muitos, e muitos anos seus pais serão lembrados como escrotos que foram, graças ao dinheiro e a oportunidade que eles mesmos deram. Por isso eu tomo pílula. E uso camisinha. E por isso não movo um músculo pra me indignar. Minha vingança resistirá. - Ela está estudando lá em Curitiba. - Oh, é mesmo, se fossem meus filhos eu não agüentaria! "Seus filhos são uns incapazes dependentes". - É, a gente tinha até pagado a matrícula dela numa faculdade pra ela aqui, mas ela preferiu ir pra lá... bom, eles que sabem, né? "Peraí e aquela parte do orgulho, vocês pularam!" - É... - A gente foi até buscar a palavra pra saber o que fazer... e então um irmão levantou pra falar do filho adolescente. Contou que o filho estava muito revoltado, sabe, usando arma, queria sair de casa. Um dia ele voltou pra casa o pai foi preparado pra dar uma surra nela, mas então Deus disse "o que você vai fazer?", e ele parou, viu que não era pra fazer nada. Hoje o filho dele tá bom, até voltou pra graça... "Claro, claro... caso similar ao meu. De vez em quando pego minha arma e saio atirando em homossexuais, aqueles seres impuros." - É... Deus sabe o que faz! - Então, ela fez cursinho três meses, daí parou e decidiu estudar sozinha, ela pegou os livros e estudou, estudou bastante... "Estudei o caralho" - Hum... - Então nós deixamos ela ir pra lá, ela tem 18 anos, né? Sabe o que faz... "Vocês deixaram porra nenhuma, Daniel que pagou a inscrição pra mim, desgraçados" - É... - Mas que bom, né? Passou, é difícil passar numa faculdade federal! "Ah, a parte do orgulho!" - É, Deus sabe o que faz, depois volta e fica tudo bem... é a idade. "Ok, tá bom. Vamos combinar assim. Vou fazer um pacto com Deus, eu volto pra igreja, assim que ele demonstrar sua existência e onipotência com uma chuva de canivetes." Quanto ao título. Estou lendo O Nome da Rosa e percebi uma coisa: monges e frades de séculos atrás e a minha família e sua religião não têm a menor diferença. É a mesma enlevação ao falar de deus, toda vez que se encontram não é pra falar "oi, tudo bem?" e sim pra falar "a paz de Deus! Como vai, muitas provas? Mas Deus sabe, o pequeninho vive de muito sofrimento, e Deus diz que o pequenininho sofre pra chegar aos céus, o caminho é estreito." e outras variações. E eu juro que eu não estou exagerando. Até falando do tempo eles incluem Deus na conversa. Saudade de quando era pecado usar o nome de Deus em vão.
Penitenziagite.
(E minha mãe acaba de comprar um colchão que vibra dos "irmãos". Por uma bagatela de 1300 REAIS. 1300! Isso mesmo. Porque eram "irmãos" da igreja dela. Um colchão vibrador. E ela fazendo cu doce pra comprar um copo do 1,99 pro meu apartamento. Eu a odeio. Ela, a ignorância dela e o novo vibrador inútil dela.)
Marcely contou às 1:11 AM
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Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
A Radioativa
Estava parada atrás da porta achando que nunca iam me achar - isso ensinou nossos ancestrais -, e quando vi a luz se acender, ainda assim, não tive medo. Mas devia ter pensado mais quando vi o vaso sanitário e não deu outra, ela fechou a porta. Me dei conta que eu devia ter pensado nisso antes, estava num banheiro, as pessoas olham atrás da porta, então tentei fugir batendo minha cabeça contra alguma fresta que me deixasse sair, mas isso que foi a maior burrice minha, antes eu tivesse ficado quieta.Ela me percebeu, então me debati mais desesperada ainda contra a porta. Sem fôlego a vi com aquele olhar sádico, demorada, como a demonstrar superioridade a mim - esses desgraçados! -, vinha em minha direção. Corri para o canto da parede, essa estratégia sempre dá certo, o pé não conseguiu me alcançar, aproveitei enquanto ela se recuperava e saí em disparada para o lado oposto, de onde tinha vindo. Havia uma rampa no meio do caminho, continuei correndo e pulei. Fiquei mais aterrorizada do que nunca aquelas senhoras frenéticas e fóbicas ficaram ao me ver - isso porque jamais as tentei matar -, caí do outro lado de cabeça para a baixo, pernas pro ar, sem conseguir me reerguer. Lutei sem fôlego, o pavor me cegava, pode ter sido impressão minha, mas senti até suor, um calor me sufocando por dentro. Foram segundos, vi o sorriso triunfante e debochado de minha condição se aproximar, o pé - era uma havaiana preta, nunca me esquecerei, da cor da morte, pisou em mim. Não a ponto de me matar, mas me machucou muito, enrolou-me numa daquelas coisas brancas que ficam no banheiro e me jogou direto na privada - ainda me restava a esperança de ser na lixeira e eu conseguir me livrar. Ela deu descarga, todo o calor do meu corpo sumiu, fui levada rapidamente pela força da água e logo perdi as forças e o sentido. E foi assim que voltei para cá, nem sei como foi que consegui, mas também jamais recuperei a força nas patas. Nunca desisti de viver, ainda que inválida. E, sabe, valeu a pena, conto aos meus netos e vejo no rostinho deles o deslumbramento e a admiração por mim, me sinto até uma barata inteira e com forças. Se tem uma coisa que eu aprendi é nunca deixar de ensinar às outras, para que não passem pelo mesmo que eu. O cantinho da parede, aprendi com o meu avô, se tivesse ficado lá talvez isso nunca tivesse acontecido.
Marcely contou às 12:39 AM
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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
Seleção sexual (ou uma darwinista de tpm)
 Macho e fêmea da mesma espécie.
  Macho e fêmea da mesma espécie.
Para maiores e outras informações leiam este texto do qual eu estou quase discordando.
Tudo bem que na maioria das outras espécies são as fêmeas que escolhem os machos com o qual querem procriar através da seleção sexual (exemplo o pavão, ele só tem aquela cauda pra atrair a fêmea pra acasalar com ele), mas é por uma questão social, histórica e, na minha opinião, principalmente numérica que com a espécie humana é diferente. Quanto à parte financeira - prover melhor ninho pros descendentes - eu até concordo que exista uma escolha maior por parte das mulheres, senão a gente não viria caras como o Ronaldinho tão bem acompanhados. Seja como for nem em casos como esses são elas que escolhem. No caso dos pássaros que em sua grande maioria é composta de machos vistosos e fêmeas apagadas, há uma proporção simples: machos abundantes para fêmeas em menor quantidade, é óbvio que o maior interessado em conseguir uma parceira é o macho, então é ele quem tem que se destacar pra conseguir ter descendentes. No caso dos seres humanos são muito mais mulheres para poucos homens, e assim como no capitalismo, é uma disputa de mercado em que só a melhor plumagem ganha. Simples, matemático, sem questões como inferioridade intelectual ou costelas perdidas.
? Autor da teoria da evolução e "autor" da teoria criacionista, respectivamente da esquerda pra direita.
 Seria Adão porque está sem costela ou Eva por estar sem cérebro?
Marcely contou às 11:22 PM
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Acento de cu 'e rola
Minha vida sempre foi uma merda e assim continuar'a. Um exemplo disso 'e que eu namoro uma pessoa que vive na frente do computador e quando vou mexer num para escrever ele SEMPRE est'a desconfigurado, sem alguma coisa que preciso, porque no m'inimo a cada uma semana ele est'a instalando novamente um sistema. Ent~ao 'e claro que aqueles contos legais que sumiram ficaram em algum lugar daqueles backups mal-sucedidos porque o tal sistema n~ao aceita um acento, uma letra mai'uscula em nome de arquivos. Mas tudo bem, foda-se, porque o centro da minha vida n~ao gira em torno disso, certo? Errado, quando voc^e vai passear na casa de algu'em que vive em frente ao computador instalando e desinstalando softwares, voc^e n~ao tem muita alternativa do que fazer a n~ao ser mexer num dos tr^es ou quatro computadores jogados pelo quarto (se um deles n~ao estiver desmontado ou todos usados pelo dono ao mesmo tempo). Ent~ao n~ao pensemos muito no que fazer, vamos l'a e fazemos tipo... o qu^e? Eu n~ao sei onde ficam as coisas nesse lugar, tamb'em n~ao me sinto empolgada em sair sozinha, e muito menos me empolgo em fazer outra coisa fora de casa que n~ao seja comer ou assistir filmes, coisas assim. Ainda assim eu tenho muito o que comemorar. Fora aquelas f'erias em que viagei prumonte de lugares que nem me lembro mais, estas t^em sido minhas f'erias mais divertdias e agitadas, embora eu de vez em quando sinta falta das partidas de buraco com minha falecida av'o. Talvez eu n~ao devesse pensar muito 'e antes de dar um tiro na cabe'ca. Assim como n~ao penso muito antes de ficar 'acida e reclamar, reclamar, pois j'a vivo como algu'em de 80 anos, exceto pelos reumatismos e a falta de dentes. Eu ia p^or na minha agenda uma lista de caracter'isticas que eu n~ao vou procurar no sucessor(a) do D~a~aniel, depois que ele morrer de intoxica'c~ao alimentar: sonol^encia; nerdice; mudez; miopia (porque embora sirva naquele neg'ocio de me achar atraente, eu n~ao sei ser delicada com 'oculos). Mas mudei de id'eia, talvez seja bom para a respira'c~ao dos meus filhos o pulm~ao mais largo herdados do pai e se o D~a~aniel tem 3 computadores pra criar e 'e t~ao dedicado, diz minha biologia que ele ser'a um bom reprodutor de nossa esp'ecie. (imaginando eu entrando na casa e dando de frente com o Daniel deitado com uma faca na m~ao e nosso filho de 6 anos aberto: "que 'e isso, Daniel?", "to vendo como funciona, talvez d^e pra comprar uns 'org~aos mais baratos no mercado negro e incrementar nosso filho com uma placa de v'ideo melhor, depois instalo o Batatinha Assada System nele pra ver se roda", e cada dia encontraria meus filhos avariados, diferentes, com aplicativos faltando e fanhos).
Marcely contou às 10:40 PM
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Desfância ^^
Aninha bateu à porta da amiga e Lucinha apareceu. - Quer ir em casa? - Sua mãe foi pra igreja? - Foi. - Vou perguntar pra minha mãe. - Tá. Lucinha apareceu de novo: - Olha só minha saia, estou igual à você. - É rodada...! Gira! Lucinha girou. Aninha que queria tanto poder ser a amiga pra usar shorts deveria ter achado ironia que Lúcia achasse interessante estar igual a ela. E foi grata e sorriu, era bonita, a saia, estampada com frutinhas, rodava alto e se abria. Quase chorou porque a amiga não tinha vergonha de ser como ela. Menos de dez passinhos e lá estava a casa de Aninha. - Vamos brincar de quê? - Quer jogar carta? Era o irmão mais velho de Ana, Lucinha respondeu: - Só sei jogar mico. - Eu ensino um jogo novo. As regras eram assim, elas pegavam uma carta e ele debaixo da mesa deveria adivinhar qual era. Elas acharam graça. Era um valete, elas chamavam de jota. - Cinco! - NNããoo. Lucinha queria trocar de jogo. Aninha ainda achava legal: - Vamos jogar, só mais um pouco... Lucinha deixou cair uma carta. - Deixa que eu pego. Não pode olhar aqui embaixo senão adivinho qual é a carta. Aninha não abaixou. Lucinha fazia sinais, apontando pra baixo da mesa, mas Aninha não aceitava trapassear. Até que a insistência da amiga convenceu, tá bom, só uma olhadinha. E lá estava o irmão, baixada a calcinha da amiga. Por causa da sainha. Aninha ficou paralisada. Culpa dela não ter parado quando Lucinha pedira, olhado quando Lucinha apontara. Ainda assim não entendia. Ficou branco e parado dentro, uma bola vermelha e quente na cabeça. Por que nunca suspeitava das coisas? Todas as coisas passaram a ser suspeitas e estranhas, longe do entendimento. E teve medo. - Vamos brincar de outra coisa.
Marcely contou às 6:05 PM
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Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
Don't analyze
Por um momento eu pensei que deveria, seria bom que eu morresse... pouco depois me assustei porque faz tempo não sinto isso. Não é também bem isso, quem iria entender? Mas me sinto imprópria pra viver, e é bem isso. Talvez – e é –, seja simplesmente porque me criaram pra ser assim, mas me sinto e sou sempre tão insegura, tão vulnerável e viciosamente me acomodo a sustentar minha fraqueza pela própria fraqueza. Se sou insegura ou não, tão imbecil que sou, é por isso. Não faço amigos com facilidade, pra uns eu levo a vida sério demais, ou por esse ou aquele defeito... e eu me sinto sempre injustiçada. Mas se sou eu a única que continua só de quem é a culpa? Ou eu falo demais, ou falo pouco demais, de tão crítica me calo quando alguém me parece idiota, ou quando alguém me parece superior. E me calo talvez porque me assuste ao ver que nem sempre somos iguais como eu gostaria... Todo mundo deve passar por isso, mas o meu erro é justamente não enxergar... todos parecem tão mais sabidos das regras de boas maneiras, coisa que eu nem sei onde aprender de tão estranha para o mundo. E isso é meu orgulho e minha inferioridade. Eu me sustento, eu digo. Tenho medo de sair sozinha e cair na rua sem alguém ou um rumo pra tomar que me ampare. Não vejo necessidade, nem tenho a capacidade pra isso. O defeito maior é me sentir incapacitada pra tudo. Justamente também porque não me esforço. Também por causa disso. Se eu chorasse para o Daniel me pareceria uma nota fora do compasso, assim também é quando escrevo agora, deixando ele de lado porque preciso escrever como se eu estivesse forjando uma novela de a escritora problemática. Eu me fodo pelas aparências, e me choco se for aparentar... e por isso projeto aparências falsas. Porque algumas verdadeiras pareceriam falsas. Sou tão ingênua que até pra matar minha ingenuidade ajo ingenuamente. Eu queria ser a amiga de uma porção de amigos, viver a vida intensamente. Não pra manter aparências falsas como tantos outros que, como eu, vivem desajustados e mentem. Quem é assim não precisa pôr cartazes, é coisa natural. Sempre achei que quem diz que a vida não deve ser levada a sério diz isso porque a leva assim, senão não chegaria a essa opinião sozinho. E eu ainda estou desajustada, eu ainda me sinto presa dentro de um sonho que eu não sei bem a moda que devo seguir e acabo indo ao velório nua. É sempre assim e eu retiro as roupas dos outros pra entender “por que essa, essa, essa e essa tribo?”, e a qual delas minha opinião se encaixa? E se não quero que seja de nenhuma, se alguma for eu engulo. Eu vivo séria demais, sempre me perguntando se estou feliz ou triste, nunca entendendo os meio-termos ou me dando por satisfeita por outros assuntos. Disse as cartas, hoje mesmo – não me perguntem de onde tirei esse misticismo – que pra ser escritora deveria ser menos crítica, sempre achei isso... Mas eu não consigo, eu não era assim, mas de tanto, tanto, tanto que tentaram me rotular, criticar, a vida toda, é minha defesa saber os trunfos do inimigo. Me tornei o inimigo. E daí que eu mesma me torno meu monstro. Eu queria retirar esse blog do ar, os comentários... nem sei bem o que eu queria fazer. Me chamem de paranóica, ultimamente tenho percebido que cada vez estou mais sim, mas tudo o que escrevo agora é com medo das mesmas críticas, os mesmos rótulos. No caso desse texto seria: um clichê, um suspiro emo-adolescente, um texto de “olha-eu-aqui como sou marginal”... tantas coisas. E eu só queria que entendessem, todo mundo, que me critica, o tempo todo e esperam algo de mim que não é isso, sou só eu, a minha vida, minha expressão, por que eu me sinto tão sufocada por tão pouco? Eu queria parar de classificar. E todo dia que abro a caixinha de comentários me apavoro porque vão dizer coisas, talvez verdades, mas que eu estou cansada de me ouvir e de me justificar. (Não sei de onde tiro essas idéias, nenhum de vocês me criticaram até agora desse jeito (talvez porque eu mesma faça isso comigo e com os outros)). Mas, o que quer que estejam pensando, eu não sou isso. Daqui pra frente lembrem-se disso.
Marcely contou às 5:05 AM
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Quarta-feira, Janeiro 11, 2006
Drogas
Sentada no chão, cabeça e costas encostadas numa poltrona, braços e pernas e olhos jogados: - Dá pra ir pra qualquer lugar sentada... - E dizem que drogas inspira, puta merda, porque você acha que se diz disso uma viagem, sua retardada? Um gordo assistindo tv faz o mesmo, um nerd aborrecido na internet também, um motorista de ônibus também. Isso não é nada. - Cachoeira não existe. Guimarões Rosa disse. - Nem você. - Existo e não existo, Guimarões Rosa disse. - Isso a Marcely disse. - Quem disse? - Eu. - Não, a Marcely disse. - Eu disse. - Mas, se você diz, não é ela quem está dizendo? - E se ela não existe, se só a gente existe e controlamos ela pra que existamos? - Se controlamos pra existir é porque só ela existe... - A gente inventou ela, é o que quero dizer. - Por quê? - Justamente, pra existir. - Não é verdade, viveremos só por 10 minutos, porque não existimos... ou só dessa vez. E quando lerem, outros iguais serão criados, aberrações parecidas, um sem perna, outros sem umbigo... a maioria não imagina umbigos. - Sua babaca, só existiremos por 10 minutos porque fumamos crack. - Não agora. - Não agora. - Então quando? - Sempre, antes. - Tá vendo...? Te disse, estamos sendo escritos.
Marcely contou às 10:15 PM
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Quarta-feira, Janeiro 04, 2006
Nada que acrescente
Duas e meia e Daniel tava dormindo que era uma beleza. Fiquei assistindo com muita angústia o final daquele filme com a sogra sádica e homicida e pá, final feliz recompensando minha vontade de ligar pra personagem do filme que era o marido dela pra ele ir lá salvar ela e o filho. Terminou, desliguei a tv, ainda sem sono, fiquei girando pra lá, pra cá, levantando a perna pro ar, enfim, até que comecei a pensar que, se [s] e [z] são foneticamente semelhantes a não ser pelo fato de uma ser surda e a outra vozeada, se eu sussurasse uma palavra com [z] ia parecer [s], já que no sussurro a gente não usa a voz. - Mazzela, mazzzzela, mazela, mazela. Daniel dá um tapa na minha cabeça. - É um estudo científico, Daniel, vou sussurrar pra você e veja se descobre se estou falando ¨zela¨ ou ¨cela¨... zela, zela, zela, zela, zela.......... - nada - zela, cela, zela, cela... você vê diferença? - Um pouco... - Pato bato pato bato pato bato... ... - Saussurre dizia que o signo é arbitrário. Quatro, quatro e meia, por aí, eu quase conseguindo pegar no sono e: - Eu fui abrir a Sidra e a tampa vôou, quicou na parede de fora da cozinha e foi parar lá no quarto da Catucha... Maior pressão, deve ser por causa do gargalo longo e... - Nossa, se pega em você quebra seu nariz... - É, aquele gargalo longo forma pressão e (insira algo de explicação física aqui)....... Deve ter sido essa garrafa que aquela menina se masturbou - qual o menino que não conhece a lenda da menina que foi se masturbar com uma garrafa que criou vácuo e ela teve que ir de saia para o médico, acompanhada com os pais, pra conseguir tirar? -, por ser longo o gargalo cria maior vácuo e é melhor pra... pro... - ...É mais anatômico. - É. Mas que idiota, né, meu? Ela devia ter segurado dos lados e batido o fundo pra quebrar, ou enfiado um canudo perpendicular ao gargálo pra tirar um pouco da pressão a não ser que... (insira mais explicação física). - Hum... ô.o ... - Hahahaha... quando eu era pequeno colocava umas almofadas da minha avó na frente da escada e subia uns dez degraus e pulava.... Nossa, que sem noção, eu não faço isso nem hoje em dia...! - reparem no ¨eu não faço isso nem hoje em dia¨. - Uma vez eu caí de uma escada enorme....... - Por quê? Tentando lembrar porquê lembrei de vários flashes de eu caindo da escada: um em que minha mãe vendo que eu cairia, institiva e heroicamente me abraçou e foi rolando comigo até em baixo, outro em que não minha mãe, mas uma menina negra de trança que sabia tocar piano (eu admirava ela, seja quem for que era) que caía junto comigo, mais ou menos abraçada. Em outro ainda era meu primo contando que já tinha caído e algumas outras crianças também e que era muito legal cair, e que a mãe dele pegou ele no colo depois. Se eu realmente caí ou me joguei (e se foi com mais alguém) eu não tenho certeza, só tenho a lembrança de uma enorme escada de pedra que ia até uma porta, e uma lembrança bastante vívida (ou pelo menos detalhada) de ir quicando, rolando, de um lado pro outro, pelos degraus. - Eu não sei se caí, se minha mãe caiu comigo... - Não viaja, Marcely... - Me deu vontade de fazer xixi... - lembrando do copão de sidra que eu tinha tomado. - Vai lá. -... De repente me dei conta de que estava com medo. Não tinha idéia do porquê também. A única coisa que me ocorreu - grandes probabilidades de que tenha sido exatamente isso - foi de ter lido O Menino do Dedo Verde e isso ter me impressionado. E não me perguntem porquê eu me impressionaria com O Menino do Dedo Verde, acho que foi simplesmente por despertar minha imaginação que é bastante fértil (e/ou eu que sou crédula demais). Mesmo assim me levantei. Levantei, me assustei com algo e corri de volta pra cama. - Que foi isso, Marcely? - Eu vi alguma coisa branca se mexendo. - Que coisa branca se mexendo, Marcely, não viaja... Levantei, vi de novo, e corri de novo pra cama. Ele me força a acender a luz e mostrar o que era... Era um livro. Fui ao banheiro, sendo que ele fica de frente pra escada. Eu sempre acredito que algum assassino ou monstro irá estar lá embaixo, e sempre tenho medo de olhar, e sempre olho porque o meu medo mesmo é ser pega desprevenida (também sempre verifico dentro do box do banheiro), pois por mais que eu já tenha 19 anos e seja racional, eu levo minhas alucinações em consideração justamente porque tenho medo de, se ignorá-las, ser pega desprevinida. Assim como só alimento minha hipocondria porque acho que a hora que eu duvidar que aquela dor de cabeça é um tumor, aí sim é que vai ser. A vida é irônica. - Coisa se mexendo, né? - aquela voz adocicada assustadora. - Não me bate! - Não, vem cá, vem, vem deitar... - Por favor! - Deita... deixa que eu te cubro... - Não me mata! Eu sempre acredito na atuação de pai estúpido do Daniel.(E isso não é nenhum fetiche, ok, mentes podres e freudianos de plantão?). Cinco, cinco e alguma coisa Daniel levanta. - Pra onde você vai? - Vou... pular corda! - Ah... por quê? Imagino que saindo no meio da noite assim ele vai me trair ou buscar uma faca na cozinha pra me matar, obviamente. Demora. - Nossa, acho que sonhei enquanto mijava...
Marcely contou às 5:35 PM
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Banalidade me lembra um monte de bananas indiferentes
Flagrei o Daniel no site do google só pra ficar passando o mouse encima do ¨google¨ escrito em braile (em comemoração ao aniversário de Louis Braille), achando graça que o cursor ficava no formato de mãozinha. Isso me lembrou uma vez em uma aula no laboratório de informática que eu fui tentar apontar o computador lá da frente com a seta do meu cursor.
Marcely contou às 5:34 PM
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Raindrops keep falling on my head
Algo que não consigo entender é como alguém que nasceu e viveu a vida toda numa cidade apelidada de ¨terra da garoa¨ possa se espantar tanto quando chove.
- Olha aquela nuvem!, - Caramba! Tem umas poças de água no meio da rua!, e depois: - Olha tem água até aqui na porta.
- Olha, Daniel, a chuva molhou o chão!, - O pano ficou molhado com a água, que legal, - Olha só, aqui dentro pára de chover. ¬¬
Deve ter algo a ver com a parte de sangue nordestino...
Marcely contou às 4:58 PM
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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006
O lençol enrugado
Isabela despertou ouvindo um grito. Seu olho abriu de um salto já que o corpo estava mais rígido do que costuma se mostrar nos filmes. Olhou em volta, tudo imóvel. Não, nem tudo imóvel, na janela batia um galho fazendo sombra no quarto iluminado pela lua. Se bem que iluminado deveria ser só amarelo ou branco, o quarto estava azul. Marinho, apesar do céu ser oposto ao mar. O lençol enrugado em suas costas, apesar do seu esmero em esticar bem o lençol à quase pregá-lo no colchão toda vez antes de dormir. A narradora só destaca os pontos negativos, como diria aquela mulher que na vida real estica os lençóis. Silêncio total, apesar do dic dic do galho no vidro e o glorc glorc do ponteiro do despertador quadrado, tic tac coisa nenhuma, Isabela gosta de variar. Ah, sim, o grito... Real ou sonho? Seja como for era sonho, o coração já se esquecera de acelerar enquanto ela olhava a janela tentando se situar no mundo... decidiu voltar a dormir, mas não sem antes esticar o lençol. Levantou e no vãozinho da porta o quê? Ela viu olhos brilhantes e um facão daqueles de pirata em pé, ao lado do rosto, o brilho prateado mais brilhante que o olhos... sabe como são esses assassinos sangüinários, não têm brilho nos olhos, moral, respeito à humanidade e ainda reclamam de tudo... grito? Ah, é mesmo, grito. Isabela então gritou, sem antes pensar na possibilidade de ser engano dos seus olhos. Calafrio daqueles de fazer ondinhas no corpo todo de tão forte. A primeira coisa a se pensar em fazer num mundo machista como esse é gritar pela mãe, pois subconscientemente a gente já sabe que o pai está sempre ausente. Como diziam naquele filme o talzinho e seu amigo invisível Brad Pitt, naquela cena... ah é! - Manhê-ê-ê! Putz, como saiu tremido, pensou Isabela. Ah é, só agora ela notara que o vulto sumira da sua porta... aliás por um bom tempo, fora tão rápida a visão que era de se duvidar. Na pontinha dos pés, para não acordar o próprio medo, lá foi ela pra abrir a porta, ir ao quarto dos pais como quando tinha 6 anos... e aquela vez em que ela viu eles.... que choque! Quer dizer, não maior que esse. E se formos raciocinar, que idéia ridícula essa de Isabela sair pela porta na qual acaba de ver um estranho com um facão para ver os pais...! Mas Isabela tem idéias lentas, e geralmente se perde entre elas, possivelmente esqueceu. Sorte que no caminho só tem escuro, e ela vai correndo aos pulinhos ritimados com o coração pra fugir das sombras - tem mais medo delas que do assassino, a tonta. Abre a porta bem alto pra não continuar a ser a única acordada. Já acordaram pela luz acee... Bu! Nem vou me apegar ao pior da cena pra não lhes dar o mesmo susto... mas dessa vez o problema realmente era pior que sexo. Sangue por todo lado... já se viu, a cabeça da mãe tombada como um carvalho em dia de sol, o pai com olhos arregalados como milho quando vira pipoca - pra calar a boca de quem disse que a narradora só vê o lado ruim das coisas. Uma cena e tanto, branca, vermelha e preta pra se entender a angústia que sente Isabela até hoje quando vê White Stripes na tv, sempre traz uma tristeza inexplicável - que eu, mais deusa que cirurgiã médica, sei de tudo. Agora ela grita decentemente, sem parar pra pensar - se bem que levou uns segundos pra sair do susto e gritar, mas dessa vez ela não ficou relacionando idéias como antes -, grita forte e dá quase pra acreditar na falta de egoísmo humano (afinal ela não gritou tanto quando a vida em risco era a dela), mas sem ilusões, isso era só porque o susto era impensavelmente maior. Lógico que se ela tem pateticamente medo do escuro também tem de cadáveres, mais até do que da morte (ora, ela tem 16 anos, ela não encara a morte como possível para ela). O vizinho, acorda ouvindo um grito. ¨Ah, deve ser só sonho¨, e volta a dormir, porque ele não tem dessas frescuras com lençol frouxo. A polícia suspeita de não sei quem, mas a narradora diria que foi o mordomo.
Marcely contou às 10:47 PM
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Meu conceito de Nietzsche, arrogância e amor
Tá que eu não agüentei ler aquele livro do Nietzsche inteiro que o Daniel me deu porque achei o filósofo prepotente demais, talvez por isso eu não tenha chegado à explicação do porque ele acha a arrogância boa, e a humildade maléfica... e isso eu só sei por observar os seguidores pé-no-saco dele (isso tudo o Nietzsche, não o Daniel). Pra mim é tão claro quanto a operadora (ok, eu juro me livrar dos trocadilhos abobalhados) que a arrogância é tão estupidificante quanto a teimosia. É só observar, o Daniel explica pra mãe dele que carboidrato é açúcar e ela diz "ah tá" bem descrente. É assim que um arrogante age, ele acha que já sabe. Hum... vou resumir esse post repetido com um: prefiro Sócrates. E tem mais, acho Nietzsche tosco pela sua descrição de amar. Possivelmente eu esteja dizendo isso influenciada pelos meus sentimentos, mas ele dizia aquilo influenciado pelo medo de se comprometer clássico dele. Não acho que pra amar de verdade é preciso tornar o outro desnecessário. Amor de verdade é mesmo esse egoísta, não tem altruísmo, afinal, nisso ele concordaria, não? Prefiro Darwin. E isso também está influenciado pelo fato de eu odiar medo de se comprometer, ô imaturidade da porra... Faça o que se quer, mas não fica fugindo e inventando justificativas por medo. (Quem é a menina que chora toda vez que pensa em procurar emprego? Pelo menos não fico me justificando que trabalhar é maléfico para o ser humano).
Marcely contou às 6:58 PM
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